Blockbusters de esquerda
Há algo de estranho no reino de Hollywood: os blockbusters americanos desta temporada têm sido marcados até aqui por uma certa tendência de esquerda. Primeiro, foi o ”Homem de Ferro”, estrelado por um bilionário da indústria bélica que decide destruir as armas que criou ao descobrir que elas estão sendo usada por senhores da guerra para oprimir pessoas indefesas no Afeganistão. Depois veio “Speed Racer”, em que um jovem piloto enfrenta grandes corporações que manipulam resultados do esporte para aumentar seus lucros. E mesmo “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, cujos vilões são soviéticos, tem um olhar crÃtico sobre a caça à s bruxas promovido pelo governo americano (no filme, Indy é investigado como colaborador dos comunistas).
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É um paradoxo um tanto cÃnico que filmes produzidos por conglomerados façam crÃticas a corporações ou que uma cinematografia que sempre glamorizou a guerra tenha se tornado de repente anti-bélica. E eu acrescenteria que é um paradoxo tornado possÃvel graças a George W. Bush. Um dos efeitos colaterais de seu governo desastroso foi promover um revival da velha idéia de “oposição ao sistema”. Em Hollywood, isso representou um novo filão de lucros. Na polÃtica, possibilitou o surgimento de um fenômeno como Barack Obama.
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No site americano io9, Charlie Jane Anders vê a questão por um viés mais psicológico, batizando a temporada de cinema como “o verão da culpa branca”. Segundo ele, os blockbusters do ano têm sido movidos pelo sentimento de culpa. Ele inclui na lista os ainda inéditos “O IncrÃvel Hulk” (em que Bruce Banner é usado pelo Exército americano como uma arma de guerra) e “O Cavaleiro das Trevas” (no qual Batman torna-se responsável pela existência do Coringa), além das séries “Lost” e “Battlestar Galactica”.
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Mas Anders também enxerga ressonâncias polÃticas nessa tendência de filmes. “Então, o que significa para nossa polÃtica que o entretenimento de verão pré-eleições esteja cheio de homens brancos esfregando as mãos por causa da culpa? Levando em conta que todos os filmes semi-realistas sobre a guerra do Iraque fracassaram (como “No Vale das Sombras” e “Stop Loss”), talvez nós só possamos lidar com um erro histórico tão colossal através das lentes da fantasia. Ou talvez essa seja a maneira encontrada por Hollywood para purgar a culpa pelas mudanças climáticas globais ou pelos efeitos corrosivos da economia sobre pessoas vulneráveis do mundo todo. Mais concretamente, talvez uma dieta de filmes com homens brancos falhos seja o que os americanos precisem para se convencer a dar a um afro-americano também falho para uma chance para a mudança. Ou talvez expiar nossa culpa no verão faça com que nós, brancos, nos sintamos melhor a tempo de eleger McCain.”

Comentário de DDdddddddddddddddddDDDDDsilva — 09/06/2008 - 18:33h
Me assusto com as informações e inferências destes crÃticos e jornalistas sobre o cinema e sua influência sobre a realidade que nos cerca, tendo por base uma análise que nos explicita até culpa e interesse escondidos de setores da sociedade americana.
Parabéns pelo Post, ò Calil.
Mas vejam voces que ao ler esta bela reflexão.
Pensei (coisa dificil de acontecer), no seguinte paradoxo:
OS TRAPALHÕES NA SERRA PELADA
Filme que escondia de maneira ardilosa um clamor popular pela situação de miséria do povo e sociedade brasileira. Que criticava de maneira absolutamente maquiada o regime ditatorial militar ga.y.zão da época.
Didi tinha uma verruga na cara, tinha GOTA, declarava-se o bonitão, mas no fundo no fundo era uma viadã.o
Dedé escada.
Mumu malandro pão com ovo.
Zaca não comprometeu.
Comentário de Cássio — 09/06/2008 - 23:08h
P**ra Kalil, mais spoilers? Dá pra não adiantar o enredo de Batman, por favor? Obrigado.
Comentário de valente — 10/06/2008 - 01:43h
mas será que o Homem de Ferro pode, a sério, ser considerado inimamemente “contestador”, Calil? não que eu não goste do filme, ao contrário, mas essa está longe de ser uma das suas qualidades, a meu ver.
um ótimo texto que segue por este viés pode ser lido aqui:
http://www.commondreams.org/archive/2008/05/21/9093/
Comentário de valente — 10/06/2008 - 01:45h
o link desse texto eu peguei numa lista de discussão onde depois alguém fez o seguinte comentário (desculpa ser em inglês mas é como era o original), que me parece talvez ainda mais pertinente:
If I give it some thought, I would say that the prime consideration in the making of “Iron Man” is, as always in Hollywood, commercial, not political. For the doves, they make the arms dealers the bad guys, with their double-dealing duplicity a rather obvious allusion to American foreign policy in the Middle-East (selling weapons to Iran, the Mujahadeen, Saddam Hussein, et al), and make Stark a conscience-stricken born-again pacifist (except when he has to kick Shane’s ass or kill some “bad” Afghans), but for the hawks they let the U.S. military off the hook and make them come off as “good guys,” along with throwing in some “bad” Afghans to make the cause look just. Consequently, the film winds up being both pro and anti war.
What’s the point? To not really offend anybody and aim for maximum box-office returns with many profitable sequels to come.
Comentário de Ricardo Calil — 10/06/2008 - 16:10h
Oi Valente, bom saber que você está do outro lado. E ótimos os links enviados. Talvez a palavra “contestador” seja forte para o “Homem de Ferro” e mesmo para o “Speed Racer”, que é um pouco mais atrevido. E claro que os finais dos dois filmes levam a uma certa acomodação das questões levantadas. O “Homem de Ferro”, por exemplo, livra a cara do Exército no final. Por outro lado, ele condena a ambição capitalista desmedida - representada pelo personagem Jeff Bridges. Se formos a fundo, as crÃticas talvez não se sustentam. Mas, num plano mais imediato de recepção, acho que os filmes são estranhamente crÃticos. Enfim, acho que essa leva de filmes com essa pegada indica algo - talvez que ser “gauche” seja um bom negócio. Abs, Ricardo
Pingback de Hulk, Batman e a manipulação da realidade | Afinidades Eletivas — 27/07/2008 - 23:09h
[...] Interessantes e válidas leituras. Contudo, em ambos os casos, fico com a sensação daqueles discursos esquerdistas onde é possÃvel ver a “mão ossuda, peluda e fedorenta do imperialismo” em todos os cantos. Já do outro lado da linha do Equador tem colunista americano (que deve ser considerado pelo Araújo e pelo Ribeiro como “direitista com sentimento de culpa”) dizendo que essa temporada é “do verão da culpa branca”. [...]