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26/07/2006 - 23:58

A cobertura de guerra do YouTube

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Nos últimos dias, o YouTube, site de compartilhamento de vídeos, foi inundado por uma série de gravações do conflito entre Líbano e Israel, feita por moradores dos dois países com câmeras digitais ou modernos celulares. São cenas de mísseis cruzando os céus, de explosões nos centros urbanos, de casas e escolas destruídas – quase sempre de baixa qualidade, mas com enorme sentido de urgência.

Identificado como “msoubra”, um libanês gravou os clarões das bombas de Israel explodindo na noite de Beirute (veja aqui). Ao colocá-lo no YouTube, deixou o seguinte comentário: “Esse vídeo traz de volta memórias assombrosas da invasão israelense de Beirute em 1982. Eu tinha apenas 4 anos. Mas o impacto dessas explosões nunca me abandonou. Para aqueles com sorte suficiente para não ter vivido uma guerra, pode parecer que se entende tudo apenas de ver a CNN ou a BBC ou de ler os jornais. Esse vídeo é uma tentativa de dar a você um sentido mais realista do qual terrível uma guerra pode ser para civis inocentes e crianças – como eu, 24 anos atrás.”

Em uma semana no ar, o vídeo foi visto mais de 307 mil vezes – o que o torna até agora o mais popular sobre a guerra no YouTube. Mas há dezenas de outros no site, realizados pelos dois lados (confira aqui). Os comentários dos “diretores” vão do indignado (“Tiberias atacada pelos monstros do Hezbolá”) ao sarcástico (“sorte nossa que os árabes não conseguem nem soltar mísseis direito”), do narcisista (“a música do vídeo foi feita por mim”) ao encabulado (“o vídeo foi realizado com um celular, desculpem pela má qualidade”).

A guerra de Israel e Líbano é a primeira da era YouTube, com uma cobertura extensiva no site feita pelos dois lados. No início dos outros dois grandes conflitos bélicos atuais, no Afeganistão e no Iraque, o site ainda não existia (ele foi ao ar em fevereiro de 2005). Além disso, o poder aquisitivo de israelenses e libaneses é bastante superior ao de afegãos e iraquianos – o que permite maior acesso a câmeras e celulares sofisticados.

Como lembra o colega Pedro Doria, o blog de Salam Pax ficou famoso no mundo todo no início da guerra do Iraque ao trazer relatos sobre o cotidiano de Badgá à espera dos bombardeios americanos, em contraposição à pauta mais impessoal dos grandes jornais. Agora, os vídeos caseiros do YouTube fazem o mesmo em relação ao conflito de Israel e Líbano, com a força dos sons e das imagens em movimento. É como se, em um intervalo de três anos, a internet tivesse passado da literatura ao cinema, do diário ao documentário.

Ou seja, o YouTube oferece a possibilidade de um novo conceito de cobertura de guerra, mais personalizada, democrática e pulverizada. Qualquer pessoa com uma câmera digital e acesso à internet pode colocar no ar de maneira muito rápida um vídeo caseiro sobre o horror de um conflito bélico, seja um depoimento em primeira pessoa ou a denúncia de um crime de guerra, sem passar pela censura das TVs e dos militares. Ainda não se pode prever a importância dessa novidade no futuro, mas o potencial é gigantesco. Conhecido por seus vídeos engraçados ou excêntricos, o YouTube agora revela seu lado sério e político.

É mais um feito desse site prodigioso. Com pouco mais de um ano de vida, o YouTube conseguiu concretizar aquilo que a tecnologia prometia há mais de uma década: a convergência entre TV e internet. De tempos em tempos, surge uma marca que aglutina em um único espaço uma certa tendência da rede e torna-se sinônimo de um produto. Foi assim com o Google e buscas. Com o Orkut e relacionamentos. E agora com o YouTube e vídeos.

O YouTube é um fenômeno que já não pode ser ignorado e provavelmente não será passageiro. A cada dia, o site recebe 35 milhões de acessos a seus vídeos, ganha 35 mil novos arquivos e produz sucessos de popularidade. Pode ser a cabeçada de Zidane, que foi baixada mais de 1,5 milhão de vezes em poucos dias e gerou várias paródias; ou Fernando Vanucci apresentando um programa esportivo completamente grogue; ou ainda o piloto de uma série renegada pela TV, que será enfim produzida pela NBC por causa do sucesso no YouTube. E agora também um bombardeio em Beirute ou Haifa.

No site da revista eletrônica Cinética, o crítico de cinema Cezar Migliorin fez até agora a melhor e mais apaixonada defesa do YouTube na internet brasileira: “YouTube é a TV que eu quero. Uma medição inteligente entre o acúmulo infindável de imagens e os nossos interesses. Cineastas, VJs, jornalistas, mediadores, artistas, arquivistas – todos no mesmo lugar. A TV dos homens quaisquer. As playlists são o zapping inteligente. (…) O audiovisual em comunicação – o texto do Fulano que se conecta com a cabeçada do Zidane, que se conecta com o vídeo da violência do Materazzi, e depois com o rap francês “cabeçada”. A TV em rede.”

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20 comentários para “A cobertura de guerra do YouTube”

  1. JOÃO Paulo disse:

    Essa nota está tão técnica e complicada que o único comentário que posso fazer é êste:Ja! Naturliche das ist möglich.Danke schön e Auf wiedersehen. Hehehe!

  2. rodolfo disse:

    técnica? complicada??
    bom, cada um é cada um…
    o youtube também está cheio de vídeos feitos por soldados yankis no iraque… é só um dos lados do conflito, mas são imagens também inéditas… chaves de pesquisa: “iraq” e “marines”, ou “iraq” e “war”

  3. Marcos Hecksher disse:

    Sim, o poder indivudual de propagar textos e imagens aumentou, assim como o poder individual de destruição em massa. Hoje um único homem pode fazer uma guerra, e também sua prórpia cobertura. Mas quem tem o poder de evitar a destruição? Temos todo o direito ao deslumbramento com as novas possibilidades técnicas. Realmente o monopólio da informação e da destruição está dando lugar a um acesso mais democrático aos meios. Mas, afinal, o que vamos fazer com isso? Mais um post no mundo. Alguns leitores, talvez. Solução à vista, nenhuma.

  4. HH disse:

    Quem é a Maçã Dourada??

  5. LZ disse:

    Guerra nunca foi algo gratificante, mas com a revolução tecnológica acompanhada pela involução moral humana, teremos ainda várias novidades para assistir. Mas o que faltou mesmo foi a filmagem dos treinamentos dos terroristas, perto da população civil, que lhe serve de escudo. Estou também esperando no YouTube, filmagens dos traficantes nos morros cariocas, os da polícia a mídia já mostra.

  6. Everton disse:

    Não é tanto o fato do mostrado ser uma Guerra no YouTube que é uma revolução. É o fato das pessoas sem qualquer qualificação e com pouco investimento poderem fazê-lo. Lembro do caso do ataque homofóbico de um grupo de pit-babacas na Praia de Ipanema neste último carnaval. Na hora, os atacados até procuraram a polícia (que não fez nada). Mas a população na praia, ESPONTANEAMENTE, tirou diversas fotos do ataque com seus celulares e começou uma campanha de envio destas fotos pela internet (listas de discussão, orkut, etc). Resultado: dado a repercussão e a prova cabal do ataque, os perpetradores foram encontrados e hoje respondem a processo (assim como os policiais que nada fizeram logo após o ataque). O mundo já era registrado continuamente, mas quem registrava eram profissionais que também escolhiam os fatos mais relevantes (na ótica deles, né). Agora, esta possibilidade está aberta a todos, e é a repercussão do fato na Internet que faz a pauta dos profissionais… O munda dá voltas, né?

  7. Bola disse:

    O boingboing está acompanhando a repercussão da guerra na blogosfera. De lá vc pode entrar no blog de um cartunista libanes http://www.flickr.com/photos/72795424@N00/196555256/
    que está desenhando debaixo das bombas.
    Ou então a representação do numero de baixas de todos os lados:
    http://www.moiz.ca/coffin.htm

  8. nadica disse:

    Muito boa sua obsservação, Everton!
    É uma verdadeira revolução, sim, vc poder escolher o que vc quer ver, os dois lados de uma situação, aquilo que a imprensa não mostra, o que é preterido nas reuniões de pauta dos telejornais… E o mais importante, isso tudo é registrado por anônimos, e o conteúdo é acessado por pessoas no mundo inteiro. É esse poder descrito no caso da propagação de fotos dos agressores de Ipanema que a informação nos dá, e é por isso que faltam opções inteligente de programação…

  9. O YouTube é sensacional ao ampliar as possibilidades da rede.
    Oferece mais opções a uma informação democrática, diferente dos chavões dominantes na mídia tradicional e dominante.
    Na rede, mesmo em moldes “tradicionais”, também vemos a desmistificação da desinformação a que a mídia oligopolizada nos quer submeter.
    Exemplo de informação vital, nunca mostrada pela CNN, nesta página da “internet”.

    http://www.resistir.info/moriente/ajuda.html

  10. Te disse:

    Viva o YouTube, a mídia mais divertida da web!

  11. Cinéphilo disse:

    creio ser fantástica essa possibilidade de assistir ao nascimento de uma nova forma de relacionamentos – inclusive entre produtores de informação e seus consumidores.

    a rede virtual cresce, se devora e recicla com uma voracidade tremenda, e gera exponencial e acelerada evolução. é muito mais do que poderíamos pensar como “real” há até pouco tempo atrás; é de uma ORGANICIDADE que envolve – e começa a ser, ao menos pra mim, o grande fator revolucionário, o termo que definirá o embate entre público e privado, entre comercial e não-comercial, entre profissional e amador, e o valor cada vez mais relativo de tudo isso: no século que mal começou, e por essa aurora promissora nos faz imaginar o quanto ainda não está por vir…

    a teia de mídias interligadas, tudo “linkado” em hipertextos, imediato, mais-que-democrático… uau! simplesmente fantástico.

  12. Cinéphilo disse:

    … e, diferentemente do que alguns posts anteriores, creio sim na solução que surja desse emaranhado caótico de possibilidades.

    melhor: não que surja DO emaranhado, mas que SEJA O PRÓPRIO, com toda sua potência, sua capacidade, sua cada vez mais real onipresença.

    este é um mundo em transformação. mas: haverá um amanhã? ou a noite de tormentas será o único destino possível?

    ou seja: chegaremos a um limite, nisso tudo? velhas ideologias totalitárias poderão ressurgir, amparadas por essa tecnologia absorvedora e invasiva? ou veremos talvez o nascer de um dia pleno, em uma era completamente nova, com novos valores, nova “Humanidade”?

    suportaremos ao inextricável ( e inevitável) pendor de nossa própria adaptabilidade?

  13. Zé Bush disse:

    well….seria a imagem pela imagem? A imagem como um fim em si?
    Só isso??????

  14. João Paulo:
    Sim! Naturalmente isto é possível. Muito Obrigada e Até a vista hehehe

  15. Tadeu disse:

    Assistam esse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=R0uphYOoggE&mode=related&search=
    Eu louvo a diversidade do YouTube, mas isso é intolerância da mais sangrenta. Hizbollah é o demônio. Olmert, Bush e a Força Aérea Israelense são a esperança.
    Deve haver vídeos semelhantes exaltando o ódio árabe.
    Isso é válido. Quer dizer, liberdade deve ser respeitada até onde? Dentro da liberdade existe o ódio. Ele deve ser aceito?

  16. Tadeu disse:

    a pergunta é: isso é válido?
    faltou a interrogação.

  17. JOÃO Paulo disse:

    CLARA:Ja mein lieb. Gut!

  18. Rogge disse:

    João Paulo,
    wenn ein Brasilianer deutsch spricht, muss unbedingt portugiesisch lesen können. Como então não consegues ler um texto tão claro como o do post?

    E viva o YouTube ! A mais perfeita comunidade de informações do mundo !!!

  19. Carlos Marques disse:

    As maravilhas do YouTube e toda essa convergência vindoura é sem dúvida fantástica. Não quero parecer o pessimista de plantão, mas receio dois efeitos. Um o de forçar ainda mais a decadência de nossa imprensa; afinal, se todos já possuem fontes bem mais rápidas e diretas de informações, os meios de imprensa acabarão se focando em outras ações menos informativas e mais populistas (tal como aconteceu com a TV aberta após o avanço da TV por assinatura). Além disso, o outro risco é que, em algum momento, “alguéns” mais “poderosos”, com medo de tamanho acesso geral a informação, acharão meios de filtrar este acesso de alguma forma. E mais: como em todo processo de censura ou anti-democrático em geral, sempre haverá quem apóie esse tipo de conduta, por se acharem pessoalmente aviltados por algum video específico (e é claro que isso acontecerá com todos, em algum momento, como acontece em qualquer meio realmente democrático de constante exposição a idéias diversas).

  20. Cesário disse:

    Nasceu a fonte mais proxima da ideal para se obter informações. A mídia possui interesse economico e cumpre o seu papel de informante dos dominantes e tentam perpetuar a desinformação.
    Neste caótico mundo da desinformação, muito bem vindo este caótico mundo da informação do You Tube!!!

Os comentários do texto estão encerrados.

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