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28/07/2006 - 00:01

O fascinante, exasperante mundo de “Estamira”

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O documentário “Estamira”, que estréia hoje depois de acumular 23 prêmios internacionais, nasceu de uma série de ensaios fotográficos realizada pelo diretor Marcos Prado (produtor de “Ônibus 174”) no aterro sanitário do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). Em 2000, ele conheceu a catadora de lixo que dá nome ao filme, percebeu estar diante de um personagem fascinante e registrou seus passos ao longo de quatro anos para realizar o filme.

Esquizofrênica, a mulher de 63 anos fala em um complexo idioleto (um sistema lingüístico individual) e tem uma visão de mundo ao mesmo tempo messiânica e paranóica. “A minha missão, além de ser a Estamira, é mostrar a verdade e capturar a mentira”, afirma. Para realizá-la, porém, ela terá que lutar contra os “trocadilos” e os “espertos ao contrário”, entidades indefiníveis que ocupam a sua cabeça. Mas, como ela mesmo explica, “tudo que é imaginário tem, existe, é”.

O documentário tenta encontrar uma tradução visual e sonora para o universo bipolar de Estamira, alternando-se entre um preto-e-branco granulado, sujo, e um colorido estourado, vibrante. Esses dois tratamentos tentam dar conta do lado obsucuro e do luminoso, do profano e do sagrado da personagem. O resultado é um filme à imagem e semelhança de Estamira e seu discurso: inspirado em alguns momentos, exasperante em outros; fascinante e moncórdio em iguais medidas.

“Estamira” tem o grande mérito de evitar alguns grandes chavões de filmes sobre personagens com distúrbios mentais: o elogio fácil da loucura, o psicologismo barato, a denúncia do sistema de saúde. O documentário passa por todos esses temas, mas não se detém em nenhum deles. Prado revela o sublime de Estamira, mas não esconde seu ridículo. Aponta possíveis causas para sua condição, mas recusa um diagnóstico psiquiátrico. Mostra as terríveis condições de trabalho no lixão, mas demonstra que ela encontrou ali equilíbrio e amizades. Em seu primeiro filme, o cineasta deixa de lado as fórmulas prontas para realizar um filme tão singular quanto o universo de sua protagonista.

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9 comentários para “O fascinante, exasperante mundo de “Estamira””

  1. eugênio onça disse:

    porra, eu gosto muito do seu blog. sempre fico a fim de ver as coisas que você comenta. parabéns, cara. tomara que você não seja um chato pessoalmente.

  2. Ricardo disse:

    Eu tenho medo dessa geração que não quer denunciar nunca nada, também. É mostrar o retratado só para tirar proveito, me espanta um crítico que elogia o documentário exatamente por tirar o humanismo e mais ainda é triste chamar a personagem de ridícula. Eu sei que a resposta virá com mil argumentos, mas o texto revela o desejo de ver um documentário sem os probleminhas do mundo, um cinema só de sonho, bem no clima ela até achou amigos e se diverte no lixão.

  3. Flávio disse:

    Bom dia…

    Não me diga que este é mais um texto daqueles que reverencia o modo de vida
    sofrido de mais um ‘Ser Humano’ brasileiro. Do mesmo modo Nereu Cerdeira
    explora a imagem do catador de papel reciclável o cinéfilo Jose Luis Zagatti. Já me
    cancei de visitar cineclube, exposições fotográficas como a de Sebastião Salgado que é outro que explora a imagem alheia e se diz estar denunciando os maus tratos dos menos favorecidos! Hora, tenha santa paciência: Leve até eles uma palavra de carinho e proporcione algo concreto para talento dessa gente realmente aparecer na mesa a cada dia. Ao menos para eles terem um prato de comida por dia ! ! !

  4. Nicole Gomes disse:

    Vi uma entrevista do Marcos Prado no Sem Censura e fiquei fascinada tanto no filme, como na Estamira, quanto na forma como tudo aconteceu… como os dois se encotraram. Acho que ela tem uma ótima mensagem pra passar, mto alem de momentos de loucura. A qualidade da imagem tbm é algo fascinante…espero que o filme passe tambem no interior, para que eu possa ver.

  5. É curioso como os argumentos de alguns contra “documentários de personagens marginais” resvala em um certo preconceito, considerando sempre o retratado como um “coitadinho”, alguém que não tem defesas ou possibilidade de escolha diante de um malvado cineasta que só quer “tirar proveito”, “explorando” a imagem do pobre coitado indefeso. Isso não estaria escondendo uma prepotência e um menosprezo por parte justamente de quem critica os cineastas por essas características?

    Concordo que há casos e casos, mas nos dois citados (“Estamira” e “Zagatti”) não vejo nada disso. Vejo, pelo contrário, um grande respeito por parte dos diretores diante de seus retratados.

  6. sergio disse:

    Não existe no filme de Marcos Prado exploração fácil da miséria e muito menos uma postura pasteurizada de ficar em cima do muro diante de uma injustiça. A realidade do filme é outra mostra o pensamento implacável de Estamira. O filme poderia cair na armadilha de rotular a personagem de louca e seguir pelo caminho fácil da crítica social ou da crítica ao sistema de saúde.Ou mesmo discutir a validade do pensamento de uma louca. Entretanto Marcos dá voz e visibilidade ao tradicional lixo humano. O filme é extraordinário ao mostrar o quanto estamos errados em nossos preconceitos e o quanto a nossa civilização é louca em sua pseudo lucidez. Apesar dos neologísmos, que são ótimos, a narrativa da personagem é lúcida e politizada em seus gritos contra a hipocrizia, a mentira e a religião humana. Do meio do lixo é mostra que está tudo um lixo. Resumindo, Estamira é um daqueles filmes necessários e eternos. Uma jóia rara. Parabéns ao diretor. Parabéns a Estamira. Filmaço.

  7. lc disse:

    Não vi o filme ainda, mas já ouvi falarem muito bem.
    Interessante como, das críticas acima, as ruins me parecem ter saído de quem justamente não viu o filme. Quem afirma que viu parece ter gostado.
    “Não-vi-e-não-gostei” não dá!!!!

  8. Cinéphilo disse:

    legal perceber que enquanto o cinema de ficção parece estar ainda buscando formas e novos gêneros, no Brasil, o cinema de documentário encontra campo farto para experimentações e criatividade. já se disse que o documentário – nessa retomada/reciclada mundial do “gênero” – “pegou” muito bem por aqui, e pelo texto do Calil fico a crer que “Estamira” cumpre – largamente – o vaticínio.

  9. Virginia Oliveira disse:

    Olá

    Eu moro no Canadá e gostaria de comprar o DVD. Vc por acaso saberia onde poderia achar (on-line)?
    obrigada
    V

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