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25/09/2006 - 00:01

À margem da imagem

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Em 1989, o baiano Edgard Navarro realizou o média-metragem “SuperOutro”, ganhou o prêmio principal de sua categoria no Festival de Gramado e foi saudado como um dos mais promissores cineastas brasileiros. O próximo passo seria naturalmente um longa-metragem. Mas, com o governo Collor e o fim da Embrafilme, o sonho teve de ser adiado. Quando começou a “retomada” da produção a partir de 1993, ele achou que seus projetos sairiam do papel. Mas também não foi fácil encontrar seu espaço na era das leis de incentivo.

Em 2001, Navarro ganhou um edital do governo da Bahia para realizar “Eu me lembro”, baseado nas memórias afetivas de sua infância e adolescência em Salvador. Como o dinheiro não era o suficiente, ele teve que esperar por uma verba adicional do BNDES. No ano passado, o cineasta concluiu a obra e ganhou sete prêmios no Festival de Brasília, incluindo o de melhor filme. Nesta sexta-feira, o filme estréia em São Paulo; na semana que vem, será apresentado no Festival do Rio. Entre a realização de “SuperOutro” e o lançamento de “Eu me lembro”, passaram-se 17 anos. O diretor baiano finalmente tornou-se um estreante em longas-metragens. Aos 56 anos de idade.

Em um país com uma cultura cinematográfica sólida e saudável, Edgard Navarro seria uma exceção. No Brasil, ele é o símbolo de um grupo de grandes diretores que teve sua carreira interrompida ou entrecortada por uma série de problemas conjunturais e estruturais do nosso cinema. Um digno representante da vocação brasileira para o desperdício de talento.

Há inúmeros casos similares. Em 1971,ASndrea Tonacci realizou “Bang bang”, considerado um clássico do cinema marginal. No ano que vem, ele lançará “Serras da desordem”, brilhante filme que ganhou o Festival de Gramado há dois meses. Entre o primeiro e o segundo longa-metragem, foram 36 anos. Maurice Capovilla fez “O jogo da vida” em 1977; o longa seguinte, “Harmada”, veio em 2003. Ou seja, um intervalo de 26 anos. André Luiz Oliveira ficou 19 anos sem longas entre “A lenda do Ubirajara” (1975) e “Louco por cinema” (1994).

José Mojica Marins, que faz sucesso nos Estados Unidos com o personagem Zé do Caixão, luta há anos para fazer um novo filme. Ozualdo Candeias, diretor de clássicos como “A Margem”, já nem cogita a hipótese. Morto há dois anos, Rogério Sganzerla, talvez o único gênio do cinema nacional surgido depois de Glauber Rocha, ficou décadas sem conseguir fazer um longa de ficção.

Para Tonacci, cineastas como Sganzerla literalmente adoeceram por não conseguir filmar. Outros se viraram como podiam. Capovilla fez telefilmes e trabalhou como professor de cinema; Navarro montou peças de teatro; Tonacci fez institucionais.

Construir uma obra contínua é um desafio para a maioria dos cineastas brasileiros. Mas a questão é ainda mais complexa para alguém que recebeu, em algum momento, o rótulo de cineasta marginal ou maldito – caso de todos os citados acima.

Com a exceção de Navarro, que pertence a uma geração mais jovem e desenvolveu sua carreira na Bahia, a grande maioria desses cineastas realizou filmes entre os anos 60 e 70 na chamada Boca do Lixo de São Paulo, que foi o epicentro tanto da pornochanchada quanto do chamado cinema marginal ou “udigrudi”.

Dessa turma, só dois conseguiram realizar filmes com regularidade nos últimos anos: Carlos Reichenbach e Julio Bressane. Segundo este último, o rótulo “marginal” não faz o mínimo sentido. Ele seria apenas uma forma que o cinema oficial encontrou para segregar um cinema mais livre e independente. Com ou sem sentido, o apelido pegou – e a maioria dos cineastas associados a ele permaneceram à margem da imagem.

Bressane, Tonacci e Navarro são unânimes ao afirmar que existe uma questão política por trás dessa situação de marginalidade. Segundo os três cineastas, há produtores e diretores ligados ao poder – no passado, à Embrafilme; hoje, às estatais que financiam o cinema via leis de incentivo – que fazem tudo para concentrar os recursos e evitar que eles sejam pulverizados. Isso pode a ajudar a explicar por que tantos cineastas medíocres produzam filmes com freqüência no Brasil, enquanto outros com enorme talento fiquem anos sem filmar.

“Eu não tenho talento para o tapinha nas costas. Até admiro quem tem, sem ironia, mas não é o meu caso”, diz Navarro. Depois de fazer essa constatação, o cineasta baiano tomou uma decisão radical. Ele não pretende mais fazer filmes se não tiver apoio garantido ou um produtor na retaguarda. “Não quero ficar correndo atrás de dinheiro. Meu trabalho é um sacerdócio. Não vou ficar de braços cruzados, mas não quero mais me esfalfar. Se não der certo, vou pular fora do cinema”, afirma.

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8 comentários para “À margem da imagem”

  1. Estréia hoje uma série de artigos sobre as histórias dos bairros cariocas. Flamengo é o primeiro a ser citado…
    E mais: Violetas na Janela – Shopping da Gávea – 31 de Setembro; Cronistas; Reportagens e muito mais no http://www.cronicascariocas.com.br .

  2. Gustavo disse:

    É realmente uma pena que talentos assim sejam disperdiçados. Não só na cinema ou na cultura, de uma forma geral, mas em diversas áreas muitos brasilieiros geniais precisam procurar outros pagos, ou então, o que é pior, outras atividades…

  3. Enquanto isso o Cacá Diegues comete quanse num só fôlego “Tieta”, “Orfeu”, “Deus é brasileiro” e “O maior amor do mundo”!!!!
    Só no último ele gastou mais que o Babenco em Carandiru!
    E com dinheiro público, deu a si mesmo um cachê de R$ 750 mil para, digamos, dirigir o, digamos, filme.
    É, estamos bem…

  4. Cinéphillo disse:

    …cadê o terrorismo cultural brasileiro?

    alguém ponha uma bomba naquela Globo Filmes, faiz favor!

    raçudos são mesmo os índios, quando põem o facão no pescoço dos diretores da FUNAI.

    tá faltando um homem-bomba na sala do ‘seo’ ministro-oslodum!

  5. Theo disse:

    De fato, é patético largar o cinema brasileiro na mão de meia dúzia de executivos, que preferem guardar o dinheiro pros Barreto e pro Cacá Diegues (argh!), mas… pô, a concorrência é uma dureza. Esse filme do Navarro é ruim demaaaaais.

  6. Joel Barcellos disse:

    Bravo Navarro, mas se console com seu amigo com 60 filmexs representados em 3 linguas, só me aparece os jovens que me pedem para trabalhar de graça durante um dia – “não peça para fazer de graça a única coisa que sei fazer para ganhar dinheiro” Cacilda Becker a uma pessoa que lhe pediu ingresso gratis para ver a peça. Vou agora aos 70 anops rodar o Brasil mostrando meus filmes as novas gerações…q por acaso estejam interessadas em saber o q era o CN, Cinema Novíssimo, Marginal, Internacional, Antropológicos como “Imagens do Inconsciente” e “Tropicos”

  7. anrafel disse:

    É no que dá o cinema brasileiro ficar dependendo a vida toda de patrocínios culturais, Lei Rouanet e quejandos. Os mais espertos conseguem o grosso da grana e fazem filmes que poderiam muito bem ser bancados sem a ajuda do Estado, enquanto os Edgard Navarro vêem suas vidas de cineastas perdidas nos meandros da burocracia ou da intolerância política.
    E o pior é que não dá pra vislumbrar a criação de uma indústria nacional de cinema que mereça esse nome.

  8. Roberto Pedreira de Freitas Ceribelli disse:

    Fica bom meu amor, fica bom … fica bom
    … fica … meu amor … Beto … só tenho
    … eu … Beto … Beto … não te abandonarei por nada até … porque …

Os comentários do texto estão encerrados.

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