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25/10/2006 - 00:01

A volta por cima de Scorsese

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Martin Scorsese é um cineasta que sabe se adaptar ao tema de seus filmes, à personalidade de seus protagonistas. Ele pode ser delicado e convencional, como em “A época da inocência” (1993). Etéreo e transcendente, em “Kundun” (1997). Perfeccionista e megalomaníaco em “O aviador” (2004). Filmes dignos, sem dúvida.

Mas o melhor Scorsese é impulsivo e sanguíneo, vulgar e profano. Como em “Caminhos perigosos” (1973) “Taxi driver” (1976), “Touro indomável” (1980) e “Os bons companheiros” (1990). Não por acaso, são seus maiores filmes, aqueles que definem seu estilo e o distinguem dos cineastas mortais.

A violência é o habitat natural do cinema de Martin Scorsese. Ele se sente mais à vontade nas ruas perigosas do que nos salões fechados. Seus melhores companheiros são os pequenos os pequenos mafiosos, os policiais, cafetões e desajustados em geral.

Se “Os infiltrados” – novo filme do cineasta, que será exibido amanhã na Mostra de São Paulo e estréia no Brasil no dia 10 de novembro – representa uma volta por cima na carreira de Scorsese, isso se deve em grande parte ao retorno a esse habitat.

Mas, para reencontrar-se consigo, Scorsese teve de ir até a Ásia. Desta vez, porém, nada a ver com as montanhas sagradas do Tibete. “Os infiltrados” é um remake de “Conflitos internos” (2002), grande sucesso do cinema de Hong Kong, dirigido por Andrew Lau e Alan Mak (e já lançado em DVD no Brasil).

Para um cineasta da estatura de Scorsese, o remake de um filme de ação asiático pode parecer um trabalho menor. Grande engano. Primeiro, porque Hong Kong está na vanguarda do cinema policial há alguns anos, como provam os filmes de John Woo (“The killer”) e Johnny To (“Eleição”). Depois, porque Scorsese obviamente não se contentou em transpor a história para a máfia de Boston, mas também encontrou no original os parentescos com seu universo cinematográfico.

Nesse sentido, a escolha de “Conflitos internos” não poderia ser mais apropriada. Porque o filme asiático trata de um tema central na obra de Scorsese: o dilema entre lealdade e traição de um homem a seu grupo. Só que a trama multiplica esse conflito por dois, como se o colocasse diante do espelho. E aí reside grande parte da graça de “Os infiltrados”.

O filme conta as histórias paralelas de dois homens infiltrados entre seus inimigos: Collin Sullivan (Matt Damon), detetive de polícia que atua como informante de Frank Costello (Jack Nicholson), líder da máfia irlandesa de Boston; e Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), policial que entra para o grupo de Costello para passar informações sobre o criminoso para seus chefes Queenan (Martin Sheen) e Dignam (Mark Wahlberg).

Em pouco tempo, os dois lados descobrem que há um “rato” entre suas fileiras. Collin recebe a missão de descobrir quem é o policial entre os mafiosos; e Billy, quem é o informante entre os tiras. Além disso, os dois se envolvem com a mesma mulher (Vera Farmiga), uma psicóloga da polícia.

O menor dos méritos de Scorsese no filme é mostrar essa complexa trama sem nunca confundir o espectador. Outro, mais importante, é administrar os egos de seu elenco estelar e conseguir interpretações niveladas em um patamar elevadíssimo – com destaque para Nicholson, não menos que brilhante em sua gaiata encarnação do mal.

Mas a maior virtude do cineasta é pegar o exercício puro de ação do filme original e transformá-lo em uma tragédia americana sobre o círculo vicioso, catártico e inútil da violência.

O esforço de Scorsese foi recompensado com a consagração dupla de público e crítica nos Estados Unidos. O filme teve a melhor bilheteria de estréia da carreira do cineasta (US$ 26,9 milhões, contra US$ 10,3 de “Cabo do Medo” em 1991) e colheu elogios de quase toda a imprensa (no site Rotten Tomatoes contabilizou 93% de textos positivos).

Isso transformou “Os infiltrados” em um candidato natural ao próximo Oscar, em particular nas categorias filme, diretor e ator (para Nicholson). Scorsese poderá ganhar sua primeira estatueta ou ratificar a condição de grande perdedor da história do prêmio (ele já concorreu e foi derrotado sete vezes).

Curiosamente, o grande concorrente de “Os infiltrados” até agora é “A conquista da honra”, de Clint Eastwood – o que pode levar a um novo embate entre os dois cineastas, como aconteceu há dois anos com “O aviador” e “Menina de ouro”.

Mais importante do que discutir as chances de Scorsese no Oscar é perceber que um dos maiores cineastas de seu tempo está de volta a sua melhor forma, com um filme que fica apenas um pouco atrás de suas obras-primas.

Se “Os infiltrados” não chega ao patamar de “Taxi driver” e “Touro indomável” é porque a força do novo filme baseia-se mais na engenhosidade da trama e na excelência das atuações do que na originalidade da mise en scène e no virtuosismo da edição, marcas-registradas do cineasta. Ainda assim, é o melhor Scorsese dos últimos 15 anos.

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14 comentários para “A volta por cima de Scorsese”

  1. Romeu Martins disse:

    Estranhei a ausência de Guangues de NY, filme que, apesar do que diz certas críticas, reúne exatamente as mesmas qualidades apontadas em Os Infiltrados.

  2. Klink disse:

    E quando vai sair uma versão remontada de Gangues? Dá pra ver que os filme tem qualidades que foram diluidas na pessima montagem.

  3. Marcelo disse:

    Eu também acho Gangues de NY um grande filme. Deu azar de sair na época do atentado às torres gêmeas. Naquele momento os americanos não estavam preparados para o filme…

  4. -= Há muito eu aguardo um filme digno de Scorcese para quando eu disse que ele é um de meus cineastas favoritos, possa ser mais atual nos filmes que discuto.

    A melhor coisa dele ultimanente foi a participação dele em Shark Tale.

    E olhe lá.

  5. Rodrigo disse:

    Scorsese mantém uma média altíssima na qualidade de seus filmes, o q o torna, ao lado do próprio Clint Eastwood, o maior cineasta americano das últimas décadas.

    Até o mais fraquinho dele nesses últimos anos, o “Vivendo no limite”, com o Nicolas Cge, é um filme interessantíssimo.

  6. Saitou disse:

    Casino não entra como uma das melhores obras do cara??? Acho Os Bons Companheiros e Taxi Driver os melhores filmes do Martin, mas Casino é igualmente destruidor.

  7. Ricardo Calil disse:

    Oi caros, obrigado pelas respostas. Acho tudo que o Scorsese faz bem melhor que a média do cinema atual. Mas considero “Gangues” inferior a esse núcleo duro que citei. Já o caso do “Casino” é diferente. A primeira metade é brilhante. A segunda é mais fraca. Por isso, não entrou na lista. Abraços, Ricardo

  8. ANTI-MIDIA disse:

    Clicando no link abaixo, você pode assinar a petição que será enviada ao Ministério Público Eleitoral para exigir respeito ao (e)leitor brasileiro e o cumprimento de deveres das empresas de comunicação que usufruem de concessão pública. A iniciativa é do professor Bajonas Neto, e se inspirou nos recentes números da pesquida do Observatório Brasileiro de Mídia, que já foram motivo de inserção nesse blog. (Leia abaixo nesta página). Quanto maior o número de assinaturas, mais expressiva será a indignação de (e)leitores conscientes de sua cidadania.

    http://www.petitiononline.com/mod_perl/signed.cgi?b1a2j3o4&3151

  9. Alexandre disse:

    Scosese é gênio… isto ninguém duvida…. mesmo pq ele conseguiu fazer Dylan descer do seu pedestal e dar uma entrevista como simples mortal… quem havia faito isto antes ???

  10. Klink disse:

    Ricardo, pelo amor de Deus, cadê O Rei da Comédia? Esse é um dos melhores filmes do Martin!

  11. Estou ansioso para ver o novo, perdí aqui no festival do Rio…

    Ricardo, Não sei se vc conhece o blog cinecasulofilia.blogspot.com, acho que vale a pena colocar aí nos seus links.
    Filmaços, muito bem comentados…

  12. izaq bast disse:

    tomara que façam justiça ao cara,o cinema as vezes é injusto demais com grandes nomes como desse cara.

  13. Roberto Pedreira de Freitas Ceribelli disse:

    So come in here and I help you to do a perfect movie for life and no death … clock work orange in action … Do you copy me … body … the power of arts … Beto …

  14. Carlos Marques disse:

    Estou me sentindo um ET em relação a este novo filme do Scorcese. Achei bem mediano, e bem aquém de Gangues de NY, por exemplo. Para começar, o Jack Nicholson parece que congelou aquela cara de tarado mau desde “Bruxas de Eastwick” e não desfez mais, inclusive e principalmente neste filme. O personagem não inspira qualquer temor nem admiração, e não sei pq insistem neste clichê que todo personagem dele tem que ser tarado. No mínimo desnecessário neste filme. Os demais atores não comprometem mas também não salvam – exceção, talvez, ao Mark Wahlberg, pelo lado positivo. A química (ou falta de) da psicóloga com os “meninos” é risível e não convence. De bom mesmo, o belo início, o ritmo alucinante e muito bem editado da trama e o ótimo uso da tecnologia (via celulares) no jogo de gato e rato. Scorcese sem dúvida merece um Oscar em sua carreira, mas não merecidamente por este filme.

Os comentários do texto estão encerrados.

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