Publicidade

Publicidade
26/10/2006 - 00:01

A vergonha de uma nação

Compartilhe: Twitter

Asif Iqbal, Ruhel Ahmed e Shafiq Rasul são ingleses muçulmanos de origem paquistanesa, moradores de Tipton, com idades entre 20 e 30 anos. Como filhos de imigrantes, os três amigos cresceram divididos entre a cultura de seus pais e a do país que estes adotaram. Eles gostam de rap e falam inglês com sotaque britânico, mas também freqüentam mesquitas e arranham o urdu, idioma oficial do Paquistão.

No final de 2001, eles foram até o Paquistão para o casamento de Asif. Com tempo livre antes da cerimônia, decidiram viajar ao vizinho Afeganistão – em parte por espírito de aventura, em parte para prestar algum tipo de solidariedade a seus moradores. O país estava prestes a ser invadido pelos Estados Unidos, que queriam derrubar o regime do Taleban depois dos atentados de 11 de setembro.

Foi uma idéia estúpida, juvenil. Mas a conta ficou cara demais, desproporcional para o tamanho do equívoco: estar no lugar errado na hora errada. Quando tentavam sair do país, os três foram confundidos com talebães e capturados pela Aliança do Norte, o grupo que combatia o regime local com ajuda americana.

Depois de passar dias em um campo de concentração em condições sub-humanas, Asif, Ruhel e Shafiq foram transportados pelo exército americano até a base naval americana de Guantánamo, em Cuba, sob a suspeita de terem conexões com a al-Qaeda.

Junto com centenas de outros prisioneiros, foram submetidos a torturas diversas (como ouvir heavy metal em volume ensurdecedor, acorrentados com algemas ao chão, ou passar dias sem poder se levantar ou falar), para que se confessassem terroristas. Mais de dois anos depois, foram libertados por falta de provas, sem um pedido oficial de desculpas.

A história de Asif, Ruhel e Shafiq é o tema do docudrama “Caminho para Guantánamo”, dirigido pelos ingleses Michael Winterbottom (“9 canções”, “A festa nunca termina”) e Mat Whiteccross, que estréia amanhã no Rio de Janeiro e dia 10 de novembro em São Paulo. O filme intercala entrevistas reais com “os três de Tipton”, como eles ficaram conhecidos, e reencenações fictícias do calvário dos ingleses no Afeganistão e em Cuba.

Ao lado da prisão de Abu Garib, no Iraque, a base de Guantánamo é o maior motivo de vergonha para os americanos em seu combate ao terrorismo. Mais de 500 pessoas passaram pelo campo de detenção da ilha sem acusação formal e sem direito a julgamento.

Mas, diferentemente do caso iraquiano (que veio a público com a divulgação das fotos de torturas praticadas por soldados americanos), Guantánamo permanece um segredo ferozmente guardado pelo governo Bush.

O filme é uma tentativa furar o bloqueio que cerca a prisão, de dar alguma concretude àquele espaço impalpável para a mídia tradicional, por meio da história das únicas vítimas que poderiam ser ouvidas, pela simples razão de serem as únicas que falam inglês.

Como denúncia, “Caminho para Guantánamo” é uma peça eficaz, que demonstra com crueza chocante os abusos e as falhas cometidas pelo governo americano na guerra ao terror. Como cinema, a produção tem limitações derivadas de seu formato de docudrama.

O filme lembra um “Linha direta” mais sofisticado, que, na maior parte da projeção, reencena a história dos três de Tipton com grande carga de veracidade. Mas que entra em curto-circuito quando, em um momento de artificialismo na mise en scène ou nas interpretações, nos lembra que estamos diante de uma imitação da realidade.

Se fosse um documentário puro, “Caminho para Guantánamo” poderia ser um daqueles filmes que ajudam a mudar a visão da opinião pública sobre uma guerra, como “Corações e mentes” (1974), o clássico de Peter Davis sobre a Guerra do Vietnã.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:

Ver todas as notas

9 comentários para “A vergonha de uma nação”

  1. izaq bast disse:

    a pior coisa que existe no ser humano se chama; arrogancia.
    isto os americanos tem de sobra.

  2. Marcos Araújo disse:

    Além da tendência doentia a resolver tudo e submeter todos à sua pseudo-democracia, na pura paulada, queira ou nao queria…

  3. Walid disse:

    Boa notícia. O cinema pode não ser decisivo, mas ajuda a denunciar as violações de direitos humanos e a caça a árabes e islâmicos que se estabeleceu após o 9/11.

  4. Guilevy disse:

    Comentar o que?

    O título já sintetiza tudo.

    Pô, Calil, deixe abertura para a discussão!

    Apesar que, pensando bem, a turma do império não tarda… com as devidas explicações do ocorrido – é claro.

  5. inacreditavel.
    se bem que inacreditavel só para babacas como eu, que querem porque querem acreditar no ser humano. é capaz de o filme passar nos eua e os americanos dizerem que é propaganda contra eles.
    afinal, a gente não tá vendo, guardadas as devidas proporções, isso acontecer aqui?
    nós: jornalistas, cineastas, escritores, servimos pra nada mais, não.
    e viva a idade média.

  6. joao melo disse:

    Tudo q se fizer para combater o terrorismo nao sera o bastante. Brasileiro é q adora bandido e ama delinquentes!!!

  7. lc disse:

    João,
    tudo, para você, significa jogar fora as convenções tão arduamente estabelecidas, e deixar-nos todos à mercê de qualquer desconfiança, mesmo às mais infundadas? Você entendeu que os três eram inocentes? Que foram presos, passaram dois anos sofrendo torturas, e depois libertados – isso tudo à margem de qualquer resquício de legalidade? Entendeu que isso pode acontecer com qualquer um?
    Ora, faça-me o favor, vamos parar de falar besteiras!

  8. Paulo disse:

    É mais importante não esquecer que não se faz filme, produz-se peças, escreve-se livros e divulga-se as tragédias quando ela são nossas. Alguém lembra-se de Jean Charles de Menezes? Quem? A aquele pobre coitado morto por engano (mas executado sem misericórdia pela eficiente polícia britância). De onde? Daquela sub-raça lá naquela ilha atrasada da América do Sul!! Mas, contudo, todavia porém, como trata-se de gente, mesmo que de 2ª classe (paquistanês, para europeu, é lixo), ai merece publicidade internacional com luzes e holofotes. Somos sub-raça mesmo…Cadê pelo menos um santinho (desses de políticos) para lembrar a tragédia do brasileiro, a ser exibido em pelo menos um beco de favela qualquer???

  9. Roberto Pedreira de Freitas Ceribelli disse:

    Grandes líderes e campeões (campeãs) passaram por grandes problemáticas e aprenderam na prática como solucionar oq eu poderia vir a frente … Beto frente …

Os comentários do texto estão encerrados.

Voltar ao topo