Publicidade

Publicidade
24/11/2006 - 10:56

Mais cinema e menos política

Compartilhe: Twitter

“O crocodilo”, filme do italiano Nanni Moretti que estréia hoje no Brasil, traz uma lição fundamental para a série de filmes panfletários que inundou o mundo nos últimos anos: no grande cinema político, o cinema vem sempre antes da política.

Seu novo trabalho é um ataque direto a Silvio Berlusconi, o magnata das comunicações que foi até o início deste ano o primeiro-ministro da Itália. Mas está longe de ser uma crítica óbvia, um mero manifesto ideológico.

Em vez de simplesmente refazer a conhecida trajetória de Berlusconi – acusado de iniciar seu império com dinheiro ilegal, de ter ligações com a máfia, de se lançar na política com uma plataforma de direita para beneficiar seus negócios -, Moretti conta a história de um filme sobre a figura.

O protagonista não é Berlusconi, mas o produtor de filmes B Bruno Bonomo (Silvio Orlando, magnífico), às voltas com o fim de seu casamento com Paola (Margherita Buy) e com o perigo de falência por causa de uma série de dívidas.

Depois de anos sem realizar nenhum filme, ele consegue sinal verde da rede de TV estatal RAI para produzir um épico sobre Cristóvão Colombo, mas o diretor deixa o projeto na última hora. Bruno decide, então, adaptar o único roteiro que tem em mãos, sem saber a princípio que se trata de um ataque pesado a Berlusconi, assinado pela novata Teresa (Jasmine Trinca).

Depois que o novo projeto é recusado pela RAI, Bruno decide fazer a produção de forma independente, apostando suas últimas fichas em seu sucesso. Mas, como era de se esperar de um filme contra o homem mais poderoso da Itália, o produtor encontra todo tipo de dificuldades para concretizá-lo.

Em meio a essa trama, são intercaladas cenas do filme dentro do filme, em que Berlusconi é interpretado por três atores diferentes (incluindo o próprio Moretti) e que brincam com diferentes gêneros cinematográficos, da comédia farsesca ao drama de tribunal. Com essa trama, Moretti consegue denunciar não apenas Berlusconi e a Itália que o elegeu, mas também o cinema político em geral e o italiano em particular.

Por um lado, o filme pode ser entendido como uma crítica a um cinema de espetáculo anódino, ligado ao grande passado perdido e desligado de questões urgentes (simbolizado pelo filme sobre Colombo). Por outro, funciona como contraponto a um cinema político mais baseado em slogans que em personagens, mais interessado em passar mensagens do que fazer o público refletir, feito por cineastas como Michael Moore e Michael Winterbottom.

Com “O Crocodilo”, Moretti resgata duas grandes tradições do cinema italiano (a comédia e o filme político), mas as atualiza com seu humor idiossincrático, com sua capacidade de ver o lado fantástico do cotidiano – marca-registrada da obra do cineasta. Nesse sentido, ele oferece ao menos uma seqüência memorável: a cena em que um grande navio é transportado por uma carreta pelas avenidas de Roma em direção ao litoral, onde será usada no filme sobre Colombo.

“O crocodilo” é não apenas o melhor filme político de 2006 (ano que conheceu uma explosão do gênero), como também a grande obra que os admiradores de Moretti aguardavam desde “Caro diário” (1993) – depois de trabalhos decepcionantes (“Aprile”) ou convencionais (o tocante “O quarto do filho”). Finalmente, ele cumpre a promessa de preencher uma pequena parte da lacuna deixada pela ausência de mestres como Fellini, Visconti, Pasolini, DeSica e outros. Os fãs do cinema italiano agradecem.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:

Ver todas as notas

1 comentário para “Mais cinema e menos política”

  1. Rodrigo disse:

    Vi o filme no Festival do Rio.
    Excelente. Um dos melhores.
    Esse Moretti é bom msm.

Os comentários do texto estão encerrados.

Voltar ao topo