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29/11/2006 - 00:01

Oito vezes novela

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Nos anos 80, Décio Pignatari, poeta concretista e teórico da comunicação, decretou que a telenovela estava com seus dias contados no Brasil. Segundo ele, o gênero seria substituído em pouco tempo por formatos mais curtos e modernos. Desde então, muitos outros intelectuais também previram o fim próximo do folhetim eletrônico.

Vinte anos depois, a telenovela não apenas continua viva, como passa por um “boom” de produção no país. Neste momento, existem oito novelas brasileiras no ar, um número histórico. São quatro na Globo (se for incluída a novelinha “Malhação”), três na Record (contando “Alta estação”) e uma na Bandeirantes. Apenas neste mês, houve três estréias nessas três emissoras: “Pé na jaca”, “Vidas opostas” e “Paixões proibidas”.

Em janeiro, o SBT começará a gravar “Maria Mercedes”, adaptação brasileira para o sucesso mexicano. E, então, as quatro maiores redes de TV nacionais terão ao menos uma produção própria no ar. Além disso, a trupe Hermes & Renato vem realizando para a MTV uma série de paródias de novela, como a atual “Sinhá Boça” – o que não deixa de ser uma prova da importância cultural do gênero.

Não é apenas a quantidade de novelas no ar que é impressionante, mas também o fato de que algumas delas vêm batendo recordes de audiência para seus horários ou emissoras, como “Páginas da vida”, a recém-terminada “Cobras & lagartos” e “Vidas opostas” (maior Ibope para uma estréia na Record).

No passado da TV brasileira, houve outros picos de produção de novelas (confira aqui uma relação dos folhetins televisivos ano a ano). Mas a novidade deste momento é a grandiosidade de várias produções, incluindo as não-globais “Vidas opostas” e “Paixões proibidas”, que revelam ambição real para conquistar uma fatia importante do mercado da Rede Globo.

Mas, afinal, por que esse formato tão antigo e tão pouco renovado (que começou no Brasil em 1963 com “2-5499 ocupado”, na Excelsior) ainda é o gênero dominante da TV brasileira? Para responder a pergunta, este blog ouviu Esther Hamburger, autora de “O Brasil antenado – A sociedade da novela”, colaboradora da “Folha de S. Paulo” e professora da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Segundo Esther, existem duas razões principais para a longevidade do gênero: uma econômica e outra conceitual. Em primeiro lugar, a novela permanece como um dos formatos mais lucrativos da televisão, porque exige um investimento inicial alto, mas que se dilui ao longo de meses e pode ser facilmente recuperado com publicidade, merchandising e, em alguns casos, vendas internacionais.

Depois, a novela continua atraindo uma grande audiência porque seu formato permite uma adequação do conteúdo ao público. “Como os folhetins de jornal do século 19 da qual descende, a novela pode se moldar de acordo com a resposta do público e pode fazer uma crônica muito imediata de seu tempo. O final de ‘Cobras & Lagartos’, em que Foguinho abre uma barraquinha de profiteroles e cidra, é um comentário muito preciso sobre o aumento do consumo na classe baixa. Nesse sentido, a novela é um formato proto-interativo”, afirma Esther. “Ao mesmo tempo, ela tem vantagens sobre formatos mais interativos, como os reality shows. Por exemplo, uma dramaturgia mais consistente e o poder de suas estrelas.”

Mas Esther ressalta que a quantidade de novelas atuais não se reflete na qualidade. Para ela, o gênero viveu seu auge nos anos 70 e 80 – com produtos como “Gabriela”, “Roque Santeiro” e “Vale tudo” – e não conheceu uma verdadeira renovação nos últimos anos. A professora considera muito relevantes as atuais experiências de outras emissoras com o gênero, mas lamenta que elas sejam antes uma emulação do padrão global do que uma verdadeira alternativa à emissora hegemônica.

“Para ameaçar o domínio da Globo, é preciso de muito dinheiro e de um projeto a longo prazo. Parece que a Record tem as duas coisas. Mas ela vem copiando o sistema de produção da Globo, que, por sua vez, é uma reprodução do ‘star system’ da Hollywood dos anos 40, com estrelas contratadas e estúdios próprios. Seria mais interessante se houvesse um investimento em produção independente”, diz Esther. Ela aponta como uma exceção nesse panorama “A turma do gueto”, seriado com atores negros exibido pela Record entre 2002 e 2003.

Esther foi uma das teóricas que no passado previu a morte da novela. Mas hoje ela não consegue enxergar um final próximo. “É incrível que, em um mundo com tantas opções, como a internet e a TV a cabo, a novela ainda ocupe espaço tão grande da vida nacional. E não há sinais de que isso irá mudar tão cedo.”

Segundo ela, só existe uma coisa tão imutável quanto a novela: o preconceito contra aqueles que estudam o gênero antiquado, mas que segue sendo uma das grandes paixões nacionais. Ou um dos maiores vícios, como escreveu certa vez Décio Pignatari.

“As pessoas se apaixonam pelos quadrinhos, pelo rádio, pelo cinema, pelo rock, mas ninguém se apaixona pela televisão. TV não é questão de obsessão, paixão ou afeição: é questão de vício. Vicia-se pela televisão, como se vicia em açúcar, fumo, maconha, coca e outros da área farmaco-dependente.”

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40 comentários para “Oito vezes novela”

  1. Asdrúbal disse:

    Muitoesclarecedor o comentário desta senhora Esther.
    Realmente mostra ser uma pessoa equilibrada e inteligente.
    Provavelmente ela não é uma vegetariana.

  2. Juca Bala disse:

    Que !@#$%%¨¨& novelas.

  3. Juca Bala disse:

    Isso, mais novelas, mais futilidades e mais alienação. Cada povo tem a programação de tv que merece. Lamentável isso sim!

  4. abstrato disse:

    a turma do gueto???? aquele com alexandre frota??

    ahahhaha…aquilo eh excecao do que, meu Deus!!!

    um negocio pavoroso, amador em todos os quesitos, luz, fotografia, interpretacao, roteiro…

  5. abstrato disse:

    Calil,

    meu caro, ha controversias..

    “Jovens trocam cada vez mais a TV pela Web, diz estudo”

    isso eh o resultado de uma pesquisa feita no Reino Unido…ta no portal Terra…

    merecia o post esse assunto hein? veio a calhar…

    por mim a tv ja estava morta e enterrada ha muito tempo…agora mesmo teclo diante de um aparelho desligado, e fica assim na maioria do tempo…

    nao tem graca, voce nao interage e tem que submeter as escolhas pateticas da programacao.

    a internet da uma banana pra tv…eu vejo e leio o que eu quero!!! nao preciso que ningume me diga o que ver, principalmente todo esse lixo que existe hoje em dia na tv…

    viva a internet!!!!!!

  6. Juca Bala disse:

    Abstrato tá certo. Enfiemos a tv no seu devido lugar: “O Caixão”. Nos obriga a ver comerciais ridículos enquanto aguardamos a volta do programa que estamos assistindo. Depois da Internet, só a tv digital poderá abrir mais espaço para interação. É a decadência da Televisão abeta.

  7. Anderson disse:

    No Reino Unido, abstrato, no Reino Unido…

  8. abstrato disse:

    sim Anderson…mas enfim, sei la, por algum lugar tem que comecar, ne?

    eheheh…

  9. Isabela disse:

    novela deixa todo mundo burro.. tem q SABER ver novela

  10. JuHits disse:

    Penso que o boom das novelas é reflexo dos nossos gostos, hábitos, além da intenção da emissora-rainha de nos entreter quanto mais tempo possível. É óbvia a intenção de nos manter longe dos livros ou do acesso a outros conhecimentos, mas tb não podemos negar a força que esse tipo de programação carrega consigo cada vez mais. As novelas da Globo fizeram ser conhecidas em todo o país expressões e hábitos de certas regiões, faz todo mundo brincar com a mesma piada daquele protagonista de perfil popular. Acaba criando uma cultura, se pensarmos nesse âmbito. Mesmo que alguns não queiram admitir, é isso o que a gente é. Sem falar do papel de “avaliadora” do nosso comportamento. Pesquisas com a população (pode-se encontrar facilmente nas mídias do gênero) apontam o fim dos personagens atendendo indiretamente o gosto dos espectadores. Sobre a internet, acho que ainda é um meio “restrito” nacionalmente e de outras intenções. Sou fã deste último e admiro o primeiro. Acho que o folhetim tem suas vantagens.

    Abraços.

  11. MARI disse:

    O que tem e muito preconceito mesmo.
    Eu assisto tv mas não deixo de ler um bom livro, o que tem o c.. com as calças??
    Eu não acompanho novela pq não gosto, ha muitos anos deixei de assistir, mas não tenho nada contra, so não tenho saco de ter compromisso de dia e hora.

  12. abstrato disse:

    que bom MARI,

    mas a maioria das pessoas tem as novelas como parametro para as suas vidas…tem gente que chega ate a agredir o ator no meio da rua por cque o seu personagem eh um vilao, por exemplo…

    cabeca fraca eh o que nao falta por ai…novelas mal feitas sao um perigo sim, afinal formam opinioes…

    sem contar a escravidao do dia a dia…a pessoa passa a ser dominada pelo horario da novela, tudo tem que ser feito antes ou depois da bendita…

    ai nao da

  13. cesar dorneles disse:

    Não há nada de tão impressionante o sucesso das novelas, como a professora citada artigo comentou. Nem todo mundo dispõe de internet e tv a cabo ou de condiçõe financeiras para outras formas de lazer fora de casa.Daí, a primeira opção continua ficar na frente da tv.

  14. pastraga disse:

    Do texto: “formato tão antigo e tão pouco…”.
    Lembrar que entre outros formatos antigos estão, entre outros, a pintura a óleo (séc. 15) e a ópera (séc. 17) — ser antigo só costuma ser desvantagem em tecnologia.

  15. João disse:

    Não tenho disciplina para ver novela, nem seriado, nem nada que tenha esse formato de exibição diária ou semanal. Mas não tenho nada contra. E acho que a TV logra alguns êxitos, tanto em seriados, quanto em novelas. Celebridade, a última novela de Gilberto Braga, por exemplo, era capaz de hipnotizar qq espectador. Já entre os seriados, o atual Antonia é uma paródia, involuntária ou não, inteligentíssima de coisas fraquinhas como Sex and the City. Mas a TV americana também tem séries bastante interessantes como A sete palmos e 24 horas, cada uma no seu estilo. Quanto à arrogância dos que falam que preferem um bom livro a um programa de TV… melhor nem comentar. Sou doutor em literatura e não deixo de assistir a TV. Tem coisa mais chata que gente que só fala de livros???

  16. mario viana disse:

    Sensacional, João.
    Tá na hora de dar o devido valor aos esnobes… rs… Eles atacam qualquer coisa que não seja elitista. Se o artista começar a fazer sucesso, pimba! Sai do grupo de “bons”. Será que sempre foi assim?

  17. Wladimir disse:

    Já fui viciado em Jornada nas Estrelas, em Friends, e agora sou viciado em Lost. É novela de pseudo-intelectual, como eu.
    Novela é barata (não é gratuita, pois o cara tem que investir num aparelho e na conta de luz), não exige nenhum grande raciocínio do espectador e tem todo dia. Tem dona de casa (ainda existe isso) que passa o dia esperando pela hora em que pode abandonar sua própria realidade e “viajar” um pouco. É uma espécie de droga legalizada.
    Faço uma pretensa previsão de que o pessoal que tá formando sua cabeça baseada na internet e nos games, não será um grande público para esse formato de tv que temos agora. Então, digamos que daqui uns 20 ou 30 anos, haverá uma mudança nesse quadro.
    Quanto a ter ou não computador, é fácil de ver que tá cada vez mais barato adquirir um. Tem micro saindo pelo preço de tv de 29 polegadas. E, antes que me crucifiquem, tem muito pobre se sacrificando em prestações para comprar uma tv de 29. Aliás, compra a prestação e novela tem tudo a ver. As grandes lojas disputam a tapa o “horário nobre”, justamente aquele em q

  18. Wladimir disse:

    Desculpem… seguindo:
    … justamente aquele em que passam as novelas.
    Acho que é um problema de educação, mas como nenhum governo, seja PSDB ou PT, se propõe a reverter o quadro, se algo mudar, vai mudar pelos próprios meios, ou seja, adaptando-se ao tempo de existência das coisas, como em tudo na vida. Até lá, não adianta brigarmos. Cada um faz o que acha melhor pra si, e o povo, seja lá o que isso queira dizer, adora novelas.

  19. O Louco disse:

    Nossa qto comentário legal, só falta o típico: “meu nome é fulano, tenho tantos anos e sou viciado…”

  20. Carla Fernandes disse:

    Só para corrigir, atualmente contanto com a Malhação a Globo exibe quatro novelas… Segue a lista: Chocolate com Pimenta, Malhação, O Profeta, Pé na Jaca e Páginas da Vida…

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