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22/12/2006 - 00:01

Chega de chineses voadores!

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Dois guerreiros chineses iniciam uma luta de arte marcial – com espadas, adagas ou mãos limpas. De repente, como em uma mágica, eles começam a flutuar – sobre um bambuzal, um campo de cerejeiraa em flor ou os telhados de uma velha cidade. Enquanto suas roupas esvoaçam pelo ar, eles trocam golpes coreografados e ultra-rápidos.

Você já viu essa cena em “O tigre e o dragão” (2000), de Ang Lee. Também em “Herói” (2002) e “O clã das adagas voadoras”, ambos de Zhang Yimou. E a verá outras vezes em “A promessa”, de Chen Kaige, que estréia hoje no Brasil. Mas, como se trata do filme mais caro (com orçamento US$ 35 milhões) e o mais pródigo em efeitos especiais da história do cinema chinês, as lutas são ainda mais excessivas, espetaculosas e gratuitas.

O que “A promessa” comprova, de maneira inequívoca, é que os épicos de artes marciais criaram uma fórmula – com regras tão ou mais rígidas que as dos filmes hollywoodianos. E que essa fórmula já está muito próxima do esgotamento, pela repetição e pelo exagero. Quem ainda agüenta ver esses chineses voando pela tela? Eu é que não.

Aqui vai um rápido mea culpa. Quando alguns de meus colegas já apontavam as limitações desses filmes, eu ainda continuava animado com seu virtuosismo e plasticidade. Mas agora fica mais claro que eles são uma espécie de truque de mágica – que impressiona à primeira vista, mas perde a graça na revisão. Mas o caso de “A promessa” é um tanto diferente. O filme não sobrevive nem mesmo a uma projeção, porque leva a fórmula a um insuportável paroxismo.

A história baseia-se em uma antiga lenda chinesa, sobre uma garota órfã que faz um pacto com uma deusa: para se tornar bela e poderosa, perderá todo homem que amar. Anos mais tarde, ela se torna a princesa Qingcheng (Cecilia Cheung) e precisa se confrontar com sua promessa quando desperta a paixão de três homens: o general Wuhuan (Nicholas Tse), seu inimigo Guangming (Hiroyuki Sanada) e seu escravo Kunlun (Jang Dong-Kun).

A trama é apenas um pretexto para criar imagens que têm como único objetivo deslumbrar o espectador. Mas o excesso – de combates flutuantes, de figurinos de escola de samba, de efeitos especiais de baixa qualidade — transformam o filme em um espetáculo cansativo e cafona. Cada fotograma parece uma obra de arte (embora seja difícil dizer se ele merecer ser pendurado em um museu ou uma folhinha de calendário). A sucessão desses fotogramas, porém, não cria nenhum significado.

É uma tristeza ver que Chen Kaige tenha cedido a modismos e esquecido a velha lição do menos é mais. O cineasta minimalista de “Adeus minha concubina” (1993) deu lugar a um diretor rococó em “A promessa”. Não sei quanto a você, caro leitor, mas esse filme foi minha gota d’água com chineses voadores. Para mim, já deu. Agora só no circo. E olhe lá.

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62 comentários para “Chega de chineses voadores!”

  1. Fernando disse:

    Crítica infeliz. Não conhece história, deveria ler. Tem bem a visão americanizada e fútil, que não entende coisas simbólicas, muito menos da milenar China. É o tipo que acha uma cultura superior à outra e a ocidental mais do que a oriental, dezenas de séculos mais antigos que nós. Deveria saber que enquanto os franceses e ingleses, sujos e atrasados, comiam com as mãos, a China já tinha ciência, matemática, urbanismo, arte.

Os comentários do texto estão encerrados.

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