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19/01/2007 - 00:01

Um Deus cruel

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“Babel”, que chega hoje ao Brasil com um Globo de Ouro e um ligeiro favoritismo no Oscar em seu currículo, é uma construção ilusória como uma torre de areia. Na aparência, o filme contém vários elementos de uma suposta modernidade: um tema incandenscente como a globalização e suas conseqüências; a narrativa fragmentada, com um constante vaivém no tempo e no espaço; a direção virtuosística do mexicano Alejandro González Iñárritu; o roteiro intrincado de seu compatriota Guillermo Arriaga e assim por diante.

No conteúdo, porém, trata-se de um filme conservador, com uma antiquada moral católica, uma visão fatalista do mundo e uma forte carga melodramática. Como “Amores brutos” (2000) e “21 gramas” (2003), os outros filmes da dupla Iñárritu-Arriaga, “Babel” divide-se em três linhas narrativas aparentemente isoladas, mas que se revelam unidas pelo destino ao longo da projeção. Mas esse é seu projeto mais ambicioso, pois as histórias se desenrolam em quatro países (Marrocos, Japão, Estados Unidos e México) e em cinco línguas (inglês, japonês, espanhol, berbere e linguagem dos sinais).

Depois de perder um de seus três filhos, os americanos Richard (Brad Pitt) e Susan (Cate Blanchett) viajam ao Marrocos a turismo para tentar reanimar seu moribundo casamento. Mas ela é atingida por uma bala disparada por um garoto marroquino em um ato inconseqüente. Na investigação sobre a origem da arma, chega-se ao nome de um empresário japonês que havia feito uma caçada no Marrocos, pai de uma adolescente (Rinko Kikuchi) que sofre com o recente suicídio da mãe e o preconceito de outras pessoas em relação a sua surdez. Enquanto tenta salvar a vida Susan, Richard liga para a babá mexicana Amelia (Adriana Barraza) e lhe pede para que fique em casa com seus filhos. Mas ela decide cruzar a fronteira dos Estados Unidos com o México para o casamento do próprio filho e leva ilegalmente as duas crianças americanas.

A análise fria do material não deixa dúvida quanto a seu teor melodramático: há um casal que perdeu um filho, uma garota surda cuja mãe se suicidou, um garoto marroquino que feriu gravemente uma turista americana, uma babá que coloca em risco a vida das crianças de quem cuida. A obra de Iñárritu-Arriaga tem como base uma série de tragédias sobrepostas, disfarçadas pela competente pirotecnia da direção e do roteiro. A despeito de sua diversidade geográfica, “Babel” é uma talentosa atualização dos dramalhões mexicanos – menos lacrimoso que os velhos exemplares do gênero, mas marcado pelo mesmo catolicismo fatalista de antanho. Seus personagens são perseguidos pela culpa e tentam expiá-la enquanto enfrentam uma séria de desgraças.

Uma das grandes chaves de entendimento de “Babel” está em seu título. Ele remete ao famoso episódio da construção da Torre de Babel, do capítulo 11 do Gênesis. Como se sabe, os descendentes de Noé teriam começado a construir um enorme monumento com o objetivo de alcançar o céu. Irritado com a blasfêmia, Deus teria feito com que eles começassem a falar línguas diferentes, provocando o casos e impedido a finalização da obra.

Pelas entrevistas de Iñárritu, o que lhe interessou na fábula foi o conceito da falta de comunicação entre as pessoas. Nessa visão, seu filme funcionaria como uma metáfora crítica da globalização. Mas o resultado de “Babel” mostra que o diretor também pegou emprestada a idéia de um Deus que persegue os homens com uma ferocidade desproporcional aos pecados cometidos. Como se trata de uma ficção contemporânea e não de uma adaptação bíblica, só se pode concluir que o Deus cruel de “Babel” seja o próprio Iñárritu.

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34 comentários para “Um Deus cruel”

  1. Luis disse:

    Calil,
    havias falado recentemente sobre a (des)importancia das criticas para o grande publico. Pois eu geralmente gosto das tuas criticas, concordando ou não. O meu problema com certos criticos é quando vocês ficam procurando “pelo em ovo”, como a tal moral catolica que tu dizes ter enxergado no filme. Me lembra quando o Jorge Furtado lançou o “O Homem que Copiava” e o Rubens Edwald disse que era absurdo o protagonista do filme ser um negro, já que Porto Alegre era a cidade mais racista do Brasil.

  2. Maro disse:

    Esse negocio de “moral catolica” soa tao demodé, coisa de leitura sociologica dos anos 60-70, “mas porque a civilizacao judaico-crista”, e o “discurso do filme”. Se voce é pago pra ficar dizendo asneiras, tbem quero um emprego de critico do no minimo.

  3. Pablo disse:

    Adriano, vejo a questão da moral ctólcia do filme amparada nos conceitos de “culpa” e “castigo”. Susan sente-se culpada por ter pedido um filho no parto; Amelia atravessa a fronteira co as crianças e é punida com a deportação; o garoto marroquino que atirou em Susan presencia o próprio assassinato do irmão. Por incrível que pareça, a incomunicabilidade maior acontece extamente na relação entre o pai viúvo e a filha surda, com a contunente reelação da causa da morte da mãe. Eu gostei do filme, é bem acima do que se produz no Brasil.

  4. Daniel Juliano disse:

    Prezado, assisti ao filme ontem e concordo ipsis literis com a tua crítica. Ademais, esse modelinho de filme que vai e vem, esse suposto ar “moderninho” já está se esgotando e camufla uma falta de contúdo grave…

  5. Rogerio disse:

    O filme é excelente. Comparo a “amores brutos”. A culpa, a punição, a falta de entendimento, a morte, estão aí… Caminham ao nosso lado e não são apenas uma sombra. Scorcese vai dançar mais uma vez?

  6. Si disse:

    Eu também me decepcionei com o filme. Eu adorei Amores Brutos, gostei de 21 gramas, mas Babel não me convenceu. O tema tem um potencial enorme, mas morreu na praia. Achei a ligação entre os personagens fraca, e muitas histórias periféricas mal explicadas. Sem contar que 3 horas faz o filme arrastado demais!
    E novamente, eu fico impressionado com brasileiro. Só porque o Brasil não tem nomes tão expressivos no cinema, não é motivo para louvar tudo que mexicano faz.

  7. mário disse:

    e a pergunta de um milhão de dólares permanece: “culpa” e “castigo” são exclusivas da moral católica desde quando?

  8. Ruy disse:

    Não vi o filme (ainda), não posso avaliar em que medida o Iñárritu escorregou para o dramalhão. Só não acho que a “antiquada moral católica” e os “personagens perseguidos pela culpa” sejam necessariamente problemas em um filme. O que seria do cinema do Hitchcock, por exemplo, sem isso? Abraços, Ricardo.

  9. arcanjo disse:

    O filme é excelente e não merece as críticas ácidas e precipitadas.
    Fazer pensar é uma arte.
    Os diretores, seres humanos, souberam apresentar o tema da tristeza de forma até sensual. Genialidade máxima. A crítica deverá progredir ainda cinquenta anos para comentar este filme.

  10. confetti disse:

    O filme é excelente e não merece as críticas ácidas e precipitadas.
    Fazer pensar é uma arte.
    Os diretores, seres humanos, souberam apresentar o tema da tristeza de forma até sensual. Genialidade máxima. A crítica deverá progredir ainda cinquenta anos para comentar este filme.

    Comentário de arcanjo — 27/01/2007 @ 12:10 am

    concordo arcanjo ! fazer pensar é uma putissima arte que o inarritu domina

  11. Henry - BH disse:

    É verdade, Calil, é verdade… Falta senso revolucionário a esse Iñarritu. Falta anarquia. E sua ida ao Oscar confirma isso.

  12. Gabriela disse:

    Ricardo, li tua crítica antes de ver o filme e reneguei o que tinha escrito, totalmente disposta a simpatizar com o filminho dos mexicanos. Depois de assistir, me sinto na obrigação de comentar o que vi e compartilhar da tua “repulsa”.
    O filme é ruim, pretensioso, enrolado, perdido e modernoso demais. O enredo é extremamente cansativo, cheio de cenas absolutamente desnecessárias, colocadas estrategicamente pra chocar e angustiar. O final é ainda mais decepcionante. Parece até que acabaram as idéias e aderiram a um “vai desse jeito mesmo”. Uma pena. Podia ser um bom filme, mas fizeram uma coisa pra americano ver.

  13. Cezar Santos disse:

    Puxa, Calil, que dorzinha de cotovelo com os mexicanos. Os caras estão fazendo cinema de gente grande, ao contrário dos brasileiros, salvas honorabilíssimas exceções, que ficam num tatibitate canhestro, com filmecos que são mininovelinhas da Globo, inclusive aqueles atores horrorosos globais.
    Babel tem direção segura, roteiro maravilhoso e histórias fortes, dramáticas (dramalhões mesmo, por que não?) que pegam o espectador na veia.
    Interpretações sensacionais, como o da babá mexicana (Adriana Barraza merece Oscar, sem dúvida), a japinha Rinko Kikuchi e até o Brad Pitt está melhorzinho.
    Enfim, um filmaço.
    Sobre as questão do não-linearidade narrativa, isso é o de menos. É só uma cerejinha no bolo que Iñárritu colocou, uma concessão modernosa, sem dúvida, que poderia ter sido descartada mas não chega a estragar as histórias.
    Essa fragmetação narrativa já virou clichê do cinema atual e, infelizmente, o mexicano ainda está seduzido por isso.
    Mas não tira o brilho de um filmaço, dos melhores que vi nos últimos anos.
    Curta sua dor de cotovelo na cama, que é lugar quente, Calil.

  14. Olívia disse:

    Só sei que, dos últimos filmes que a assisti, “Babel” foi o mais decepcionante. Nada mais artificial do que costurar tramas com um mínimo resquício de proximidade entre elas… “Amores Brutos” é ótimo. “21 Gramas” é “radical” demais, mas são melhores que “Babel”. Esse aí não merece o Oscar.

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