Publicidade

Publicidade

Arquivo de janeiro, 2007

17/01/2007 - 18:09

O casamento da TV com a internet

Compartilhe: Twitter

O programa Joost – experiência mais ambiciosa até hoje de promover um casamento entre TV e internet – acaba de ser lançado em versão beta.

O conceito central é oferecer pela internet o conteúdo de várias redes do mundo e dar ao usuário a possibilidade de montar sua programação. Depois de baixados legalmente dos provedores da empresa em Luxemburgo, os programas poderão ser compartilhados pelo sistema “peer-to-peer” (de computador para computador, como no KaZaA ou no BitTorrent). Por enquanto, a oferta de conteúdo é reduzida. O produto final deverá ser lançado na metade do ano.

O futuro do entretenimento passa por essa combinação de TV e internet, e o Joost pode ser um passo importante no proceso. Só o tempo dirá se o programa vai pegar, como no caso do YouTube. Mas seu pedigree não poderia ser melhor. Os criadores são o sueco Niklas Zennstrom e o dinamarquês Janus Friis – os mesmos do Skype, software que popularizou a telefonia pela rede.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:
17/01/2007 - 00:01

Fazendo sexo com Orson Welles

Compartilhe: Twitter

Mais uma pérola do YouTube, compartilhada por Daniel Caetano, crítico da Contracampo: dois trechos de “O outro lado do vento” (The other side of the wind), projeto inacabado que Orson Welles (“Cidadão Kane”) rodou em 1972.

O filme conta a história de um cineasta independente (interpretado pelo diretor John Huston, de “Relíquia macabra”) que, depois de uma série de fracassos comerciais, planeja fazer um filme cheio de sexo e violência para reativar sua carreira.

Welles completou as filmagens, mas nunca conseguiu montar “O outro lado do vento”. Depois da morte do cineasta em 1985, houve algumas tentativas de levá-lo a termo, mas elas esbarraram em problemas legais. O cineasta Peter Bogdanovich (“A última sessão de cinema”), amigo de Welles que participa da produção como ator, ainda planeja concluí-lo.

O diretor de “Cidadão Kane” só montou duas cenas para uma exibição especial em uma retrospectiva de sua carreira. São justamente esses os trechos que caíram no YouTube. Em uma deles, Huston dá uma coletiva de imprensa, e edição frenética mostra alternadamente o ponto de vista das várias câmeras que o rodeiam.

Abaixo, você pode ver o outro trecho, em que um homem e uma mulher fazem sexo no banco de passageiro de um carro, enquanto um terceiro dirige o veículo com os olhos fixos na estrada. São cenas curtas, mas de montagem vigorosa, que reafirmam o talento incomum de Welles e deixam uma certa tristeza pelo fato de ele não ter conseguido completar o filme.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:
15/01/2007 - 23:55

“Babel” e o triunfo do filme com letras maiúsculas

Compartilhe: Twitter

Como havia previsto, fui um mau profeta. Dos meus 11 palpites sobre premiados no Globo de Ouro, acertei apenas 7 – o que é um número lamentável, dada a enorme previsibilidade desse tipo de premiação. Além disso, errei em quatro categorias fundamentais: melhor filme (“Babel”), melhor ator (Forest Whitaker por “O último rei da Escócia”), melhor ator coadjuvante (Eddie Murphy por “Dreamgirls) e roteiro (Peter Morgan por “A rainha”). Agora está claro que me deixei levar pela torcida por “Os infiltrados”, que indiquei como melhor filme, ator (Leonardo Di Caprio) e ator coadjuvante (Jack Nicholson). Para a lista completa de premiados, clique aqui.

Mas, para além das minhas previsões furadas, o que significa a vitória de “Babel” sobre “Os infiltrados”? Ela representa mais um triunfo de uma visão conservadora de Hollywood – nesse caso, da Associação dos Correspondentes Estrangeiros. Uma tentativa de mostrar ao mundo que o cinema pode ser uma arte elevada, não apenas uma diversão vulgar. Se o Globo de Ouro funcionar mais uma vez como uma prévia do Oscar (como ocorre na maioria dos anos, mas não em todos), haverá mais uma consagração de um filme com letras maiúsculas. “Babel” é o “Crash” deste ano: uma Obra com Temas Urgentes e Importantes, que Trata de Grandes Questões Sociais do Nosso Tempo (dá até para ouvir aquele famoso locutor americano de trailers anunciando essa frase). Já “Os infiltrados” é um filme com letras minúsculas, uma obra com temas modestos e personagens ultrajantes.

A premiação dos atores no Globo de Ouro também seguiu a lógica das letras maiúsculas. As estatuetas de melhor ator e atriz dramáticos foram para duas Perfeitas Reencarnações de Controversas Figuras Históricas (Forest Whitaker fazendo Idi Amin, Helen Mirren fazendo Elizabeth II). Eddie Murphy levou o prêmio de coadjuvante como um Comediante em Baixa que Prova Ser um Bom Ator Dramático. E Meryl Streep ganhou como comediante no papel de uma Grande Atriz Dramática Sujeitando-se a Fazer Comédia. Para não ser injusto com o Globo de Ouro, os quatro atores estão ótimos em seus filmes. Mas as premiações foram óbvias. Os mafiosos desbocados e violentos de Jack Nicholson e Leonardo Di Caprio mereciam melhor sorte.

Nesse panorama, a grande exceção foi o prêmio de melhor comediante para o inglês Sacha Baron Cohen. Aí a Associação de Correspondentes Estrangeiros mostrou alguma coragem, ao consagrar um humor politicamente incorreto e legalmente questionável. Essa é a vantagem de haver um prêmio à parte para comédias. Não espere esse senso de humor do Oscar.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:
15/01/2007 - 18:35

50 anos sem Bogart

Compartilhe: Twitter

Se pensarmos nas cine-personas de Montgomery Clift, Cary Crant, Burt Lancaster ou Clark Gable, todos nomes de peso na Hollywood de ouro, Humphrey Bogart era, comparativamente falando, um homem feio. Tinha também a voz que sugeria algo de um pato. No entanto, Bogart teve uma presença magnética na tela e estofo humano suficiente para ser um astro cujo nome é hoje, 50 anos depois da sua morte, sinônimo da palavra cinema, no sentido mais cínico, clássico e preto e branco do termo.

Em um irretocável artigo para o site Cinemascópio, Kleber Mendonça Filho, crítico e cineasta pernambucano, lembra os 50 anos da morte de Humphrey Bogart, “Casablanca” (1942), “À beira do abismo” (1946) e “O tesouro de Sierra Madre” (1948).

Se pudesse fazer um pequeno adendo ao texto, diria que Bogart foi o sujeito que provou que podia haver charme na feiúra. Ao reconquistar Ingrid Bergman em “Casablanca” e casar com Lauren Bacall na vida real, ele deu esperança a milhões de mal-encarados no mundo todo.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:
15/01/2007 - 00:01

O profeta no Globo de Ouro

Compartilhe: Twitter

Nesta noite, haverá a entrega do Globo de Ouro (transmissão do canal Warner a partir das 22h), prêmio da Associação dos Correspondentes Estrangeiros em Hollywood, considerado uma das principais prévias do Oscar. Para espantar a preguiça que esse assunto traz, o blogueiro vai se limitar a brincar de profeta e arriscar seus palpites para os ganhadores.

– Melhor filme/drama – “Os infiltrados”

– Melhor filme/comédia ou musical – “Dreamgirls”

– Melhor ator/drama – Leonardo DiCaprio por “Os infiltrados”

– Melhor atriz/drama – Helen Mirren por “A rainha”

– Melhor ator/comédia ou musical – Sacha Baron Cohen por “Borat”

– Melhor atriz/comédia ou musical – Meryl Streep por “O diabo veste Prada”

– Melhor ator coadjuvante – Jack Nicholson por “Os infiltrados”

– Melhor atriz coadjuvante – Jennifer Hudson por “Dreamgirls”

– Melhor diretor – Martin Scorsese por “Os infiltrados”

– Melhor roteiro – Guillermo Arriaga por “Babel”

– Melhor filme em língua estrangeira – “Cartas de Iwo Jima”

Amanhã podem voltar aqui para me denunciar como falso profeta.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:
14/01/2007 - 00:01

Futebol invisível

Compartilhe: Twitter

“Copa do Mundo Fifa 2006” – filme oficial sobre o último Mundial de futebol, que será lançado em fevereiro no Brasil – tem 112 minutos. A seleção brasileira ocupa exatamente 1 minuto e 8 segundos dessa duração.

O único jogo do Brasil exibido é a vitória de 3 a 0 sobre Gana nas oitavas-de-final. A narração feita pelo ator Pierce Brosnan começa com elogios: “Os brasileiros são os mestres do futebol mundial, contra os quais todos os times são julgados. Eles têm mais títulos, vitórias e gols do que qualquer outra seleção nas Copas. Sua arte não tem equivalente”. Mas o ex-James Bond logo dá a real: “Mas dessa vez não era pra ser. Eles seriam eliminados na rodada seguinte pelos franceses”.

Até certo ponto, o papelão do Brasil na Copa justifica o curto tempo. Mas a Fifa decidiu esculachar. A Inglaterra, que também caiu nas quartas-de-final e não jogou nada, ganha uns bons 15 minutos no filme. Isso talvez se explique pelo fato de o diretor Michael Apted (“007 – O mundo não é o bastante”, “O barato de Grace”) ser inglês.

O brasileiro que mais aparece em cena é Luiz Felipe Scolari, quase sempre berrando do banco de Portugal. Há ainda uma frase de Pelé abrindo o documentário (“Pele calls it the beautiful game”). E é só. Os nomes de Ronaldinho Gaúcho ou Kaká não são citados. Nem como decepções.

De resto, “Copa do Mundo Fifa 2006” só confirma o que todos já sabiam: o futebol do último Mundial foi sofrível. Foi uma Copa de goleiros e zagueiros, de cartões amarelos e decisões por pênaltis. O único momento memorável mostrado no filme é o segundo gol da Argentina contra a Sérvia depois de 26 passes consecutivos.

Mesmo um Mundial medíocre poderia render um bom documentário – como já provou o brasileiro Murilo Salles com “Todos os corações do mundo”, o filme oficial da Copa de 1994. Mas não é o caso agora. Apted contentou-se em fazer um trabalho burocrático. O cineasta basicamente editou o material mostrado na TV e colocou a narração de Brosnan.

Não há câmeras exclusivas, não há revelações inéditas, não há grandes personagens. No episódio da cabeçada de Zidane em Materazzi na final, por exemplo, ele se resume a repetir a mesma cena de sempre e incluir o comentário: “O incidente deixou uma cicatriz no torneio. Não era o final que esperávamos”. O resultado do documentário não é menos anticlimático.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:
13/01/2007 - 00:01

O espião que veio do frio

Compartilhe: Twitter

O cineasta Michael Mann e o ator Johnny Depp, duas das figuras mais interessantes da Hollywood de hoje , estão em uma disputa para realizar o primeiro filme sobre a história de Alexander “Sasha” Litvinenko, o espião russo que culpou o presidente Vladimir Putin pelo envenenamento que levou a sua morte no ano passado.

Segundo notícia da revista “Variety”, a Columbia e Mann compraram por US$ 1,5 milhão os direitos do livro “A morte de um dissidente”, que o jornalista Alex Goldfard está escrevendo com a viúva de Litvenko. O cineasta de “Miami vice” deverá ser o diretor da adaptação.

A Warner e a produtora de Johnny Depp também tentaram comprar o livro, mas perderam a parada para a Columbia. Em compensação, o estúdio já havia adquirido os direitos de outra obra sobre Litvinenko, “A história de Sasha: A vida e a morte de um espião russo”, que está sendo terminado por Alan Cowell, chefe da sucursal do “New York Times” em Londres. Depp deverá ser o protagonista.

Em breve, portanto, dois filmes sobre Litvenko deverão começar a ser produzidos. Como há ainda dois livros em andamento sobre o espião russo, não é impossível que esse número de filmes dobre em um futuro próximo.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:
12/01/2007 - 00:01

Quero ser Charlie Kaufman

Compartilhe: Twitter

Como muitos já sabem, Charlie Kaufman – o autor de “Quero ser John Malkovich” (1999), “Adaptação” (2002) e “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004) – é hoje o roteirista mais influente e badalado de Hollywood. Mas o que talvez nem todos tenham percebido é que ele vem sendo imitado de maneira tão descarada que já originou um subgênero cinematográfico: o das comédias “kaufmanescas”.

O mais novo exemplo desse fenômeno chama-se “Mais estranho que a ficção” e estréia hoje no Brasil. Roteirizado por Zach Helm, o filme conta a história de Harold Crick (Will Ferrell), um auditor da Receita Federal americana que um dia descobre ser o personagem de um livro escrito por Kay Eiffel (Emma Thompson) e que está prestes a ser morto pela autora. Enquanto descobre o amor com uma dona de padaria (Maggie Gyllenhaal), ele tenta encontrar a autora para transformar seu destino de tragédia em comédia. Em duas palavras: puro Kaufman.

Não é muito fácil encontrar uma definição para os filmes escritos por ele. São comédias metafísicas/surreais ou existenciais/fantásticas. Mas eles costumam seguir o mesmo script: um homem comum se vê metido de repente em uma situação absurda; primeiro, ele entra em desespero, depois encontra uma possibilidade de redenção.

Em “John Malkovich”, John Cusack interpreta um sujeito que encontra no sétimo e meio andar de seu trabalho um portal para a cabeça do ator americano que dá título ao filme. Em “Brilho eterno”, Jim Carrey descobre que sua ex-namorada decidiu participar de um experimento científico para apagá-lo de sua memória e decide fazer o mesmo.

Os roteiros de Kaufman têm evidente influência dos romances do escritor tcheco Franz Kafka, como “O processo” – em que um homem não consegue descobrir, em meio a um labirinto burocrático, a razão de estar sendo processado – ou “A metamorfose”, aquele que começa com a célebre frase: “Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco inseto”.

Em um interessante artigo para o “London Times”, o jornalista Kevin Maher defende a tese de que o impacto da obra Kaufman não se limita aos filmes independentes, mas também aos blockbusters hollywoodianos. Ele cita como exemplos “Click”, em que Adam Sandler adquire um controle remoto que avança, pausa ou retrocede o tempo de sua vida, e “Déjà vu”, em que o policial Denzel Washington usa um computador que reconstitui o passado para evitar um crime já cometido.

Com estréia no Brasil marcada para semana que vem, “Déjà vu” é uma má imitação de Kaufman, um bizarro encontro do universo do escritor com a direção cafona de Tony Scott (“Top gun”) e a produção espalhafatosa de Jerry Bruckheimer (“Piratas do Caribe”). Já “Mais estranho que a ficção” é um cover talentoso, que aproveita o ótimo comediante Will Ferrell em um papel de maior envergadura dramática, a exemplo do que foi feito com Jim Carrey em “Brilho eterno”, uma direção elegante de Marc Foster (“Em busca da terra do nunca”) e um roteiro com uma mensagem esperta: o drama pode até render grandes obras de arte, mas é o humor que transforma uma visão de mundo.

Maher aponta outros dois filmes com influência de Kaufman: “I’m not there”, em que sete atores interpretam o Bob Dylan, e “A ciência do sonho”, em que Gael García Bernal tenta controlar seus sonhos para viver neles uma paixão com sua vizinha. Nesse caso, a conexão com a obra do roteirista é mais do que natural, já que o diretor francês Michel Gondry é o mesmo de “Brilho eterno”.

Mas o grande filme “kaufmanesco” de 2007 será escrito e dirigido pelo próprio Kaufman. “Synecdoche, New York” será o primeiro longa como cineasta. A história vinha sendo guardada a sete chaves pelo reservado roteirista, mas o jornalista Jay A. Fernandez conseguiu uma cópia do texto e escreveu a respeito em sua coluna Scriptland, no jornal “Los Angeles Times”.

Segundo ele, o filme será sobre um diretor de teatro que pensa estar morrendo e muda suas interações com o mundo, sua arte e as mulheres de sua vida. “É sobre morte e sexo e a bagunça manchada de vômito, merda, urina e sangue que a vida se torna psicologicamente, emocionalmente e espiritualmente”, escreveu Fernandez.

“Se o filme que for realizado lembrar de alguma forma o que está escrito, será um tipo de milagre. ‘Synedchoque’ fará ‘Adaptação’ e ‘Brilho eterno’ parecerem filmes educativos. Ninguém escreveu um roteiro como esse. É questionável se o cinema é capaz de sustentar o peso temático e narrativo de uma história tão ambiciosa. ”

Alguns colegas de crítica que respeito muito acham Kaufman meio truqueiro. Sou do time que acredita haver substância por trás da idiossincrasia. Mas, goste-se ou não dele, é difícil negar que Kaufman se tornou um nome fundamental do cinema contemporâneo. Ninguém vira adjetivo à toa.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:
11/01/2007 - 00:01

David Lynch na vanguarda

Compartilhe: Twitter

(O impacto da internet sobre meu trabalho) Foi enorme, porque eu gosto de fazer experimentos… Por causa da internet, eu aprendi sobre o AfterEffects, a animação em Flash, descobri e me apaixonei pelo vídeo digital. Entrar para a internet foi ótimo para mim. Está só no começo, mas é um belo mundo… Eu sempre gostei do acesso randômico, da idéia de que uma coisa está relacionada a outra.

Em uma ótima entrevista à revista “Wired”, a bíblia americana da tecnologia, David Lynch faz uma apaixonada defesa da internet e do vídeo digital. E não é da boca pra fora.

O cineasta tem um dos melhores sites pessoais da internet, não menos intrigante do que filmes como “Veludo azul” e “Estrada perdida”. Segundo Lynch, foi o site que alimentou sua obra, não o contrário – o que só ajuda a demonstrar como ele está mais atento ao futuro do que seus colegas.

Na entrevista, ele também fala sobre a decisão de fazer todos seus filmes em vídeo digital, a começar por “Inland empire”, que ele lançou há pouco nos Estados Unidos. “A qualidade da imagem é horrível, mas eu gosto disso. Me lembra dos velhos tempos do 35 mm, quando não havia tanta informação no fotograma. Mas… você age e reage, e o meio começa a falar com você.”

Ah, sim, Lynch discorre também sobre seu marca de café expresso, as vacas da campanha promocional do novo filme e seu livro sobre meditação. Agora só falta saber o fundamental: quando e onde “Inland empire” será exibido no Brasil?

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:
09/01/2007 - 23:59

Sai a justiça social, entra a ditadura da estética

Compartilhe: Twitter

Chegou a hora dessa gente bronzeada, marombada e siliconada mostrar seu valor. Na estréia do “Big Brother Brasil 7” ontem na Globo, a galera do “uhu!”, do “irado” e do “caraca” provou que está pronta para dominar o programa.

O “BBB 7” começou com algumas novidades pontuais. Logo no início o candidato Fernando Orozco foi eliminado por ser amigo de um diretor da Globo (que tentou demonstrar, de forma um tanto tardia, uma idoneidade que vem sendo constantemente questionada). No final, Pedro Bial anunciou que dois candidatos – e não apenas um – serão eliminados na próxima semana.

Mas só houve uma mudança realmente fundamental no “BBB 7” em relação às três últimas edições: não há mais sorteio de participantes. Na prática, isso significa que os candidatos pobres, gordos ou feios foram eliminados a priori, em um processo de eugenia televisiva.

Boninho, diretor do programa, explicou a decisão em entrevistas: o objetivo do “Big Brother” é entreter, não fazer justiça social (e, assim, com uma medida provisória, o Brasil perde uma de suas modalides de inclusão social a conta-gotas).

Sai a justiça social, entra a ditadura estético-hormonal. Este é o elenco mais homogêneo das sete edições do “Big Brother”: todos são jovens (entre 20 e 30 anos), magros, solteiros, “de boa aparência”. Eles já eram maioria nas outras edições. Mas havia sempre uma ou outra exceção. Agora tá tudo dominado.

A julgar pela primeira festa, todos são também bastante desinibidos e disponíveis. Estimuladas pela extrovertida Liane, as garotas fizeram uma pequena demonstração de como se dança o verdadeiro funk carioca. E a loira Flávia – que, ao ser perguntada sobre sua profissão, disse que faz fotos e dança nas baladas – já reclamou que foi encoxada por um dos mascarados da festa.

Elas bem que poderiam ter ouvido o conselho dado por Grazi Massafera: aproveitem o programa para tirar férias e fazer um auto-conhecimento de si próprios (não se pode elogiar a moça, como fiz alguns posts abaixo, que ela fala uma barbaridade dessas). Mas o momento não está para filosofia barata. A ordem agora é entreter.

Pedro Bial já disse que o público rejeita o sexo no “Big Brother”. Então aí vai uma pergunta: qual é o sentido de convocar 16 jovens solteiros com hormônios em ebulição para o programa?

Mas a questão mais importante é a seguinte: se os candidatos sorteados ganharam duas das três edições em que houve esse dispositivo (e, portanto, tornaram-se participantes queridos pelo público e ajudaram a levantar a audiência), por que cortá-los da nova edição?

Tenho uma pequena teoria a respeito. O “Big Brother” costuma ser visto apenas como um fenômeno de audiência. Mas é também um paraíso do merchandising – o que é tão ou mais importante para a emissora. Pobre pode até ser bom para desperter a piedade alheia e ganhar o programa. Mas não é bom o suficiente para vender carros de luxo e boa parte dos produtos anunciados.

A nova edição do “Big Brother” fez uma opção por candidatos que saem bem na foto. Mas há um risco nessa escolha: ao selecionar pessoas com mais semelhanças do que diferenças (e elas têm em comum ao menos o fato de pertencer à elite estética do país), o programa corre o risco de esvaziar seus conflitos e perder audiência. E são sempre os conflitos que movem a dramaturgia – seja das telenovelas ou dos reality shows.

A idéia de que o “Big Brother” é a novela da vida real ou um pequeno microcosmo do país sempre me pareceu uma balela. Mas há algo realmente inovador no formato do programa: a ficção é construída não apenas pelos roteiristas, diretores e editores, mas também pelos atores e pelo público – o que a torna mais fluida e flexível que nas obras fechadas.

Em quase todas as edições anteriores, a parte mais interessante da ficção foi a maneira como a maioria lidou com a exceção: o caipira Bam Bam, a ignorante Sol, a despossuída Cida, o homossexual Jean, o obeso Tinho. Ou melhor, a maneira como os candidatos não souberam lidar com o diferente, como eles escolheram alternativas equivocadas de relação, como o distanciamento, a humilhação ou o paternalismo.

Os momentos mais reveladores do programa aconteceram nesse curto-circuito do politicamente correto, nas cenas em que os atores deixaram cair a máscara de seus personagens. Posso estar enganado (e freqüentemente estou), mas acho que esta edição promete render menos instantes como esses – e, portanto, deverá ser menos interessante do que um clássico como o “BBB 5” (o de Jean e Grazi).

Estamos apenas no início de uma longa jornada “Big Brother” adentro. Em algum momento, os candidatos podem se revelar facínoras ou covardes, pulhas ou psicopatas. Os mais fortes podem se unir para subjugar os fracos, e estes podem bolar uma resposta letal. Mas, a julgar pelo primeiro programa, não será muito fácil diferenciar um participante do outro. Talvez pela cor dos cabelos ou o tamanho dos bíceps.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:
Voltar ao topo