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26/02/2007 - 04:32

Viva o “mea culpa” hollywoodiano

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Já existe um senso comum formado sobre o resultado do Oscar 2007: a vitória de “Os infiltrados” foi uma tentativa de reparar uma injustiça histórica com Martin Scorsese, que nunca havia sido premiado. Talvez seja verdade. Talvez não. Difícil saber o que se passa na cabeça dos integrantes da Academia, cujos votos são secretos, mas sujeitos a influências externas.

Se houve “mea culpa” de Hollywood, seu efeito não poderia ter sido mais positivo. Não apenas porque se fez justiça com um dos mais importantes cineastas da história. Nem tampouco porque foi premiado o melhor dos cinco indicados na categoria principal, na opinião deste blogueiro, que sempre comporta algo de subjetividade.

Mas porque a vitória de “Os infiltrados” representou a consagração do filme policial, que costuma ser ignorado pela Academia de Hollywood, mas que é um dos gêneros americanos por excelência, ao lado do faroeste e do musical. Muito se fala sobre a rejeição do Oscar à comédia. Mas a verdade é que o policial é ainda mais desprezado nas premiações.

“Os infiltrados” é um filme totalmente “sui generis” dentro da história do prêmio: violento, meio gaiato, sem sentimentalismo ou moralismo, sem aspirações a ganhar o Oscar ou se tornar Grande Arte (e, por isso mesmo, visto, de maneira um tanto ligeira, como um filme menor).

Nesse sentido, “Os infiltrados” é um anti-“Babel” ou um anti-“Crash” – duas produções que se pretendiam mais profundas do que eram na realidade. O filme de Scorsese é o contrário: muito mais profundo do que aparenta à primeira vista.

Está certo. “Os infiltrados” não está no “núcleo duro” da obra de Scorsese – formada por “Taxi driver”, “Touro indomável” e “Os bons companheiros”. Mas é muito superior aos filmes mais pomposos de Scorsese, como “A época da inocência” ou “O aviador”, que tinham muito mais “cara de Oscar”.

Como se sabe, a produção de Scorsese é um remake de um policial de Hong Kong (mais um motivo para o filme ser discriminado). Na prática, isso significa que o mestre americano soube enxergar onde está o melhor cinema de ação atual e tomar emprestado parte de sua energia.

Em um certo momento da noite de ontem, a previsão de que este seria um Oscar mexicano estava se confirmando, com as três premiações de “O labirinto do fauno”. Mas a vitória de “Os infiltrados” também representa a consagração de uma nova ordem cinematográfica, cujo maior pólo de invenção encontra-se no Extremo Oriente.

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28 comentários para “Viva o “mea culpa” hollywoodiano”

  1. Péricles disse:

    Caramba, Os Infiltrados chegou à minha locadora ontem (e não era cópia pirata). Assim, tive o privilégio de assistir, no dia seguinte ao Oscar, ao filme que não fui ver no cinema.

    Lamento, Calil, mas acho que nossos gostos são bem diferentes. Já imaginava, quando vi suas críticas a Little Miss Sunshine, este sim um filme certeiro, sincero e profundo, sem deixar de ser leve e engraçado. Não é fácil ser simples e arrebatador como se conseguiu ali.

    Os Infiltrados… bem, é um policial. Um policial de Sessão da Tarde ou, vá lá, Tela Quente. Não é autoral (no fim do filme, não preenchi os dedos de uma mão com as cenas marcante do filme), não é “nova ordem cinematográfica” nem aqui nem em Hong Kong, não é nada além de… um policial razoável, com bons atores, uma premissa interessante, mas roteiro irregular, muitos furos na verossimilhança e um final de dar dó. Fora isso, fiquei me perguntando por que só falam do DiCaprio e do Nicholson, e ninguém menciona o outro protagonista, Matt Damon, que também se sai bem no filme (nada excepcional, mas se eu fosse ele estaria magoado de ser totalmente esquecido – nem filmaram ele no Oscar!).

  2. Carlos disse:

    Estou contigo, Pericles. Achei “Os Infiltrados” um filme apenas bom, e excessiva e despropositadamente violento. E para polemizar mesmo, achei o Matt Damon o melhor dos 3 no filme. Só uma opinião não especializada, nada mais.

  3. Sabrina disse:

    Injusto foi não terem indicado Jack Nicholson para melhor coadjuvante…Para variar ele estava brilhante!!

  4. Julia disse:

    Affffffffffffffffff, como assim, “The departed” é o melhor dos cinco??? Eu gostei dos 5 filmes, o que é uma raridade, mas esse é definitivamente o mais fraco (e aquele final RIDÍCULO quase estraga o filme inteiro…). Fala sério, se esse filme, exatamente esse, sem tirar nem pôr, não tivesse sido dirigido pelo Scorsese, não teria sido nem indicado pra nada! Ele, aliás, deveria ter ganho antes, por outros filmes tipo “Touro indomável” e “Taxi driver”, mas jamais por “The departed” (que, ainda assim, é infinitamente superior aos horrorosos desperdícios de dinheiro “Gangues de NY” e “O aviador”). Enfim, sua parceria com o DiCRAPpio é uma das piores coisas que aconteceu ao cinema de Hollywood nos últimos anos. Pelo menos em “The departed” tinha o Matt Damon pra contrabalançar. Eu acho que ele não foi ao Oscar (assim como ele não foi aos GG) e ele está certíssimo, porque ele foi esnobado de uma maneira ridícula. É o melhor dos atores do filme (sim, eu sei que o Jack Nicholson também está nele, mas é o que eu acho) e também está excelente em “The good shepherd”, do DeNiro.

  5. Henrique disse:

    Os infiltrados não merecia ganhar. O Scorsese é um grande diretor e o filme realmente empolga, mas aí chegam os últimos minutos de filme e… Putz! É simplesmente tosco e descerebrado, mesmo que a crítica insista em dizer o contrário e filosofar sobre o seu “verdadeiro significado”. A impressão que tive é que a partir dali um adolescente fã de Rambo começou a comandar o filme. E, sinceramente, dar prêmio pra remake? Alguém ainda aguenta essa onda de refilmagens?

  6. Matheus disse:

    Nem tanto em “Crash”, mas sua afirmação sobre “Babel” está coberta de razão.
    O que faz um bom roteiro são boas histórias. A proposta de “Babel” soa como superficial e, por que não, incapaz de criar algo melhor.

  7. Gustavo Horn disse:

    A única verdade é que todos reclamariam não importa qual filme vencesse. Ponto final. Mas eu gostei da vitória de Os Infiltrados.

  8. Diógenes Lima disse:

    Meu Deus! Inacreditável! Fantástico! Super! Nossa que notícia! heloooooooo! Acordem! Uma criança foi trucidada em público inspirada nas maravilhosas imagens holywoodianas que diariamente cooperam com o caos reinante de violência, ganância e idiotice generalizada pra você acordar e perceber sua parcela de culpa pela omissão com essa situação e você aí comentando fofoquinha do oscar. Eu heim! Se liga. A sociedade precisa de você!.

Os comentários do texto estão encerrados.

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