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Arquivo de março, 2007

24/03/2007 - 08:23

Prós e contras de “O cheiro do ralo”

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Vejo que “O cheiro do ralo”, segundo longa-metragem do cineasta pernambucano Heitor Dhalia, dividiu a crítica. Há quem ache brilhante, há quem enxergue nele uma impostura. Este crítico confessa que também ficou dividido. Admiro sua fatura cinematográfica com a mesma intensidade que renego sua visão de mundo.

No filme, gosto de notar a evolução de Dhalia como cineasta. No fraco “Nina”, filme de estréia do cineasta, havia aspectos interessantes aqui e ali, mas cada um parecia falar uma língua diferente. Em “O cheiro do ralo”, eles se encaixam para criar um universo sólido, uma narrativa fluida – o que é certamente um mérito da direção.

Gosto das idiossincrasias de Lourenço Mutarelli, autor do livro homônimo no qual o filme se baseia. Ele constrói o protagonista Lourenço, um misantropo que compra objetos usados, a partir de pequenas obsessões: com o cheiro do ralo que sai do banheiro, com a bunda da garçonete do boteco onde almoça, com um olho de vidro que comprou e diz ser do seu pai, com o hábito de desprezar e humilhar a humanidade em geral e seus clientes em particular.

Gosto ainda da interpretação de Selton Mello como Lourenço, que aparece em quase todas as cenas e tem sua melhor interpretação desde “Lavoura arcaica” (2001). Ele consegue emprestar seu humor e seu carisma ao personagem, de forma a torná-lo menos odioso. Mas aí também começam os problemas de “O cheiro do ralo”.

No filme, eu não gosto de sua tentativa de glamorizar a escrotidão. O filme retrata o universo sórdido e fétido de Lourenço com um tratamento visual estilizado e asséptico, como se tirado de uma revista de moda ou decoração. Tampouco gosto da caracterização de Lourenço como um sujeito cruel, mas “cool”. Mello parece buscar menos sua humanidade do que sua esperteza.

Diretor e ator parecem interessados não apenas em retratar a misantropia de Lourenço, mas em estimular a adesão acrítica do público a sua escrotidão, ao torná-la sexy como uma propaganda de TV. Li relatos de reações estranhas da platéia, que aplaudiu as atitudes mais nojentas do protagonista, como se ele fosse um Charles Bronson disposto a exterminar a mediocridade alheia. Para o bem e para o mal, o cinismo pop e superficial de “O cheiro do ralo” é uma fiel tradução do tempo em que vivemos.

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23/03/2007 - 01:31

Surtando em Hollywood

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No final dos anos 90, David O. Russell era a grande esperança branca do cinema americano. Depois de duas pequenas comédias muito elogiadas – “A mão do desejo” (1994) e “Procurando encrenca” (1996) -, ele realizou a grande produção “Três reis” (1999), que não estourou nas bilheterias, mas foi considerado por muitos críticos um filme de guerra revolucionário.

Mas aí surgiram boatos sobre o temperamento explosivo do cineasta nos sets. George Clooney deu uma entrevista dizendo que saiu no braço com Russell durante as filmagens de “Três reis” depois de ver o cineasta xingando e humilhando extras e membros da equipe. Muita gente achou que o ator estava apenas alimentando sua mitologia pessoal de defensor dos oprimidos. Mas, a julgar por alguns vídeos que caíram agora no YouTube, Clooney até que economizou nas tintas.

O clipe abaixo mostra Russell surtando com a atriz Lily Tomlin (“A última noite”, “Short cuts”, “Nashville”) durante as filmagens de “Huckabees – A vida é uma comédia” (2004). O nível de agressividade do cineasta é assustador.

Em dois outros vídeos no YouTube (veja aqui e acolá), é a vez de Tomlin surtar com Russell, ao lado de um atônito Dustin Hoffman. Nada como um pouco da dura realidade das filmagens para contrabalançar a falsa cordialidade das entrevistas de divulgação.

Desde então, Russell nunca dirigiu outro filme em Hollywood.

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21/03/2007 - 23:49

Uma pequena jóia documental

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O cineasta João Moreira Salles relutou em exibir publicamente o documentário “Santiago”. Mas decidiu aceitar o convite para abrir amanhã a versão carioca do festival É Tudo Verdade (a paulista começa hoje com o belo documentário “Adeus, América”, de Sérgio Oksman, brasileiro radicado na Espanha; para a programação completa, confira o site oficial).

Ao ver “Santiago”, é possível entender a relutância de Salles, o diretor de “Notícias de uma guerra particular”, “Nelson Freire” e “Entreatos”. Seu novo filme é como uma pequena jóia de família, criada antes para ser admirada por poucos do que ostentada para muitos; um pedaço de uma história particular cujo grande valor tem pouco a ver com sua aparência modesta.

Chamar “Santiago” de um filme autoral talvez não seja suficiente para defini-lo. Porque são muitos cineastas que destilam obsessões pessoais em histórias vividas por outros personagens. “Santiago” é, antes de tudo, um filme íntimo. Ao apontar a câmera para o mordomo de sua família, Salles descortina também a intimidade de sua casa, de seus pais e irmãos e, principalmente, a própria. O título mais apropriado para o filme seria “Santiago e eu”, já que a história do mordomo é narrada na primeira pessoa do singular, em um texto escrito por Salles e lido por seu irmão Fernando.

O ponto de partida de “Santiago” é aquele elemento essencial a (praticamente) todos os documentários: um grande personagem. E o argentino Santiago Badariotti Melo é, de longe, o melhor da obra de Salles (e não me acanho em dizer que está entre os mais fascinantes do documentário brasileiro). Culto e vaidoso, ele tinha como grande obsessão a história da nobreza mundial. Ao longo de sua vida, datilografou, entre transcrições e comentários pessoais, cerca de 30 mil páginas sobre nobres do mundo todo.

Garoto pobre nascido no interior da Argentina, Santiago tinha o evidente desejo de se tornar também um membro da nobreza. Como isso não foi possível, virou mordomo, para ao menos estar perto de uma espécie de aristocracia brasileira: a família do banqueiro e embaixador Walther Moreira Salles. Mas, em meio aos “vassalos”, ele podia ser considerado rei. Possuía um apurado senso de superioridade sobre os demais criados.

Mas “Santiago” não é apenas um novo e bem-sucedido retrato de um grande personagem, mas também a crônica de um antigo filme fracassado. Salles colheu as imagens de Santiago em 1993, quando era um iniciante no documentário. Mas não conseguiu editá-las e deixou-as de lado por 13 anos. Em 2006, em meio a uma crise pessoal e profissional, decidiu retomar o projeto e fazer, como explica um intertítulo, uma “reflexão sobre o material bruto”.

No reencontro com as velhas imagens, Salles percebeu que “Santiago” não era um filme sobre seu mordomo, mas sobre sua relação com o personagem, o cinema e o mundo. Notou, por exemplo, que não havia feito nenhum close de Santiago, apenas planos abertos, e que se dirigia a ele com certo autoritarismo. Também sacou que nem sempre estava interessado em ouvir o que Santiago tinha a dizer. Em vez disso, preferia recriar, por vezes artificialmente, o Santiago de suas memórias de infância e adolescência.

Salles concluiu que sua interação com o mordomo não era apenas a de um cineasta com seu objeto, mas ainda a de um patrão com seu empregado. Nesse aspecto, “Santiago” funciona como um mea-culpa do cineasta – e também como um honesto (e, portanto, raro) retrato da relação entre a elite brasileira e sua “criadagem”.

No retorno às velhas cenas, Salles fez outra descoberta fundamental: que seu olhar de cineasta havia se transformado, que ele já não acreditava mais nas imagens esteticizantes e extremamente elaboradas que realizou em 1993, que elas representam o contrário do que ele acredita hoje que um documentário deva ser. “Santiago” é, por fim, um filme sobre a passagem do tempo.

Pode-se argumentar que há alguma vaidade implícita na constatação de Salles sobre sua evolução como cineasta. Mas é uma vaidade plenamente justificada pelo próprio filme, o mais rico em significados que ele já realizou. Para quem acompanha sua obra, é motivo de alegria sua decisão de exibir “Santiago”. Talvez essa pequena obra-prima possa ser apreciada por mais pessoas do que ele imagina.

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21/03/2007 - 00:00

O furo do “Happy hour”

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O “Happy hour”, programa do GNT apresentado ao vivo por Astrid Fontenelle, estreou na última segunda-feira com uma revelação bombástica: Diogo Mainardi é fofo – pelo menos rodeado de mulheres. O colunista foi convidado a participar de uma conversa com a apresentadora Angélica e a executiva Marlene Bregman sobre a discriminação das mulheres no mercado de trabalho.

De Mainardi, poderia-se esperar alguma declaração cabeluda sobre o tema, na linha “mulher deveria esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque”. Mas ele se comportou como uma dama. Disse que estava lá porque obedece sua chefe “como um cachorro”, que sua mulher mandava em casa, que gostaria de não trabalhar “para cuidar dos moleques”. Até sua famosa expressão mabusiana estava suavizada.

O colunista provou com sua presença aquilo que as três participantes tentavam explicar sem sucesso com palavras: que a mulher tem um efeito civilizatório sobre o homem. Bem que poderiam trocar a bancada do “Manhattan Connection” por um time de mulheres. Para o bem do Brasil – e, principalmente, do próprio Mainardi.

Afora a participação do colunista, não houve novidades no front do “Happy hour”. No site do programa, anuncia-se que ele “inaugura uma nova proposta para o horário das 19h na TV por assinatura brasileira”. Primeiro, por se tratar de um raro programa ao vivo exibido diariamente na televisão paga. Depois, por se basear na interatividade com os espectadores.

Astrid repetiu diversas vezes: “Você é quem manda no ‘Happy hour’.” Ou seja, o programa entrou naquela onda meio demagógica da revista “Time”, que elegeu “Você” como a pessoa do ano. Na prática, isso significa muito pouca coisa na estréia: que os espectadores podiam participar do programa ligando ou mandando e-mails. Nada que o Marcelo Tas na TV Cultura ou que a MTV Brasil não tenham feito alguns anos atrás.

A atração mais “revolucionária” do “Happy hour” não deu as caras na estréia: a possibilidade de um espectador enviar um vídeo pelo site para ser exibido no programa. Astrid talvez tenha superestimado o poder econômico e tecnológico dos assinantes quando disse que “hoje qualquer um tem uma câmera de vídeo, nem que seja a do celular” (este blogueiro, por exemplo, não se inclui nesse grupo hegemônico). Em compensação, a apresentadora botou um sonzinho para tocar no iPod, para dar um toque de modernidade ao programa.

Se deixar de lado a pretensão de inaugurar uma nova proposta, “Happy hour” pode se tornar um programa bacaninha com o tempo. Ex-Gazeta, ex-Globo, ex-Manchete, ex-MTV e ex-Band, Astrid tem a versatilidade e o jogo de cintura necessários para segurar um programa ao vivo, como mostrou na estréia ao driblar um pequeno problema de áudio e comandar com simpatia e inteligência as entrevistas. Os temas são interessantes; os entrevistados, bem escolhidos; o cenário, bonitinho; a direção, eficiente; a edição, enxuta. Mas talvez haja um marketing excessivo dos outros programas da casa.

Ex-apresentador do “Armazém 41”, Fred Lessa funciona bem como “escada” interativa do programa, lendo os emails dos espectadores e, pelo que entendi, comandando um chat. Mas o problema é que, mais uma vez, confinaram o rapaz atrás de um balcão. Depois do furo sobre a fofura de Mainardi, é possível que a próxima bomba do programa seja a revelação de que Lessa tem, de fato, duas pernas.

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20/03/2007 - 14:49

Deixem os Simpsons em paz

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Deu na coluna Gente Boa, do “Globo” de hoje, que os Simpsons voltaram a fazer uma referência negativa ao Brasil. No episódio do último domingo, Lisa e Bart estão em uma ilha habitada por mendigos. “Esse deve ser o lugar mais nojento que a gente já visitou”, ela diz. “Mais nojento que o Brasil”, ele responde. “OK, depois do Brasil…”, conclui Lisa.

Recebi email assinado pelo grupo Credibilidade e Ética com o seguinte pedido: “Espero que todos enviem e-mail para a produtora da série exigindo respeito com o nosso país”. Já eu penso que seria melhor que o Brasil se dê mais ao respeito e que um dia ninguém precise se preocupar com o que os Simpsons dizem sobre o país. Mesmo porque, como escreveu um leitor nos comentários da nota abaixo, o desenho ironiza tudo e todos, a começar pelos americanos.

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20/03/2007 - 01:28

Pequeno dicionário greco-hollywoodiano

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O que Hollywood pode nos ensinar sobre a antiga Grécia? Para responder a pergunta, o jornal inglês “The guardian” mandou um repórter assistir a dezenas de filmes americanos sobre o “berço da civilização moderna”, incluindo o recente “300”. As conclusões foram publicadas no formato de um divertido dicionário greco-hollywoodiano, que vai de Afrodite a Zeus, do qual traduzo abaixo alguns dos verbetes.

Afrodite – deusa do amor, invariavelmente interpretada por Ursula Andress ou alguma loira voluptuosa.

Complexo de Édipo
– ver “Alexandre” (2004). Mas, com Angelina Jolie como mãe (na versão de Oliver Stone), quem não teria tendências edipianas?

Cuecas – muitas vezes visíveis sob os saiotes perigosamente curtos que os guerreiros usavam.

Hefestion – amigo mais próximo, muso e provavelmente amante de Alexandre. Oliver Stone atribuiu o fracasso de seu filme ao fato de a bissexualidade de Alexandre não ter caído bem no interior dos Estados Unidos.

Heródoto – contemporâneo da batalha de Termópilas em 480 a.C., ele escreveu um brilhante roteiro para “Os 300 de Esparta”, que passou os 2500 anos seguintes em desenvolvimento.

Sotaques – no final dos anos 50, Hollywood estava convencida de que os gregos antigos falavam um tipo de inglês shakespeariano que soaria deslocado mesmo na Stratford dos anos 30. Richard Burton, no papel de “Alexandre, o Grande” (1956), declama como se estivesse fazendo Hamlet. O estranho sotaque americano sempre apareceu aqui e ali (Richard Egan interpretando o rei Leônidas em “Os 300 de Esparta”, de 1962), mas um sotaque irlandês é hoje mais ou menos de rigor, como no “Alexandre” de Stone, em que um grupo de jovens irlandeses evidentemente modelados no U2 conseguem dominar todo o mundo conhecido.

Xerxes – um louco monarca persa; ele revirava os olhinhos e cofiava a barba em “Os 300 de Esparta”; é ultra-afeminado e pintado em ouro em “300”. Grande exército, mas nenhum cérebro. Ainda assim, uma figura fundamental na história do mundo e extremamente útil em dicionários A-Z como este.

Zeus – o maior dos deuses. Ele se levava extremamente a sério. Tinha uma boa mulher chamada Hera, que aguentava suas numerosas infidelidades e o fato de os dois viverem juntos há uma eternidade. Geralmente interpretado por Laurence Olivier, mas hoje em dia ele seria provavelmente encarnado por Anthony Hopkins.

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19/03/2007 - 08:53

Crítica à crítica

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As divergências entre a crítica e o público de cinema chegaram a um novo ponto crítico este ano. Os maiores sucessos dos últimos meses nos Estados Unidos – “300”, “Motoqueiro fantasma”, “Motoqueiros selvagens”, “Norbit” e “Uma noite no museu” – foram mal recebidos pela imprensa.

Na revista “Variety”, sempre mais preocupada com o negócio dos filmes do que com os filmes em si, isso motivou o analista Peter Bart a escrever uma crítica à crítica. “Se a mídia estabelecida quer continuar relevante, será que os críticos não deveriam fazer uma tentativa de se sintonizar com a cultura pop?”, pergunta.

Ele mesmo dá a resposta: “Eles deveriam tirar um período sabático até setembro, quando os filmes de seu interesse reaparecem. Depois de ver ‘Motoqueiro fantasma’ e ‘300’ em seguida, o cansaço de guerra deixou toda a fraternidade devastada.”

Bart cita como exemplo do abismo entre a crítica e o público o texto do “New York Times” sobre “300”, em que o jornalista A.O. Scott previu que o filme se tornaria “objeto de escárnio” e que iria atrair principalmente os “devotos dos peitorais, deltóides e outros grupos musculares”.

Em resposta, Bart escreve: “Se você alguma vez encontrou um crítico de cinema, você saberá que eles não são grande coisa em termos de peitorais, deltóides e outros grupos musculares.”

Pode-se até discutir se a crítica está equivocada nos seus parâmetros de avaliação (eu acredito que não, mas sempre posso ser acusado de corporativismo). Agora essa história de ironizar a má forma física dos colegas já é apelação.

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18/03/2007 - 10:41

Máquinas do inferno

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O “New York Times” colocou dois de seus críticos de cinema para baixar filmes pela internet e escrever sobre a revolução digital. Em seu artigo, A.O. Scott defende a idéia de que a principal vantagem desse novo mundo é a possibilidade de criar uma cinemateca em casa. “Agora é possível imaginar – esperar – que toda a história dos filmes que sobreviveram ao tempo poderá ser encontrada e vista a um clique do mouse por alguns dólares”, escreve. Já o efeito colateral, segundo ele, seria diminuir ainda mais a importância da sala de cinema como espaço social.

Já Manohla Dargis diz em seu texto que não vê grandes diferenças entre assistir filmes em tela grande ou pequena. Ela lembra que os primeiros filmes exibidos comercialmente foram vistos, através de olhos mágicos, nos kinetoscópios do americano Edison, “portanto vê-los num iPod não deveria parecer tão diferente” (mas ela esquece de dizer que o cinema só “pegou” depois que os franceses Lumière exibiram os filmes em tela grande, para grandes públicos).

Para Dargins, o grande problema da revolução digital é tecnológico: o download de filmes exige paciência. “Ver filmes na televisão é simples, porque ela é apenas mais um eletrodoméstico que você liga ou desliga. Fazer o download pela internet é bem mais complicado, porque os computadores não são eletrodomésticos, mas máquinas do inferno.” Analfabeto tecnológico, com um computador bichado, este blogueiro não poderia estar mais de acordo.

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17/03/2007 - 00:01

60 atuações antológicas do cinema brasileiro

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Navegando outro dia pela comunidade Cinema Brasileiro no Orkut, trombei com essa ótima lista do cineasta Carlos Reichenbach (“Alma corsária”, “Garotas da ABC”) com 60 performances antológicas em filmes nacionais (sem ordem de preferência). Como nem todos os leitores devem estar no Orkut, reproduzo a relação abaixo.

FEMININAS

01. Helena Ignez – em “A mulher de todos” (de Rogério Sganzerla)
02. Glauce Rocha – em “Navalha na carne” (de Braz Chediak)
03. Norma Benguell – em “Os cafajestes” (de Ruy Guerra)
04. Adriana Prieto – em “Lúcia McCartney, uma garota de programa” (de David Neves)
05. Leila Diniz – em “Todas as mulheres do mundo” (de Domingos de Oliveira)
06. Betty Faria – em “A estrela sobe” (de Bruno Barreto)
07. Lilian Lemmertz – em “Lição de amor” (de Eduardo Escorel)
08. Sonia Braga – em “A dama do lotação” (de Neville D´Almeida)
09. Carmen Santos – em “Cidade mulher” e “Argila” (ambos de Humberto Mauro)
10. Dina Sfat – em “Macunaíma” (de Joaquim Pedro de Andrade)
11. Anecy Rocha – em “A grande cidade” (de Carlos Diegues)
12. Celia Olga Benvenutti – em “Lilian M., relatório confidencial” (de Carlos Reichenbach)
13. Odete Lara – em “Noite vazia” (de Walter Hugo Khouri)
14. Darlene Glória – “Toda nudez será castigada” (de Arnaldo Jabor)
15. Déa Selva – “Ganga bruta” (de Humberto Mauro)
16. Fernanda Montenegro – em “A falecida” (de Leon Hirszman)
17. Edna de Cássia – “Iracema, uma transa amazônica” (de Jorge Bodanzky)
18. Eva Wilma – em “São Paulo Sociedade Anônima” (de Luis Sergio Person)
19. Íriz Bruzzi – em “As cariocas” (episódio de Roberto Santos)
20. Irma Alvarez – em “Porto das caixas” (de Paulo Cesar Saraceni)
21. Irene Stefânia – em “Fome de amor” (de Nelson Pereira dos Santos)
22. Isabel Ribeiro – em “São Bernardo” (de Leon Hirszmman)
23. Leona Cavalli – em “Um céu de estrelas” (de Tata Amaral)
24. Luiza Maranhão – em “Barravento” (de Glauber Rocha)
25. Marcélia Cartaxo – em “Madame satã” (de Karim Ainouz)
26. Maria Gladys – em “Cuidado madame” e “Agonia” (ambos de Júlio Bressane)
27. Marisa Prado – em “Terra é sempre terra” (de Tom Payne)
28. Vera Fisher – em “Amor, estranho amor” (de Walter Hugo Khouri)
29. Yara Cortes – em “A rainha diaba” (de Antonio Carlos Fontoura)
30. Zezé Motta – em “Xica da Silva” (de Carlos Diegues)

MASCULINAS

31. Othon Bastos – em “Deus e o diabo na terra do sol” (de Glauber Rocha)
32. Paulo Vilaça – em “O bandido da luz vermelha” (de Rogério Sganzerla)
33. Luis Linhares – em “O bandido da luz vermelha” (de Rogério Sganzerla)
34. José Lewgoy – em “Terra em transe” (de Glauber Rocha)
35. Paulo Cesar Pereio – em “Bang bang” (de Andrea Tonacci)
36. Ênio Gonçalves – em “Filme demência” (de Carlos Reichenbach)
37. Átila Iório – em “Vidas secas” (de Nelson Pereira dos Santos)
38. Leonardo Vilar – em “A hora e a vez de Augusto Matraga” (de Roberto Santos)
39. Milton Gonçalves – em “A rainha diaba” (de Antonio Carlos Fontoura)
40. Claudio Marzo – em “Nunca fomos tão felizes” (de Murilo Sales)
41. Bertrand Duarte – em “O superoutro” (de Edgar Navarro)
42. Walmor Chagas – em “São Paulo Sociedade Anônima” (de Luis Sergio Person)
43. Jece Valadão – em “O boca de ouro” (de Nelson Pereira dos Santos)
44. Agildo Ribeiro – em “Tocaia no asfalto” (de Roberto Pires)
45. Antonio Pitanga – em “A grande cidade” (de Carlos Diegues)
46. Carlos Imperial – em “O monstro caraíba” (de Júlio Bressane)
47. Maurício do Vale – em “Dragão da maldade contra o santo guerreiro” (de Glauber Rocha)
48. Lima Duarte – em “Sargento Getúlio” (de Hermano Penna)
49. Selton Mello – em “Lavoura arcaica” (de Luis Fernando Carvalho)
50. Cyll Farney – em “Chico Viola não morreu” (de Román Vañoly Barreto)
51. André Villon – em “Bonitinha, mas ordinária” (de J. P. de Carvalho)
52. Paulo José – em “O padre e a moça” (de Joaquim Pedro de Andrade)
53. Eliezer Gomes – em “Assalto ao trem pagador” (de Roberto Faria)
54. Hugo Carvana – em “Avaeté, semente da violência” (de Zelito Viana)
55. Grande Otelo – em “Macunaíma” (de Joaquim Pedro de Andrade)
56. Lázaro Ramos – em “Madame Satã” (de Karim Anouiz)
57. Nelson Xavier – em “O mágico e o delegado” (de Fernando Cony Campos)
58. Reginaldo Faria – em “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia” (de Hector Babenco)
59. Carlos Alberto Ricelli – em “Eles não usam black-tie” (de Leon Hirszman)
60. Claudio Cavalcanti – em “Contos eróticos”

É uma lista de respeito, feita por quem sabe tudo do assunto e que serve como um guia de introdução ao cinema brasileiro. Tenho poucas discordâncias com Carlão. Prefiro, por exemplo, Marcélia Cartaxo em “A hora da estrela” e Paulo César Pereio em “Iracema, uma transa amazônica”. Vera Fischer não estaria na minha relação por “Amor, estranho amor”. Nem Carlos Alberto Ricelli por “Eles não usam black-tie” (no lugar dele, colocaria Gianfresco Guarnieri, pelo mesmo filme). Entre as produções recentes, incluiria Hermila Guedes por “O céu de Suely” e João Miguel por “Cinema, aspirinas e urubus”.

Depois da lista postada, os integrantes da comunidade lembraram de atuações que Carlão não indicou. E você, caro leitor, notou alguma ausência ou discordou de alguma escolha?

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16/03/2007 - 00:01

Maria Antonieta vai à danceteria

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Como filha de Francis Ford Coppola, o diretor de “Apocalypse now” (1979), Sofia fazia parte da nobreza de Hollywood em sua adolescência. Aos 19 anos, ela passou a ser hostilizada pelos súditos, por sua participação como atriz em “O poderoso chefão 3” (1990), dirigido por seu pai.

Dezessete anos depois, já consagrada como cineasta, Sofia Coppola volta seus olhos para uma figura histórica de trajetória semelhante: Maria Antonieta, a nobre austríaca que se tornou a rainha mais desprezada da França e ficou famosa pela frase (talvez nunca proferida) “se eles não têm pão, que comam brioches”.

“Maria Antonieta”, o filme que estréia hoje no Brasil, quase um ano depois de ser vaiado no Festival de Cannes, dá continuidade a um dos projetos autorais mais interessantes do cinema atual. Em seu terceiro longa, Sofia mais uma vez tenta traduzir, em imagens e sons, a sensação de deslocamento vivida por uma jovem mulher.

No longa de estréia, o promissor “As virgens suicidas” (1999), era um grupo de adolescentes confinadas em casa pelos pais em um subúrbio americano nos anos 70. No filme seguinte, o essencial “Encontros e desencontros” (2003), tratava-se de uma garota americana perdida na Tóquio contemporânea.

Agora, no belo e imperfeito “Maria Antonieta”, Sofia parte para um desafio maior: apresentar a história da rainha francesa como mais um exemplo dessa idéia de não-pertencimento, transformar uma figura conhecida em um espelho de sua obsessão.

“Maria Antonieta” é fruto de uma tentativa de uma cineasta se identificar e de se aproximar de sua personagem. E qual o primeiro passo que Sofia toma nesse sentido? Emprestar a trilha sonora de sua vida para a história da rainha.

Isso não quer dizer que a cineasta trouxe Maria Antonieta para os dias de hoje, e sim que a levou para os anos 80 de sua adolescência, para as danceterias onde ouvia Gang of Four, Siouxsie and the Banshees, The Cure e New Order. Mais uma vez, Sofia comprova que é hoje, ao lado de Quentin Tarantino, o diretor que cria as trilhas mais significativas com músicas não-originais.

A segunda providência da cineasta foi embalar a história de Maria Antonieta com a mesma atmosfera onírica de seus filmes anteriores, como se ela filmasse não tanto a trajetória real da rainha, mas um sonho que teve sobre ela. Isso significa que ela assumiu um ponto de vista livre e pessoal, sem viés ideológico ou preocupação ocm o didatismo.

A Maria Antonieta do filme não é a dos livros de história, mas a Sofia Coppola. E quem é, afinal, essa mulher? Em primeiro lugar, Maria Antonieta (Kirsten Dunst) é a adolescente arrancada do conforto de seu lar em Viena e levada para a gaiola de luxo do palácio de Versalhes, para se casar com o futuro rei Luís XVI (Jason Schwartzman) e celebrar a união política entre França e Áustria.

Em pouco tempo, ela fica entediada com os rituais e as fofocas da corte e frustrada com a inapetência sexual do marido, que não se interessa em consumar o casamento por longos sete anos. Mas é ela quem leva a má fama, por não gerar herdeiros para o trono francês.

Depois de ter o primeiro filho, Maria Antonieta tenta contornar o tédio e a solidão pelas vias da frivolidade e do hedonismo, dedicando-se a roupas luxuosas, festas extravagantes e a um amante sueco. Isso só aumentará a insatisfação com a rainha. No final, aos olhos da população, ela se torna o símbolo da decadência da nobreza e alvo preferencial dos líderes da Revolução Francesa.

Prisão, libertação, confrontação. É o mesmo movimento feito pelas protagonistas dos filmes anteriores de Sofia, a Lux Lisbon (interpretada pela mesma Kristen Dunst) de “As virgens suicidas” e a Charlotte (Scharlett Johansson) de “Encontros e desencontros”.

A muitos críticos, especialmente os franceses, o filme pareceu tão superficial quanto sua protagonista. É uma visão limitada, já que a cineasta se propõe justamente a fazer a crônica da superficialidade da nobreza. O que talvez tenha incomodado os jornalistas é que Sofia recusa-se a condenar a rainha de forma extemporânea. Em vez disso, ela lança para Maria Antonieta o mesmo olhar compreensivo que dedicou a suas outras jovens personagens.

Isso não quer dizer que “Maria Antonieta” seja um filme perfeito. “Encontros e desencontros” diagnosticou essa sensação de deslocamento de forma mais precisa e delicada. No novo filme, Sofia não apenas mostra uma garota perdida, como às vezes se mostra também perdida em uma narrativa dispersa e repetitiva.

Mas não se pode acusar Sofia de pecar por medo ou mediocridade. Ela fez um filme arriscado e idiossincrático. Fez, enfim, o filme que quis. Como seu brilhante pai, ela prova outra vez que é grande nos acertos e nos erros.

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