Publicidade

Publicidade
24/04/2007 - 22:23

Como filmar a tortura?

Compartilhe: Twitter

“Batismo de sangue” levanta uma questão mais interessante que a própria produção: como filmar cenas de tortura? O diretor Helvécio Ratton preferiu ser o mais explícito possível (como Mel Gibson em “A paixão de Cristo”) – opção que dividiu os jornalistas que escreveram sobre o filme. No blog Canto do Inácio, o crítico Inácio Araujo, da “Folha de S. Paulo”, critica a escolha:

Nem sempre abordar francamente um assunto significa trazê-lo à luz, e esse me parece o equívoco do Ratton. A diferença entre a vida e a arte é que a segunda requer mais imaginação. Era preciso um esforço para nos fazer crer em quão dolorida pode ser a tortura – não mostrá-la não equivaleria a ocultar, mas a fazer-nos sentir uma violência que no filme é meramente retórica.

Aqui, em NoMínimo, Ricardo Kotscho concordou com a escolha do diretor:

Há até quem o ache violento demais, como já andei lendo na imprensa. Mas penso que não haveria como rodá-lo de outro modo se era para retratar a história como ela realmente aconteceu.

A meu ver, o cinema costuma ser mais interessante quando sugere do que quando ostenta. O explícito às vezes fica perigosamente próximo do pornográfico. Seja nas cenas de sexo ou de violência.

Autor: - Categoria(s): Posts Tags:

Ver todas as notas

20 comentários para “Como filmar a tortura?”

  1. João disse:

    O filme fala melhor da tortura quando aponta suas conseqüências devastadoras na vida do Frei Tito. Nas restantes, fez o de sempre, com imagens violentas que a repetição no cinema já fez o infeliz favor de banalizar.

  2. Felipe disse:

    Acho que cada caso é um caso. Não faz sentido comparar o uso de cena de tortura entre filmes como “Pra Frente Brasil”, “Cães de Aluguel”, “Maratona da Morte”, “Cassino” ou “A Morte e a Donzela”. Acredito que o uso das cenas de tortura nos filmes geralmente fazem sentido no contexto das histórias que esses filmes contam

  3. Julio Porto disse:

    Ricardo,

    vc disse ter se tornado um moralisa depois de ver a novela do Manoel Carlos, o que tem a dizer das cenas de sexo de “Paraíso tropical”? Às 21h é possível ver uma atriz mordendo os mamilos do Bruno Gagliasso (http://www.youtube.com/watch?v=WAO5uuvfNis), close na cueca do Sérgio Marone etc. Só ontem foram dois pares de seios só no primeiro bloco.

    Eu sou a favor.

    Abraço,
    J.

  4. Demônio dos Infernos disse:

    Pergunta pro Kotscho o que ele acha da tortura em Cuba, como ela deveria ser filmada. E você, Calil? Não acha que a tortura nas prisões cubanas não merecia um filme?
    Minha pergunta tem a ver com o assunto? Pensa um pouco…

  5. Andrea disse:

    Eu pensei sobre isso quando assisti ao filme “300”. Mesmo que o filme inteiro mostre cenas das batalhas, cabeças cortadas e lanças que atravessam os corpos, eu não achei que deram mais enfase à dilaceração da carne e tripas nojentas, mas sim, às técnicas de luta que faziam o exército de Esparta tão poderoso, aos movimentos dos atores, a fotografia e plasticidade, essas coisas… Tanto foi essa a intenção que o sangue desaparecia, não ficava aquele monte de personagem lambusado e realmente não senti falta disso.
    Tudo isso prá dizer que concordo com a sua colocação, R. Calil.

  6. Rodrigo disse:

    Ainda não vi “Batismo”, mas o “Paixão de Cristo” é deplorável: um filme hiper-realista, cheio de tortura e sangue, pra satisfazer (?) os sádicos e católicos ortodoxos.

  7. Tererê disse:

    Concordo contigo, Calil. Tanto as cenas de sexo quanto de violência são mais interessantes quando sugeridas (exceto, claro, se for com Monica Bellucci)
    Mas foi justamente esse sadismo, já apontado nos filmes de Gibson, que me impressionou no Labirinto do Fauno (mais explícito do que Jogos Mortais, por exemplo).

  8. R. Santana disse:

    Claro que deixar a cargo da imaginação do espectador torna o filme muito mais interessante, assim como faz Haneke, mas tem casos que a violência ou o sexo se justifica. Em Batismo de Sangue, se não houvessem as cenas de tortura, o publico não entenderia que motivos levaram os frades a denunciarem Maringhela e nem mesmo o porquê de Frei Tito se matar. As cenas servem à um propósito, e por isso acho válidas. Agora em 300…

  9. Jack Bauer disse:

    Listen to me… this is the only way to stop him. We don’t have much time.

  10. Fábio disse:

    Exageradas as cenas de tortura. Notei que havia um quê de repetir Mel Gibson em Jesus Cristo. Desnecessário porque havia um bom roteiro, uma boa trama, e bons atores. Quase esqueci que era produção nacional tal a qualidade.

  11. Giovanni disse:

    Eu achei perfeito. Certos assuntos devem ser tratados do modo mais transparente possível. Por que maquiar uma verdade que ainda hoje se faz presente, de modo tão devastador sobre a vida das vítimas? Sendo um crime de Estado, quase nunca é punido.

    Um outro aspecto muito feliz do filme foi mostrar que Frei Beto não foi torturado por ser sobrinho de general. Torturadores, acima de tudo, são desmedidamente covardes; arremedos de seres humanos. Ratos de esgoto tem mais direito à vida do que “gente” dessa extirpe.

  12. Luiber disse:

    Acho que existe uma grande diferença em como as cenas são retratadas em filmes de pura ficção e naqueles que pretendem retratar histórias verídicas. No segundo caso, o contexto é muito mais abrangente, já que existe uma história anterior e uma posterior. E o rigor da reprodução da cena pode mudar a compreensão dos fatos pelo expectador.

  13. marco disse:

    Depende Ricardo.

    Mas citar a opinião de Ricardo Kotscho sobre qualquer assunto, leva sempre a uma inevitável resposta chapa branca.

    Ricardo Kotscho é do tipo que acredita que Celso Daniel, O Fime, é algo que jamais deveria ser mostrado.

    abs,
    ma

  14. Luiz disse:

    Sinceramente, achei que o filme até “pegou leve”. Pelo que se sabe daqueles tempos – vastamente documentados em livros como “Tortura nunca mais” – a violência era ainda pior do que a retratada. O filme mostra o básico e sugere coisas muito piores, que realmente aconteceram, como a violência sexual, que é apenas insinuada na cena em que uma das poucas presas políticas retratadas no filme é carregada de volta à cela. Se o tema principal era como a tortura levou Frei Tito a enlouquecer, não havia como não mostrar essa violência explicitamente. Também foi o primeiro filme a detalhar a participação do delegado Fleury – como a história documentou – na tortura e, inclusive, na comemoração bárbara após a morte de Mariguela. A covardia e a violência extrema dos torturadores da ditadura não teve limites e o filme foi até moderado ao retratá-la.

  15. Ricardo Cabral disse:

    Me alinho aos que preferem sugestão do que explicitação. E para quem quer ver algo realmente violento sem ser explícito, sugiro Paisagem na Neblina, do Theo Angelopoulos. Faço uma descrição de como lembro da cena — vi o filme no final dos anos 80 (o filme é de 1988):

    Câmera estática, acostamento de uma estrada vazia, reta sem fim. Pela esquerda um caminhão para, uns dez metros na (nossa) frente. O motorista salta, puxando Voula pelo braço — teria ela uns dez, doze anos? —, ela que com o irmão pegara carona cenas atrás. O motorista arrasta a menina até a traseira do caminhão, força a menina a subir. (Não lembro de ouvir som algum, nenhuma pontuação.)

    A câmera segue fixa, insuportavelmente fixa, durante dezenas, centenas, milhares de segundos, na penumbra sob a lona do caminhão, mas nada se vê. E sem sobressaltos, assistimos ao motorista descer, abotoar a calça, ajeitar a braguilha e a camisa, seguindo pela lateral esquerda, retomando o seu lugar na direção. (Tudo o que acontece lá dentro subentendido, nada na película; como disse antes, a penumbra, o ângulo e a distância não nos permitem ver.) Logo atrás dele, desce a menina, com um pouco de dificuldade — o caminhão é alto —, ajeita a saia em desalinho, fecha a blusa, caminha lenta e desconfortavelmente, parece. Ela segue à nossa direita, em direção ao lugar do carona, onde o irmão Alexander permaneceu todo esse tempo.

    O caminhão deixa os irmãos no acostamento, metros à frente da gente, e segue a estrada. Nós ficamos.

    (Para mim, essa cena consegue ser muito mais violenta do que o estupro da Monica Bellucci em Irreversível, por exemplo — que é uma bobagem, cá entre nós.)

  16. Luiz disse:

    Muito impressionante sua descrição da cena do “Paisagem na Neblina”, Ricardo. Não vi o filme mas fiquei interessado em assisti-lo no futuro. Sem dúvida, foi uma sugestão fortíssima da presumida violência ocorrida no interior do caminhão, e me incomodou só de ler. Acho que nos dá a medida do talento do Angelopoulos. No entanto, penso que isso não diminui o mérito do “Batismo de Sangue”. Criticá-lo por causa de sua violência explícita me parece o mesmo que criticar “A Lista de Schindler” por mostrar muita gente morrendo, “Rastros de Ódio por ter muitos tiros ou “A Noviça Rebelde” por excesso de canções. O filme do Helvécio me pareceu muito honesto, baseado num romance conhecido que retrata explícitamente a tortura – inclusive com a intenção de documenar seus detalhes historicamente, em tom de testemunho, mesmo. Tal opção estética pode não ter produzido a maior obra prima do cinema mundial, mas resgata um relato corajoso sobre pessoas até um pouco ingênuas e idealistas, que foram trucidadas por policiais e militares a serviço do governo brasileiro. O próprio filme é um pouco ingênuo, refletindo, talvez, o envolvimento do diretor com a geração que ele retrata. E a violência do filme não foi um recurso apelativo para supostamente aumentar o interesse, mas apenas o caminho esolhido pelo Helvécio – sem dúvida, sem o mesmo brilhantismo do Angelopoulos – passando ao largo de grandes metáforas e deixando o texto do frei Beto “falar” por si. Falta de criatividade? Talvez, mas me parece que a preocupação do diretor foi a de preservar o “testemunho”, talvez para dar legitimidade histórica à narrativa, tornado-a um documento para as gerações que não viveram aqueles tempos. Não foi o maior filme brasileiro que eu vi, nem o mais criativo esteticamente, mas é um filme honesto, e um impressionante “documento” de um pedaço sombrio de nossa história que ainda não foi totalmente compreendido pelos brasileiros. Dava para fazer de outra forma, “sugerindo” ao invés de “descrever”? Sem dúvida mas, sinceramente, e daí? Uma história esquecida de frades sonhadores que conciliavam catolicismo com marximo revolucionário, sem grandes apelos comerciais, foi levada às telas com êxito, numa produção bem acabada. A esquecida história de um jovem frade torturado até enlouquecer e se matar foi resgatada e mostrada de forma competente para quem nunca tinha ouvido falar disso. Já é muito, e merece aplausos, pelo menos os meus.

  17. Ricardo Cabral disse:

    Luiz, no fundo apenas quis expressar o quanto algumas escolhas da estética cinematográfica podem ser impactantes sem percorrer o caminho do explícito, que é a tônica atual — presente tb em muitos artistas plásticos, preocupados sobretudo em chocar pelo excesso, mais do que pela sutileza —, e inclusive citei como exemplo o Irreversível, do Gaspar Noé, que acho um filme supervalorizado e desnecessário (porque pretensioso, mas de resultado tolo).

    Um outro filme impactante, que mostra bem menos do que muitos na atualidade, mas que nem por isso é menos violento, é Johnny Vai à Guerra, do Dalton Trumbo. Pode não estar na “lista dos 10 mais” do ponto de vista cinematográfico, mas não conheço ninguém que tenha saído impune dele, de experimentar os mesmos sentimentos de impotência do personagem-título. Até os mais chegados a uma guerra são capazes de ficar enjoados…

    Ainda não vi o filme do Helvécio Ratton, mas tenho sim vontade de ver, pois o tema me interessa. E mesmo as críticas sobre a violência explícita não parecem falar do filme como um todo, se entendi bem.

  18. Marcio Amaral disse:

    Muito legal ler sobre dois grandes filmes, aqui citados nos comentários do R Santana e do Ricardo respectivamente. Haneke é um gênio e vale a pena assistir, por exemplo, “Violência Gratuita”, o clima de terror psicológico é jogado no colo do espectador já nas primeiras cenas. “Paisagem na Neblina” é a busca incessante do visível, a tentativa incansável de se manter acesa a chama da esperança. Um off-road, grego (se não me engano), diferente e único. Dois exemplos fascinantes quanto ao “não uso” de cenas explícitas.
    Mas ao Cinema, não se pode convencionar uma regra do “sim” ou do “não”. Se elenco e direção conseguem traduzir na cena o encantamento do cinema, inclusive filmando cenas mais reais, o recado está dado. Se Ratton conseguiu esse resultado, parabéns (ainda não assisti). Se não é mais um na gorda lista da banalização da violência no cinema, como citou o João lá no primeiro comentário.
    Cinema é um mundo e cada espectador um outro mundo.

  19. gustavo disse:

    Ainda nao vi o filme de Ratton, mas tomara q nao seja movido por aquele sadismo doentio de A Paixao de Cristo.

  20. O que ninguém comenta é que a história pode
    ser escrita,de acordo com o ponto de
    vista(ou ideologia) de cada narrador.
    De exato(ou quase) qualquer história tem
    muito pouco.A ditadura foi guerreada com
    excessos de ambos os lados;quem disse
    que os subversivos também não torturaram?.Perderam a guerra e nunca
    vão se conformar!

Os comentários do texto estão encerrados.

Voltar ao topo