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17/05/2007 - 22:49

Lições da Coréia do Sul

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“O hospedeiro”, que estréia hoje no Brasil, vendeu 13 milhões de ingressos na Coréia do Sul em 2006, tornando-se assim o filme de maior bilheteria da história do país asiático (que tem uma população de 48 milhões de pessoas).

Enquanto isso, no Brasil, “Se eu fosse” foi o campeão de público do ano passado, com 3,6 milhões de espectadores (para um país de 180 milhões de habitantes). Não é uma comparação exatamente justa. Os países têm realidades e cinemas muito distintos. Mas não custa tentar entender o exemplo de sucesso sul-coreano.

Com excelentes universidades (que formam dezenas de cineastas promissores por ano), apoio pesado de grandes empresas (como a Samsung) e eficientes leis de incentivo do governo (sim, elas existem e são necessárias quase no mundo todo, mas são melhores em alguns países), os filmes locais conseguiram atingir uma taxa de 60% de ocupação de tela no país (contra pouco mais de 10% no Brasil).

Assim, o pequeno país oriental criou uma das indústrias cinematográficas mais fortes da atualidade e conseguiu destaque no circuito de grandes festivais com cineastas como Park Chan-wook (de “Lady Vingança”, em cartaz agora no Brasil, e “Old boy”) e Kim Ki-duk (“Casa Vazia”), entre muitos outros.

No caso específico de “O hospedeiro”, de Bong Joon-ho, também há lições importantes a assimilar. A primeira delas: o cinema industrial, pensado para o grande público, não precisa rebaixar-se ao mínimo denominador comum, nem subestimar a inteligência do espectador – como é crença corrente no Brasil hoje.

Outra: o cinema é vasto demais para se restringir a dois gêneros. Aqui, 90% dos filmes são comédias ou dramas puros. Já “O hospedeiro” é uma inteligente mistura de filme de monstro, comédia nonsense, drama familiar e denúncia política.

O filme começa quando um cientista americano manda despejar substâncias tóxicas em um rio de Seul. Anos depois, surge das águas um ser monstruoso que mata várias pessoas e seqüestra uma menina. Sua desajustada família decide se unir para resgatá-la, mas precisa enfrentar o governo coreano, que mandou isolar as pessoas que tiveram contato com o monstro (entre eles, o pai da garotinha).

Em meio à história de terror que lembra um “Gozilla” contemporâneo, o cineasta produz cenas antológicas de pastelão e críticas precisas sobre as relações dos Estados Unidos com a Coréia.

Mas, claro, nem tudo é perfeito. A obra de Joon-ho tem uma limitação muito parecida à de Chan-wook: os dois cineastas esforçam-se demais para provar que sabem filmar. A partir de um certo ponto, eles parecem mais interessados em exibir um ângulo de câmera inusitado do que em desenvolver seus personagens e histórias.

Ainda assim, há um frescor e uma ousadia em seus filmes que dificilmente podem ser encontrados hoje no cinema industrial de outros países do mundo – incluindo aí também o americano. Não por acaso, “O hospedeiro” e “Old Boy” irão ganhar em breve remakes hollywoodianos.

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15 comentários para “Lições da Coréia do Sul”

  1. Rodrigo disse:

    Vi O Hospedeiro no Festibval do Rio.

    E é simplesmente genial.

    Estou muito feliz q estreou em circutio, vou até ver de novo e recomendar a todos.

    Diversão simples, inteligente e bem feita. Acho q no Brasil só o Jorge Furtado faz um cinema com esses três ingredientes.

  2. Rafael Aguiar disse:

    Hollywood agora vive de remake?

  3. S. Galvão disse:

    É…notícia alvissareira. O frescor, a ousadia é muito bom! Ventos e aragens frescas poderiam soprar por aquí.
    Não entendo como é possível tantos DVDs estadunidenses! Procurei em três gôndolas enormes de uma loja; só achei Olga e Dois Filhos de Francisco, o resto, tudo dos buches: matar e correr, matar II, III, IV. É necessário arejar, abrir janelas, ocupar espaços….

  4. sonhadora disse:

    Continuo apostando no frescor, na ousadia do novo, do arrebatador, do bom, do honesto, do magnífico, do sério filme brasileiro. Só mais alguns detalhes…e pronto! Por onde anda Carla Camurati?

  5. Fabio Negro disse:

    Só que o melhor filme dele você parece não ter visto.

    “Memories of Murder” (lançado aqui mês passado como “Memórias de um Assassino) é o melhor filme de serial killer desde… sempre!

  6. Marcio Leandro disse:

    Enquanto o cinema nacional continuar insistindo em copiar a televisão, não vai decolar!!! Precisamos de criatividade, filmes que sejam de forte apelo, chega de dramalhões como Olga (chatíssimo) e comé(R)dias leves e insossas como Se fosse você.
    Cadê os bons filmes de ficção/suspense como Redentor? Precisamos de idéias novas, mas por favor, nada de “filmes cabeça”.

  7. Tererê disse:

    Isso agora é um gênero: “filme cabeça” – tenha a paciência… “filmes de forte apelo” blahrgt… que nojo…
    No Brasil há espaço pra todos os generos, o que nao dá mais é para considerarmos o filme “nacional” como um genero… tem que produzir… mais de tudo, infantil, juvenil, pra mulherzinha, pra cabeça de bagre, de terror, comédia, suspense, e vamos em frente.
    Maior incentivo à produção e ingressos mais baratos já seriam enormes avanços.

  8. Guido disse:

    a temática dominante aqui sempre vai ser Nordeste retirante ou o bandido favela da O2…
    Filme falando sobre mensalão, o bastidores do Congresso, sobre como se faz um canditato aqui no Brasil, versando sobre temas atuais, nem pensar… Tem de ser sempre do malandro do Lázaro Ramos com alma de Macunaíma, Fernanda Montenegro oua Laura Cardoso com cara de sofredora… Ou estes pretensos moderninhos cheios de palavrão, de diretores que “querem quebrar as convenções” …
    O melhor de cinema do Brasil estão no curtas… histórias, direção e criatividade, e atores porque ainda não foram cooptados pela televisão.
    Nada mais irritante do que os mesmos de sempre nos filmes, mos teatros e na televisão, geralmente ao mesmo tempo.
    Agora mesmo no prêmio TIM pegue os jornais e veja… todos os mesmos atores de cinema , teatroe televisão também ganhando o espeço dos músicos. Mais fotos de atores que dos músicos.
    Nem lá fora em prêmios da MTV e Billboard ou de qualquer mídia de música se vê tantos atores infiltrados, só os que participam da apresentação.
    Chega a dar enjôo de ver estes atores nacionais onipresentes… até em porrinha de porteiro na esquina os caras participam. Parece um grupelho fechado de músicos e atores e atrizes sempre presentes em tudo…

  9. Adriano Carvalho disse:

    Concordo com o Guido, pra mim uma das coisas que tornam o meio artístico brasileiro insuportável – seja cinema, televisão ou teatro – é ver sempre as mesmas (e poucas) caras em todas as produçções. E o que é pior, com atores completamente estagnados que não evoluem, não inovam, não tentam coisas novas.

    Não que Hollywood não tenha sua panelinha, mas pelo menos lá a variedade e diversidade é bem maior. Embora eu não aguente mais as caras do Tom Cruise e Brad Pitt, tanto quanto não aguento mais Antonio Fagundes e Marieta Severo.

  10. Márcio disse:

    Calil, acho que o remake de Old Boy subiu no telhado. Veja aqui: http://www.omelete.com.br/cine/100003633/Remake_de_Oldboy_nao_deve_acontecer.aspx

  11. Saint-Clair Stockler disse:

    Concordo com o Guido: aqui só se faz filme de dois tipos: ou de bandidos favelados ou de nordestinos sofridos (e suas variantes: bandidos nordestinos e favelados sofridos). Ninguém ousa além disso: contar a história de um Presidente corrupto que sofre um impeachment, ou do esforço e gasto envolvidos na “criação” de um Senador, por exemplo. Também não há filmes que falem e mostrem (ênfase no segundo verbo) como são as nossas elites – tipo, um filme que mostre uma família fictícia na intimidade, bem parecida com os Marinho ou os Moreira Salles. Eu, pessoalmente, já estou cansado de saber como é que funciona uma favela, até porque moro no Rio e elas estão por todos os lados. Eu quero agora saber como pensa e age a elite. Mas é claro que eles, os Diretores filhos das elites, têm muito peito pra mostrar as vidas dos pobres pretos favelados, mas devem ter um medo que se pela de mostrar a si próprios… É até compreensível, devem temer o sequestro.

  12. S. Galvão disse:

    É bem verdade. Parece que o cinema pertence a um grupinho. Só aparecem suas caras e as histórias são as mesmas de sempre. Pior que os cineastas sofrem eternamente de crises existenciais; querem aparecer mais que os atores.
    Não adianta querer ver Arosio em um filme, bela e talentosa; parecem tds. cegos.

  13. daniel disse:

    Filme sobre a corrupção em Brasília?
    Já fizeram sim.

    Curiosamente, foi acusado de anti-petista pelos partidários do PT de sempre e acusado de petista pelos anti-comunistas de sempre.
    É que o pessoal tem preguiça de pensar.

  14. Zé Bush disse:

    well….Mr. Calil fez um diagnóstico bastante preciso quando fala da formação de cineastas em universidades.
    O problema é que nossas universidades estão dominadas pelo pensamento “engajado”, que nos condena a eternas “revisões” da História e endeusamento dos “oprimidos” e “minorias”.
    Nosso cinema não tem linguagem própria, pois toma emprestado discursos e palavras de ordem que mal sabe pronunciar.
    Nosso cinema come na cozinha da televisão, aproveitando as sobras das novelas.
    Como bem lembrado por Mr. Calil, fazer cinema popular não implica em fazer filminhos bobocas e engraçadinhos.Isso a gente tá cansado de ver em novela vagabunda.
    Preciosismo técnico e tomadas “revolucionárias” não fazem um bom filme.Tem que ter enredo, personagem e linguagem.O que temos são “causos”, tipos e prosódia mambembe.
    Enquanto a coisa ficar nessa eterna “denúncia” e nessa bobagem de nordestino-favelado-oprimido-marginal, estamos condenados a ser testemunhas e vítimas dessa atividade bancada com dinheiro público para a festa (e fortuna) de uns poucos.

  15. O realista disse:

    O cinema brasileiro tem coisas boas, sim. E tem coisas horrorosas, também (quase todos da Globo Filmes são porcarias que imitam novelas).
    Não vi o hospedeiro, mas vi o old boy e não sei por que esse entusiasmo todo. Pancadaria sem sentido, roteiro absolutamente inverossímil, estética imitativa do cinema de roliúde (do mal cinema de roliúde, ressalte-se). Aquilo foi feito com muito mais brilho, ineligencia e atores melhores pelo francês Luc Besson, com Nikita, lembra-se? O rotleiro é clarmaente copiado.
    E o filme do francês também gerou remake por roliúde.
    Aliás, roliúde faz remake de qualquer coisa, pode ser porcaria, e invariavelmente eles transformam numa porcria ainda mais deprimente.

Os comentários do texto estão encerrados.

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