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Arquivo de maio, 2007

12/05/2007 - 00:01

“Star wars” é uma balzaca

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O filme não deveria fazer o que fez – nada deveria. Filmes são feitos para ficar na tela, planos e amplos e coloridos, seqüestrando você com seu arrastão de imagens e devolvendo-o para sua vida no final. Mas aquele filme comportou-se mal. ‘Star wars’ vazou para fora dos cinemas, transbordou das telas. Muitas pessoas foram profundamente afetadas por ele, exigindo talismãs e artefatos, merchandising e seqüências.

(…)

A data oficial de estréia foi 25 de maio de 1977, mas os barulhos trovejantes da chegada do asteróide e da intervenção na Estrela da Morte começaram muitos dias antes. Não era como uma estréia de cinema; era como um terremoto. A cada dia que o lançamento se aproximava, um novo sinal aparecia: um apito de cachorro não-audível para o ouvido humano, mas que foi escutado por viciados em ficção-científica do mundo todo, gerando uma animação na atmosfera parecida com eletricidade. Ela crepitou perto dos cinemas. Zumbiu sobre minha cabeça. Não sei como começou; tudo que sei é que, de repente, estava em todo lugar. Foi percebida primeiro pela nova ordem de nerds, jovens entusiasmados com sacos de dormir. “A coisa” estava se aproximando, e eles queriam experimentá-la primeiro: sentar no escuro, com a sombra e a luz das batalhas espaciais iluminando seus rostos fascinados. E eles voltaram muitas e muitas vezes.

Assim Carrie Fischer, a Princesa Léa, descreveu algum tempo atrás a estréia de “Star wars” para uma reportagem especial da revista “Time” sobre os “80 dias que mudaram o mundo”. Daqui a duas semanas, aquele dia completa 30 anos. E todos nós sabemos o que aconteceu nesse meio tempo: para o bem e para o mal, “Star wars” redefiniu o negócio do cinema e deixou-o com a cara que ele tem hoje.

Está tudo lá em uma matéria da “Variety”: George Lucas criou o conceito do “blockbuster” de verão (e suas seqüências); enxergou a mina de ouro do merchandising de produtos (que, no caso da franquia, já rendeu US$ 20 bilhões de faturamento); inventou o marketing direcionado a um público-alvo (ao mostrar slides do primeiro filme em convenções de quadrinhos); tornou o cinema americano um entretenimento essencialmente juvenil; iniciou a explosão dos filmes de ficção-científica dos anos 80; levou os efeitos especiais e sonoros a um novo patamar de qualidade e assim por diante.

Mais importante que tudo isso, “Star wars” tornou-se uma subcultura de enorme impacto e influência, com personagens e arquétipos, armas e expressões que ficaram entranhados no imaginário coletivo mundial. A maior prova é o fato de a série ter uma enciclopédia online própria: o Wookieepedia, com a espantosa quantidade de 48 mil artigos (um quinto do total de verbetes em português da Wikipedia).

Agora vem a grande questão: como “Star wars”, o original, resiste à prova do tempo, agora que se tornou uma balzaquiana? Em termos tecnológicos, a produção até que se segura bem. De resto, é curioso notar como esse filme – que, para muitos, é o símbolo mais nocivo do lixo hollywoodiano – parece hoje um entretenimento tão inofensivo quanto um “Flash Gordon” ou um “Buck Rogers” deviam soar em 77.

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11/05/2007 - 23:59

“Star wars” e eu

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Qualquer pessoa com menos de 50 anos tem alguma história para contar sobre “Star wars”: uma sessão inesquecível, uma festa à fantasia ou algo do gênero. Não sei se a minha é grande coisa, mas ao menos é simbólica do tipo de devoção que a série costuma despertar.

Em 1999, eu morava em Nova York e, de vez em quando, participava de uma coisa meio besta chamada “press junkets” – rodadas de entrevistas com atores e diretores para lançamento de um filme, com mais quatro ou cinco jornalistas e duração de não mais que 20 minutos. Cada uma que a gente faz para se virar no estrangeiro…

Um desses eventos foi para a divulgação do filme “Do fundo do mar”, uma paródia involuntária de “Tubarão” dirigida por Renny Harlin, com Samuel Jackson encabeçando o elenco. O nível médio das perguntas feitas pelos americanos para o ator de “Pulp fiction” era: “Como foi a sensação de fugir de um tubarão mecânico de 5 metros?”

Depois de uma longa manhã, eu já estava de saída quando um assessor de imprensa me disse para pegar uma sacola de brinde ali no canto. Eu achei que estava me vendendo por uma camiseta ou uma canequinha, mas a coisa se revelou bem mais complicada.

No metrô a caminho de casa, abri o pacote e vi que o brinde era uma caixa do boneco articulado de Samuel Jackson como o Mace Windu do “Episódio 1” de “Star wars”, lançado naquele mesmo ano. Achei meio bizarro. Será que o ator estava aproveitando o “junket” de um filme para divulgar outro? Não fazia o mínimo sentido.

A meu lado no vagão, havia uma mãe com sua filhinha, que ficou encantada com o brinquedo. Ao sair do vagão, deixei-o com ela. Nada a ver com bons sentimentos. Eu simplesmente não consigo imaginar nada que me interesse menos que um boneco de Mace Windu.

Naquela mesma tarde, o assessor de “Do fundo do mar” me ligou desesperado, perguntando se, por acaso, eu havia levado uma sacola com um boneco de Windu. Respondi que sim. Ele disse que eu havia trocado de sacola, que o boneco era dele e que gostaria de pegá-lo de volta. Daí eu pensei: se o boneco é tão importante assim, vou comprar outro igual. Falei que tudo bem, para ele vir buscá-lo.

No dia seguinte, o assessor vai até o Brooklyn atrás de Mace Windu. Quando entrego a caixa, a primeira coisa que ele pergunta é: “Cadê a assinatura?” Eu respondo com outra pergunta: “Mas que assinatura?” Daí o marmanjo, com mais de 30 anos nas costas, explica: “Eu pedi para o Samuel Jackson assinar o pacote. Eu sou fã de ‘Star wars’, tenho a coleção com todos os bonecos, e o Mace Windu é meu preferido. Um boneco assinado pelo Jackson vale uma boa grana, mas para mim não tem preço.”

Paralisei. Não me restava nenhuma alternativa senão contar a verdade. Ele, claro, não acreditou em uma palavra do que eu disse. “Como assim deu para uma menina no metrô?” Mas, como bom profissional de comunicação americano, ele fingiu que engoliu a história. Tenho certeza de que o sujeito passou os meses seguintes vasculhando o eBay atrás de um Mace Windu assinado por Jackson, vendido por um jornalista muambeiro do Brasil.

Não sei se uma coisa tem a ver com a outra, mas nunca mais fui convidado para um “press junket” nos Estados Unidos. Graças a Mace Windu.

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10/05/2007 - 22:26

Novidades em Hollywood

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Há algo de novo no reino de Hollywood. Durante décadas, a coisa funcionou mais ou menos assim (com exceções, é claro): os estúdios decidiam fazer um filme e contratavam um cineasta para dirigi-lo. Mas existem claros sinais de que o sentido da parceria começa a se inverter: agora são os diretores que bolam os projetos e os colocam em leilão entre grandes produtores.

No espaço de uma semana, três grandes projetos dentro desse novo modelo foram anunciados em Hollywood. Primeiro, Peter Jackson (“O senhor dos anéis”) ofereceu a vários estúdios uma adaptação do best seller “Uma vida interrompida”, de Alice Sebold. A Dreamworks de Steven Spielberg levou por US$ 70 milhões.

Depois, o diretor Michael Mann (“Miami vice”) e o ator Leonardo DiCaprio (“Os infiltrados”) colocaram em leilão um projeto de um filme “noir” sobre um assassinato na Hollywood dos anos 30. A New Line já teria oferecido US$ 100 milhões.

Agora é a vez de cinco cineastas mexicanos – incluindo os “três amigos” Alejandro Gonzalez Iñárritu (“Babel”), Alfonso Cuarón (“Filhos da esperança”) e Guillermo del Toro (“O labirinto do fauno”) – venderem conjuntamente um pacote para a produção de cinco filmes falados em espanhol por US$ 100 milhões. A Universal já está em negociações adiantadas para fechar contrato.

Ainda é cedo para dizer se a idéia vai pegar. Se isso acontecer, ela pode levar no futuro a um cinema hollywoodiano muito mais independente e, provavelmente, mais interessante.

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10/05/2007 - 08:51

Do que elas (e eles) gostam

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O canal Sky Movies Sci-fi & Horror realizou uma pesquisa em Londres para descobrir as diferenças entre os gostos cinematográficos de homens e mulheres. A pergunta básica era: qual filme você gosta de ver várias vezes? Deu “Dirty dancing” na cabeça para elas, a trilogia inicial de “Star wars” para eles.

Há filmes repetidos nas duas listas de mais vistos – além de “Star wars”, “O senhor dos anéis”, “O exterminador do futuro”, “Tubarão”. De resto, a pesquisa confirma os clichês que já conhecíamos: mulheres tendem a gostar mais de comédias românticas e musicais; homens preferem filmes de ação e ficção científica. Confira abaixo os Top 10 dos dois sexos:

Top 10 das Mulheres

1. “Dirty dancing”
2. Trilogia “Star Wars”
3. “Grease”
4. “A noviça rebelde”
5. “Uma linda mulher”
6. Trilogia “O senhor dos anéis”
7. “A felicidade não se compra”
8. “O exterminador do futuro”
9. “Matrix”
10. “Tubarão”

Top 10 dos Homens

1. Trilogia “Star wars”
2. “Aliens”
3. “O exterminador do futuro”
4. “Blade Runner”
5. “O poderoso chefão”
6. “Alien”
7. “Tubarão”
8. “Duro de matar”
9. “O exterminador do futuro 2”
10. Trilogia “O senhor dos anéis”

Agora resta uma dúvida. Qual lista é a pior: aquela com “Uma linda mulher” ou a que tem “Duro de matar”? Com a palavra, os leitores.

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09/05/2007 - 00:00

Cinema da sordidez

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O brasileiro é, antes de tudo, um sórdido. Ou pelo menos é isso que pretende provar uma certa tendência do cinema nacional, formada por produções como “Baixio das bestas”, “Ódiquê” e “O cheiro do ralo”. Em termos estéticos, há pouco, talvez nada, em comum entre os três filmes. No conteúdo, porém, eles compartilham o fato de serem protagonizados por seres abjetos envolvidos em situações escabrosas.

Em “Baixio das Bestas”, filme do pernambucano Cláudio Assis que estréia nesta sexta-feira, os filhos da burguesia (Caio Blat, Matheus Nacthergaele) divertem-se espancando e estuprando prostitutas (Dira Paes, Hermila Guedes) de uma cidade da Zona da Mata de Pernambuco, enquanto um velho ganha dinheiro explorando a nudez de sua neta adolescente (Mariah Teixeira).

Em “Ódiquê?”, do carioca Felipe Joffily, que estreou na semana passada, um garoto de classe média (Cauã Reymond) cospe em um flanelinha com problemas mentais e o ameaça de morte com uma arma. Em “O cheiro do ralo”, do pernambucano Heitor Dhalia, um colecionador de objetos usados (Selton Mello) masturba-se para uma cliente (Silvia Lourenço) que aceitou se despir em troca de dinheiro para comprar drogas.

Esses são os exemplos mais recentes de um cinema da sordidez. Mas estão longe de ser fatos isolados. Na chamada fase de “retomada”, houve também os filmes de Sérgio Bianchi (“Cronicamente inviável” e “Quanto vale ou é por quilo?”), talvez o grande mentor dessa tendência; “Cama de gato”, de Alexandre Stockler, que parece ter servido de molde para “Ódiquê?”; e “Amarelo Manga”, o anterior de Cláudio Assis.

Há também os casos em que a escrotidão se manifesta em personagens isolados – como os parentes pernambucanos do protagonista de “Árido movie”, de Lírio Ferreira, ou os torturadores de “Batismo de sangue”, de Helvécio Ratton, que de resto tem pouco a ver com essa tendência.

Cada cineasta ostenta um tipo diferente de sordidez. Há a porra-louca de Assis (muito bem enquadrada e iluminada por Walter Carvalho) e a mauricinha de Dhalia, a didática de Ratton e a anárquica de Bianchi. E também cada um tem um domínio distinto da linguagem cinematográfica, com Assis no nível mais alto, e Stockler e Joffily no mais baixo. Mas o sentimento que move todos esses filmes é no limite muito parecido.

O que nos leva à seguinte pergunta: de onde vem a inspiração para tanta canalhice? A resposta mais óbvia – e também a mais freqüente no discurso dos diretores em questão – é que um cinema sórdido espelha um Brasil igualmente sórdido. Argumento contundente, mas incompleto. Porque, afinal de contas, um país (e uma cinematografia) não se resumem (e nem podem se resumir) às páginas policiais.

Pode-se argumentar também que essas novas produções apenas seguem uma tradição brasileira que vem do cinema marginal dos anos 60 e 70. É fato: os antigos filmes com esse rótulo eram protagonizados por toda sorte de escroques e boçais. Por outro lado, eles tinham um saudável espírito de deboche – muito distante de seus pares mais recentes, que costumam se levar a sério demais.

Aposto em uma terceira tese: o cinema da sordidez surge como um contraponto crítico a um cinema “oficial” da retomada. Se Guel Arraes e sua turma tentam nos convencer de que os nordestinos pobres são brasileiros cordiais, Cláudio Assis se sente na obrigação de lembrar que eles também podem ser uns bons filhos da puta. Se as comédias da Globo Filmes alimentam o mito do malandro carioca, “Ódiquê?” tenta mostrar o que há de nocivo nessa esperteza. Se os documentários parecem cada vez mais com pauta de assembléia de ONG, Sérgio Bianchi vai lá cutucar a ferida das boas intenções.

Os personagens e ambientes abjetos viraram uma espécie de atestado de independência artística e idoneidade intelectual – como se os cineastas precisassem vestir uma camiseta do Che Guevara para provar que não são conformistas (sim, a atitude é quase tão juvenil quanto).

Mas, no final das contas, os produtos do cinema da sordidez acabam revelando limitações muito parecidas com os do cinema oficial. Nos dois lados, parte-se em geral de uma visão de mundo já pronta, só que de sinais opostos: um celebra o que há de positivo nessa coisa vaga chamada “brasilidade”; o outro condena os aspectos negativos; nenhum deles se mostra verdadeiramente interessado em revelar ou compreender seus personagens. Por fim, há um outro problema recorrente nessa tendência. Os diretores podem até dizer que pretendem denunciar a sordidez com seus filmes, mas muitos deles obtêm o efeito contrário: ao transformar escrotidão em espetáculo, eles tornam esse universo atraente.

P.S.: para não parecer que este texto é um ataque ao cinema brasileiro, o que está longe de ser sua intenção, gostaria de concluir citando os filmes nacionais recentes que escapam desses extremos: “O céu de Suely”, “Serras da desordem”, “Crime delicado”, “Cidade baixa”, “Cinema, aspirinas e urubus”, “O ano em que meus pais saíram de férias”, “Cão sem dono”, “Os 12 trabalhos”, “Proibido proibir” e “Antônia”, entre tantos outros.

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08/05/2007 - 12:14

A rainha e “A rainha”

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A rainha Elizabeth II faz neste momento sua quarta visita oficial aos Estados Unidos, além de inúmeras viagens privadas. Nas três primeiras, ninguém deu muita bola à monarca britânica. Desta vez, porém, ela vem sendo saudada como uma estrela. Vinte mil moradores da Virginia se inscreveram em uma espécie de loteria para ganhar um lugar no pequeno percurso que ela percorrerá em Jamestown; as vendas dos casacos Barbour que ela costuma vestir aumentaram consideravalmente; a badalada fotógrafa Annie Leibovitz foi contratada para fazer os retratos oficiais.

Segundo o jornal “The guardian”, a razão de tanto alvoroço é obvia. “(…) ela está se beneficiando do efeito ‘A rainha’ : graças ao simpático retrato feito por Helen Mirren no filme de Stephen Frears que valeu à atriz um Oscar, a América agora acredita que a rainha é uma monarca graciosa, complexa e digna, mas também muito humana, com uma admirável devoção à família e às obrigações, em vez de uma velhinha que gosta de cavalos e nunca tem nada a dizer.”

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07/05/2007 - 08:44

A lógica da Globo

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Peço licença para mais um post sobre as Organizações Globo (como diria Jerry Seinfeld, não que eu tenha nada contra…). Mas não posso deixar de comentar as reportagens do “Fantástico” de ontem sobre a censura, porque acho que elas deixaram muito claro sobre como funciona a lógica de convencimento da rede.

Primeiro foi exibida uma reportagem sobre a biografia de Roberto Carlos francamente contrária à interdição do livro. O programa entrevistou o escritor Paulo Coelho (o novo ator da emissora), que alertou para o risco de volta da censura que o caso trazia. Eu pensei: bacana, a Globo se posionando contra um aliado histórico (Roberto Carlos) para defender a liberdade de expressão.

Daí veio uma matéria com cenas inéditas de uma reunião da censura em 1983 para discutir cortes no filme “Rio Babilônia”, de Neville d’Almeida. Comecei a achar esquisito: não havia nenhum “gancho” para desenterrar o caso, as imagens antigas não tinham força, e tudo terminava com a constrangedora cena de Neville d’Almeida enrolado em um pedaço de película gritando “É proibido proibir”. Essa coisa Oiticica 68 definitivamente não combina com Cid Moreira 07.

Então fez-se a luz. O bloco de reportagens terminou com o apresentador anunciando alegremente que a partir de agora serão as próprias emissoras de TV que farão a classificação indicativa dos programas que exibem – e não mais o Ministério da Justiça. O texto subliminar era que a censura havia perdido nesse caso, ao contrário dos outros dois anteriores.

Aí está a lógica da Globo: ela pega dois casos reais de censura (convocando artistas e advogados para se manifestar contra ela) e os coloca lado a lado com um terceiro que é muito diferente, mas está de acordo com os interesses da emissora. No processo, faz o público confundir classificação indicativa do Ministério da Justiça com censura e liberalismo empresarial com liberdade de expressão.

O único furo nessa lógica foi o Neville d’Almeida. Não duvido nada que o espectador exija a volta da censura depois de ver a performance do sujeito. Não existe horário apropriado para esse tipo de atração.

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06/05/2007 - 00:02

A nova crítica brasileira

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O Segundo Caderno do jornal “O Globo” vem se especializando em um novo tipo de crítica de cinema: aquela feita pelo próprio diretor do filme. Depois de Marcelo Santiago resenhar seu “Sonhos e desejos” alguns meses atrás, agora é a vez de Helvécio Ratton analisar “Batismo de sangue”.

No início, o texto parece ser uma defesa contra as críticas que o filme recebeu, o que não deixa de ser justo. Ao final, porém, descamba para o auto-elogio: “Um filme que corre riscos ao retratar personagens vivos e fatos acontecidos há pouco tempo. Um filme que após sair das salas de cinema continuará a ser discutido em outras salas por esse Brasil afora. Construído com contundência e delicadeza, ‘Batismo de sangue’ emociona e faz pensar.”

Aqui vai uma sugestão para a produção de “Batismo de sangue”: por que não destacar essa bela frase no pôster do filme?

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04/05/2007 - 22:00

Brando e Clift

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Nesta semana, os sortudos espectadores do canal norte-americano Turner Classic Movies (TCM) tiveram a oportunidade de assistir ao documentário inédito “Brando”. Para Virginia Heffernan, crítica de TV do “New York Times”, o grande momento do programa é um raro filme caseiro feito por Marlon Brando e Montgomery Clift, dois dos maiores atores da história de Hollywood.

A pedido de Heffernan, o TCM colocou a cena em seu site. Nele, os dois atores, mais o colega Kevin McCarthy (que apresenta a cena), brincam de comédia muda, usam chapéus engraçados e vestem-se de mulheres.

O filme caseiro mostra uma intimidade entre os dois atores que poucos conheciam. Em geral, a relação de Brando e Clift é vista como uma civilizada competição pelo posto de maior intérprete de sua geração. A disputa durou até o acidente de automóvel que desfigurou parte do rosto de Clift e abalou sua carreira.

Há uma bela história a esse respeito. Depois do acidente, Clift entrou em depressão e isolou-se do mundo. Certo dia, Brando apareceu de surpresa na casa do colega e lhe disse mais ou menos o seguinte: “Eu só cheguei aonde estou hoje porque eu tinha que competir com você. Se eu sou bom, é porque você sempre foi melhor. Eu preciso saber que você está por aí, ganhando de mim no meu jogo. Então eu quero que você pare com essa besteira de beber e tomar pílulas. Você tem que voltar a trabalhar de novo. Porque eu não sei o que fazer se você não estiver fazendo o mesmo.”

Clift aceitou o conselho de Brando. Ele não foi o mesmo de antes, mas fez ao menos um grande filme: “Os desajustados” (1960). Os dois nunca mais falaram sobre aquele dia.

Brando é o ator preferido deste blogueiro.

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04/05/2007 - 00:01

Homem-Aranha entre o céu e o inferno

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Como já foi dito pela crítica, “Homem-Aranha 3”, que estréia hoje no Brasil, tem uma mistura equilibrada de ação e emoção, efeitos especiais espetaculares, um diretor competente (Sam Raimi), protagonistas carismáticos (Tobey Maguire e Kirsten Dunst) etc. Mas o mesmo poderia ser escrito sobre outros filmes de super-heróis recentes, como a trilogia “X-Men”, “Superman returns” ou “Batman begins”.

Qual é, então, o barato específico de “Homem-Aranha”, aquilo que torna o personagem único entre os heróis do gênero? Na essência, os três filmes da série – seguindo o espírito dos quadrinhos criados por Stan Lee e Steve Ditko em 1962 – são contos morais sobre o rito de passagem da adolescência para a vida adulta. A frase que resume essa idéia é dita a Peter Parker por seu tio: “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.

No primeiro filme, de 2002, o nerd Peter (Maguire) descobre seus superpoderes após ser picado por uma aranha radioativa (o que talvez seja o equivalente, na lógica dos super-heróis, à descoberta do sexo). Depois, ao fazer mau uso de suas novas especialidades, ele acaba causando uma tragédia familiar. É a fase da revelação e da culpa. No filme seguinte, de 2004, Peter desiste de ser o Homem-Aranha ao ver que sua vida pessoal continua um desastre, mas percebe que não pode voltar atrás. Fase da dúvida e da negação.

Em “Homem-Aranha 3”, ele sente-se finalmente confortável na pele do super-herói. Como Peter, ele conquistou sua antiga paixão Mary Jane (Dunst). Como Homem-Aranha, ganhou a admiração dos nova-iorquinos com sua cruzada contra o crime. Como um adolescente que tirou o aparelho nos dentes, engrossou a voz e começou a chamar a atenção das garotas, ele logo se torna vaidoso e egocêntrico.

A situação só piora quando uma estranha substância vindo do céu adere à roupa do Homem-Aranha, deixando-a escura, e desperta o lado negro do herói, tornando-o mais poderoso, mas também mais agressivo. Mais tarde, ela irá colar-se a um inimigo de Peter, o fotógrafo Eddie Brock (Topher Grace), e transformá-lo no vilão Venom (se os poderes do Homem-Aranha equivalem ao sexo, a substância venenosa representaria as drogas?). Essa é a fase da afirmação e da rebeldia.

É um prazer (para o espectador, mas aparentemente também para o ator e o cinesta) ver um Peter sacana e perverso, liberto da culpa e entregue ao pecado. Se o primeiro filme ditou o espírito do personagem e o segundo foi o ápice da série, o terceiro traz os melhores momentos cômicos – e comprova o insuspeito talento de Maguire e Raimi para a comédia.

Mas, como se trata de um filme moral, a farra não dura muito. Tornar-se adulto, Peter logo compreende, significa fazer escolhas. Ele tem de optar entre vestir sua velha roupa azul e vermelha (e ser o herói compassivo de sempre) ou usar seu novo traje preto (que o torna um poderoso vingador); entre ser um homem de uma só mulher (Mary Jane) ou um sedutor incorrigível; entre enfrentar seu amigo Harry Osborn (que se transforma no vilão Duende Verde) ou tentar trazê-lo para seu lado; entre destruir o Homem-Areia (Thomas Haden Church) ou perdoá-lo por ter assassinado seu tio.

“Homem-Aranha 3” está longe de ser um filme perfeito. Ao final, o tom carola se sobrepõe à verve cômica. E há, como já foi notado, um excesso de vilões (Venom, Duende Verde, Homem-Areia) e de subtramas, quando a história do lado negro do Homem-Aranha já bastaria – o que pode ser explicado (mas não justificado) pela necessidade de movimentar a indústria de brinquedos. Isso nos lembra que este é um filme de fórmula e de merchandising. Mas, por outro lado, é também uma prova de que pode existir vida inteligente nos blockbusters de Hollywood.

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