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06/06/2007 - 00:01

Triunfo da imaginação

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O trabalho de Luiz Fernando Carvalho parece seguir um método peculiar: o diretor faz um mergulho tão profundo no universo de uma obra literária que esta passa a ser o tema não apenas de seus dias, como também de seus sonhos; e, então, ele tenta materializar esses sonhos sobre a obra e registrá-los em película.

Assim foi com o filme “Lavoura arcaica” e a série “Hoje é dia de Maria”. Este é também o caso de “A pedra do reino”, microssérie em cinco capítulos que ele dirigiu para exibição na Globo a partir do dia 12 – e que mostrou na íntegra a NoMínimo. O programa baseia-se na labiríntica obra do escritor paraibano Ariano Suassuna sobre um herói sertanejo que pretende se tornar o Grande Gênio da Raça escrevendo um livro imortal sobre a história de seus familiares e antepassados.

Para dar forma a suas visões de “A pedra do reino”, Carvalho comandou a construção de uma cidade cenográfica de 2 mil metros quadrados em Taperoá (PB), a montagem de ateliês de criação com artistas locais e arregimentou um grupo 50 atores nordestinos para encenar a obra – liderados pelo brilhante Irandhir Santos como o protagonista Quaderna.

Como o resultado concreto de um sonho sobre uma obra, fica difícil explicar o que é “A pedra do reino”, porque a microssérie se parece muito pouco com outras atrações audiovisuais recentes (incluindo aí “Lavoura arcaica” e “Hoje é dia de Maria”). Por outro lado, é muito fácil dizer o que não é “A pedra do reino”: ela não é uma visão folclórica do Nordeste como as perpretadas recentemente pela TV e pelo cinema brasileiros; não adere ao naturalismo rasteiro das telenovelas e dos filmes que assimilam esse estilo; não tem uma narrativa linear e uma estética industrial.

“A pedra do reino” segue mesmo a lógica dos sonhos, com delírios visuais de intenso brilho e elipses de tempo, com desorientações espaciais e suspensões de sentido – o que leva a um resultado arrebatador e imperfeito, mas nunca banal ou pasteurizado.

Carvalho diz que a palavra que define melhor o processo de elaboração da microssérie é “encontros”. Há primeiro o encontro com a obra de Suassuna, depois com os roteiristas, artesãos e atores. Há também o encontro da linguagem da TV com a do teatro, do circo e da literatura. Mas todos eles passem pelo filtro da subjetividade de Carvalho – o que a torna um produto artístico dentro de um meio industrial.

Como a obra que a originou, a microssérie é um triunfo da imaginação, da qual Quaderna é um adepto incondicional. Contra ele, se levanta a figura do Juiz Corregedor (Cacá Carvalho), um arauto da razão. No fundo, este é um embate entre o fantástico e o realista – vencido com folga pelo primeiro.

O maior elogio que se pode fazer a Carvalho é que sua obra faz jus tanto ao delírio de Suassuna quanto à de Quaderna – em um processo de simbiose entre cineasta, escritor e personagem (como, aliás, já havia ocorrido em “Lavoura arcaica” com Carvalho, Raduan Nassar e o André de Selton Mello).

Embora não seja a intenção, “A pedra do reino” funciona como uma denúncia da falta de imaginação do restante da programação de TV. Ao mesmo tempo, como lembra Carvalho, a microssérie não pode ser definida como “cinematógráfica” – um senso comum muito utilizado para demonstrar preconceito contra a televisão.

“A pedra do reino” é uma obra que faz mais sentido na TV, com capítulos de estilos distintos, quase unidades autônomas. O primeiro é um cartão de visitas para o resto da série, em que se apresentam os personagens e conflitos centrais, mas no deslumbrante e desorientador ritmo dos delírios de Quaderna. Ele quer se tornar um gênio literário recontando a história de sua família, em particular o episódio do assassinato do padrinho, e de seus antepassados, como um bisavô que pertencia à linhagem imperial e promovia sangrentos rituais na Pedra do Reino.

Em uma certa medida, é o capítulo esteticamente mais próximo de “Hoje é dia de Maria”, pois boa parte de sua ação é encenada na praça central da cidade cenográfica, evidenciando a influência do teatro e do circo na obra.

No segundo capítulo, romance de formação de enunciado mais clássico, mostra-se o aprendizado intelectual de Quaderna, dividido entre o nacional-socialista Clemente (Jackyson Costa) e o reacionário fidalgo Samuel (Frank Menezes). O terceiro e o quarto concentram-se no embate entre Quaderna e o Juiz Corregedor, quase um filme de tribunal. O último retoma o estilo delirante do primeiro, com um final de selvagem beleza. E, acredite, muita coisa ficou de fora desta sinopse.

“A pedra do reino” dá início ao projeto Quadrante, em que carvalho irá transcriar para a TV obras literárias realizadas por escritores de diferentes regiões do país. As próximas serão “Dom Casmurro”, de Machado de Assis (RJ); “Dançar tango em Porto Alegre”, de Sérgio Faraco (RS), e “Dois irmãos”, de Milton Hatoum (AM).

Para concluir, este blogueiro gostaria de dizer que, apesar de o trabalho televisivo de Carvalho ser uma prova de que não é o meio que determina a nobreza de uma obra, espera ansiosamente o próximo longa-metragem do cineasta.

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91 comentários para “Triunfo da imaginação”

  1. Habibb disse:

    Até quando é “original” a Globo é repetitiva…

  2. Edson disse:

    Porra, Calil, vá assistir “Roma”, vá assistir “Sopranos”, vá assistir “Huff” e veja o que é realmente inteligência e originalidade na TV. Esse papo de “linguagem de sonhos” é desculpa para a incapacidade pura e e simples que este diretor tem de contar uma história como se deve.

    Essa coisa de fazer microssérie com estética teatral é um porre, é só para agradar críticos e gente que condena “o atual estado de coisas na TV”. E digo sem medo de errar: Carvalho é um embusteiro e sua obra não passará para a posteridade. “Lavoura arcaica” não é um filme memorável, e “Hoje é dia de Maria” é um teatrinho Trol gravado com um pouco mais de recurso.

    A TV brasileira só vai sair da mesmice, só vai se tornar universal de fato, quando enganadores como Carvalho pararem de ser elogiados por críticos baba-ovo de qualquer coisa que venha com o carimbo do Ariano Suassuna. Eu é que não caio mais nessa. Tomara que essa merda dê traço no ibope! Empulhação tem limite.

  3. Papa_Defunto disse:

    Vamos ver se presta, porque de baba-ovo eu to cheio.

  4. pc disse:

    Essas séries sempre caem na mesmice…são as mesmas falas, os mesmos trejeitos, é só prestar atenção na maneira como os personagens andam, parecem marionetes…falta ousadia como em Roma…deveriam ter dado uma conotação mais dramatica.

  5. Hay Gobierno? disse:

    Ave Edson! Finalmente alguém rompe a conspiração da mediocridade e denuncia que o rei da tv está nu, escondido atrás de luzes pretensiosamente amarelas!

  6. Luiz Fernando Gallego disse:

    Lamentei profundamente, na época do lançamento de “Lavoura Arcaica”, não ter conseguido endossar a admiração que o filme provocou. Sua pretensão “literária” de reproduzir trechos inteiros do romance era paradoxal:havia períodos inteiros ininteligíveis como aqueles ditos pelo Selton Mello na cena de abertura da crise epiléptica e/ou masturbaçao. Um paradoxo reproduzir a literatura para ser pouco entendida! Longas três horas em que, em outro extremo incluiam o Raul Cortez falando sílaba por sílaba, explicadinho demais, algo bizarro. O autor do livro abençoou, o filme virou quase uma unanimidade, mas me soou um enorme equívoco que não conseguiu ser nem bom cinema autônomo nem traduzir em filme um dos maiores romances brasileiros. Infelizmente, acho que Luiz Fernando Cravalho funciona bem mesmo é em linguagem televisiva.

  7. O Rápido do Fusuê disse:

    Há público para tudo. Quem gosta de Rambo, Exterminador do Futuro, Duro de Matar, Homem Aranha etc. etc. etc. não poderá mesmo gostar de Ariano Suassuna. É tudo uma questão de reflexo condicionado.

  8. Francisco Campos disse:

    Os anti-globais levantam a voz e condenam a obra antes de ser mostrada. Um aí diz que a televisão americana é que produz obras de qualidade. O outro diz que “Lavoura arcaica” é um equívoco. É uma pena que muitos dos que aqui opinam estejam, por assim dizer, domesticados pelo que vem de fora. “A pedra do reino” não pode ser comparado com o que é produzido nos States, porque se trata de uma outra realidade, uma outra visão de mundo. Mentes entorpecidas se habituam a condenar antes de ver. Um nome para isso: PRECONCEITO!

  9. Osmir José disse:

    Calil Prepara o teu ‘lombo’ que os reaças já começaram a aparecer! Você esqueceu que, pra muita gente, principalmente para os frustrados da paulicéia desvairada, qualquer coisa que vier da Rede Globo de Televião, não presta! Antes de escrever tal comentário sôbre a série, deverias levar em conta isso, viu! rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrss

  10. Juliano disse:

    Puts! Eu estudei jornalismo, sempre tive muitas, mas muitas mesmo, críticas à Globo, continuo tendo (pra falar bem a verdade, estou sem televisão faz oito meses e não ando sentindo muita falta), sei bem o que ela representa na opinião do povo brasileiro, mas não posso deixar de observar que o que move esses comentaristas é um sentimento de ódio inexplicável! Não é possível! Os caras são movidos por destruição! Se acham suuupercabeças por criticar uma série de TV que nem assistiram! É inegável que a Globo já fez boas produções. Aliás, reconheça-se, é a única rede brasileira que dá bastante dinheiro para algumas produções. Modelo industrial? O mais do mesmo? Sim, quase sempre é assim, mas existem exceções e não reconhecer isso é, no mínimo, burrice, sem falar que faz a crítica cair em descrédito. Você pode não gostar do Carvalho, pode criticá-lo, pode criticar Lavoura Arcaica (filme que eu, por exemplo, achei sensacional, mas eu não sou crítico de cinema e nem tenho grande conhecimento da arte para emitir opiniões mais “embasadas”, se é que isso existe). Enfim, pode criticar a vontade, mas a perguntinha básica: pra que odiar a obra do cara sem se quer conhecê-la? Lavoura Arcaica não é filme pra quem tá acostumado a linguagem de vídeoclip de filme americano. Não é filme pra quem não consegue parar e mergulhar em alguma coisa. Não é filme pra quem não consegue ver a densidade de alguma coisa sem se deter exclusivamente no esteticismo. Não é filme para crítico metido a besta que só se emociona com superproduções. É um ótimo filme e quem conhece minimamente como foi produzido, no mínimo acredita que do diretor possa vir algo interessante. Quem não conhece, destila ódio, pensando que é muito cult. Para alguns, esse prazer é um dos poucos… Então, fiquem a vontade.

  11. Rodrigo disse:

    Eu não aguento é o povo criticando antes msm de assistir.
    Deve ser pq qdo vai ver Rambo 18, ele tem exatamente o q espera ter…

  12. megaton_nero disse:

    realmente, a sanha do Edson “Maguila” em depreciar a obra do diretor Carvalho assemelha-se mais a uma crise psicótica, um surto de “minuteman”, do que a um comentário sensato e pertinente, capaz de ser avaliado, ou mesmo digerido, e contra-argumentado.

    oníricas são as suas pseudo-pretensões. fantástico é o tamanho do próprio umbigo intelectual. delirante é seu estilo “não vi, não entendi e não gostei”.

    ademais, registrado o comportamento simiesco da repetição estúpida, que gera exponencialmente mais detratores felizes em chafurdar na obtusidade, fica patente a necessidade de acrescentar mais uma regra aqui, como as que o Calil enumerou, dois posts abaixo:

    11) É TERMINANTEMENTE PROIBIDO vomitar besteirol a torto e a direito sobre assunto previamente desconhecido, em coluna respeitável e sob o confortável auxílio das sombras identitárias do ciberespaço, sob pena de desmoralização e ostracismo internético.

  13. megaton_nero disse:

    a propósito, conheço de perto o trabalho do diretor Carvalho, e de sua equipe.
    é gente competente que faz o gosto de muitos mundo afora, muitos estes que entendem e realizam a sétima arte há mais tempo que certos comentaristas galos-de-briga tem de vida.

    “menos”, eu diria, “menos”.

  14. Nilson disse:

    Em meio a esse tiroteio pró- e contra-Carvalho, só tenho uma coisa a lamentar: mais uma vez, o cidadão comum deixará de ter acesso à uma minissérie baseada em uma obra literária (já que “ler cansa”, como diria um certo cefalópode de Brasília), porque, em nome da maldita audiência, esta ficará relegada a passar após às 23h00, porque as novelas e “diaristas” da vida é que “dão Ibope”. Aliás, é este mesmo “raciosímio” (obrigado, Titãs) que acha normal um “Big Droga” ser transmitido por volta das 21h30 e o relativamente educativo “O Aprendiz” ser jogado para às 23, 23h30, sendo igualmente proibitivo para aqueles que têm que acordar cedo no dia seguinte.

  15. herbert disse:

    bem , tudo é muito lindo, muito inteligente, mas o que quero realmente saber é se o grande público acostumado às outras produçoes desta emissora , produçoes estas que exigem pouco esforço mental vão conseguir assimilar esta dita’riqueza de detalhes este lirismo todo que irá ser apresentada, porque trocando em miudos , hoje é dia de Maria foi um porre quixotesco!!! vamus mesmo ter novidades ou um dia de maria 3? porque se for para ter sequencia na boa fico com x man 3 que é horrivel mas ao menso não vendeu a imagem de coisa séria !!

  16. herbert disse:

    bem , tudo é muito lindo, muito inteligente, mas o que quero realmente saber é se o grande público acostumado às outras produçoes desta emissora , produçoes estas que exigem pouco esforço mental vão conseguir assimilar esta dita’riqueza de detalhes este lirismo todo que irá ser apresentada, porque trocando em miudos , hoje é dia de Maria foi um porre quixotesco!!! vamus mesmo ter novidades ou um dia de maria 3? porque se for para ter sequencia na boa fico com x man 3 que é horrivel mas ao menso não vendeu a imagem de coisa séria !!

  17. Nanorj disse:

    Se não virar uma micro novela com mais de 2 meses de exibição, então tá … não aguento é mais novela, ainda mais minissério com estatus de novela, ninguem merece…

  18. Nina disse:

    Nasci na decada de 50, logo, não sou mais jovem. O filme Lavoura Arcaica tem uma beleza plastica de imagem, muito bonita. O que eu não entendi foi a rebeldia do jovem-reblede-sem-causa. Afinal, ele tinha uma super mãe, um pai rigido mas, presente! Lindas irmãs e maravilhosos irmãos. Todos apaixonados entre si. O filme é muito longo e quando aparecia as cenas do tal jovem (Selton Melo) eu ficava torçendo, para ele sumi logo da tela.
    Á todos que gostaram de Lavoura Arcaica, vocês podem me dizer alguma coisa que me faça gosta do filme?

  19. Juliano disse:

    Nossa, Nina, você realmente não entendeu nada do filme!!!! O livro trata da questão da repressão da família, mais precisamente, da força da instituição familiar sobre o indivíduo, o que ela pode causar, que tipo de problemas uma família autoritária pode ter, discute a formação clássica da família. É muito mais profundo que isso que estou te dizendo, mas vai por essa linha. É, para mim, fortíssimo. Mas se você entendeu o André apenas como um rebelde sem causa, realmente, para você o filme só pode ter beleza plástica, nada mais. Eu lamento.

  20. Quel disse:

    Até entendo aqueles telespectadores que se prendem a novelas mexicanas, BBBs, programas de auditório. Ninguém está imune ao hipnotismo que essas atrações provocam – confesso que muito já fiquei parada em frente à TV, catatônica, vendo alguns desses programas. O que eu não consigo tolerar é aquela gente que se considera muito crítica e de bom gosto, aqueles telespectadores que não gostam de ir ao teatro (“bando de desocupados”, devem pensar), não gostam de literatura brasileira (só na escola, por obrigação), que acham o supra-sumo da inovação quando uma série de TV americana revela, oh, dramas humanos e auto-críticas (da sociedade americana, claro) e que desconhecem e sequer se interessam pelo folclore e a riqueza cultural de seu próprio país (do Brasil, hein). Apesar do Big Brother, do Linha Direta, dos Pés na Jaca e de outros lixos, acho que a Globo está de parabéns e redimida de alguns pecados por investir nos projetos de um profissional tão poético, tão sensível ao seu País e às diversas possibilidades de linguagens. Um diretor que não nega o que é um produto para TV mas se permite usar essa mídia para um fim mais nobre – e ambicioso. Um cara que fez coisas como Hoje é Dia de Maria e Os Maias (que eu absolutamente venero) merece espaço na programação e carta branca para fazer o que quiser pelos próximos 100 anos.

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