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Arquivo de julho, 2007

31/07/2007 - 13:00

O Galvão Bueno da crítica?

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Meu Deus, que maneira de acordar dois dias seguidos… E ainda sendo acusado pelos comentaristas de causar indiretamente, com meu pé-frio, a morte de Michelangelo Antonioni – por tê-lo citado no texto abaixo sobre o Bergman. Serei eu o Galvão Bueno do cinema? Como posso brincar em uma hora dessas? Talvez porque ainda esteja em choque.

Estou com pouco tempo para fazer um post mais longo, mas devo dizer que a morte de Antonioni me afeta de maneira ainda mais pessoal e profunda que a de Bergman. Ele é um dos meus três cineastas preferidos – ao lado de François Truffaut e John Cassavetes.  “A aventura”, “A noite”, “Blow up”, “Profissão: Repórter” e ”Deserto vermelho” foram todos filmes importantíssimos em minha vida, que não apenas mudaram minha maneira de ver o cinema, como traduziram sentimentos que eu não saberia expressar sozinho.

Na dúvida, não citei nenhum cineasta vivo neste texto. Mas ainda estou com medo de acordar amanhã. 

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30/07/2007 - 11:59

Adeus a Bergman

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Acordo e leio no Uol, meio sonado, que Ingmar Bergman morreu. Ainda que ele tivesse 89 anos, estivesse recluso há tempos e filmasse muito pouco, a notícia me pega de surpresa e me desperta de sopetão. De tanto repetirmos que certos artistas são imortais, acabamos por acreditar. Seria o mesmo se me contassem que Antonioni morreu. E seria uma perda da mesma ordem para o cinema.

A primeira frase que me veio à cabeça, quando consegui juntar dois pensamentos, foi: “Bergman nunca foi capaz de cometer uma banalidade”. Fez um ou outro filme mais leve, mas no geral foi um cineasta sério, seriíssimo, metido a desvender a Alma Humana e falar de Grandes Temas como a Solidão e o Desejo, a Morte e a Ausência de Deus. Mas foi também um dos poucos a se meter nesses assuntos e não passar ridículo. Nunca soava pomposo ou professoral, talvez porque tirava de sua vida boa parte do que expunha na tela. Aí vale o clichê: seus filmes serviam como uma dolorosa e necessária terapia. Não apenas para ele, mas também para os espectadores – que se identificavam com as angústias e os questionamentos dos personagens criados pelo cineasta. Não posso falar por todos. Para mim, funcionava dessa forma.

Difícil destacar um filme em uma obra que cobre seis décadas. Então vamos aos meus cinco preferidos: “Gritos e sussurros”, “Persona”, “Fanny e Alexander”, “Noites de circo”, “Morangos silvestres”. Até o recente “Sarabanda”, que virou seu testamento cinematográfico, era digníssimo (saiu por aqui em DVD no ano passado).

Pensando melhor, menti quando disse que ele era incapaz de uma banalidade. A metáfora do jogo de xadrez entre um cavaleiro e a Morte em “O sétimo selo” foi das coisas mais óbvias produzidas no cinema. Taí um filme superestimado (eu sei que vocês vão me odiar por dizer isso). Seria melhor dizer que Bergman era incapaz de uma vulgaridade. De quantos cineastas – ou mesmo pessoas – podemos dizer o mesmo hoje? Fará uma falta brutal.

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27/07/2007 - 14:52

Lançamento em abismo

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“Dizem que existem várias estratégias para o lançamento de um filme nos cinemas: lançamento em plataforma, lançamento por capital, grande lançamento, pequeno lançamento… Atualmente, a maior parte dos filmes brasileiros tem à sua disposição apenas uma estratégia: o lançamento em abismo. O cineasta se atira no abismo gritando o nome de seu filme: se alguém escutar e se interessar, pode ser que vá assistir.”

Assim começa o ótimo artigo do cineasta Gustavo Acioli para a revista “Zé Pereira” sobre os problemas de lançamento dos filmes brasileiros. Acioli escreve com rara honestindade e também com conhecimento de causa: “Incuráveis” (2006), seu primeiro longa-metragem, teve menos de 2 mil espectadores, apesar das boas críticas.

O artigo de Acioli é apenas um dos destaques do excelente número 1 da revista “Zé Pereira” – editada por Eduardo Souza Lima (mais conhecido como Zé José), um dos diretores do documentário “Rio de Jano”, sobre o cartunista francês que fez o desenho da primeira capa da publicação. Mais informações no Blog do Zé Pereira.  

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24/07/2007 - 11:21

Das virtudes do classicismo

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Vi com certo atraso “O despertar de uma paixão”, baseado em  Somerset Maugham. É um filme quase arcaico, daqueles em que sabemos exatamente aonde o diretor está nos levando. Mas também é um exemplo das virtudes do bom classicismo, pois não nos faz sentir manipulados no percurso.

A fórmula é simples: atores em chave contida (Edward Norton, Naomi Watts), direção discreta (de John Curran), dramaturgia sólida (um caso de amor invertido: uma mulher que se casa por interesse e, com o tempo, se descobre apaixonada pelo marido), um pano de fundo histórico (o casal inglês vai para a China dos anos 20, assolada por uma epidemia de cólera e abalada por protestos contra a presença estrangeira).

Mas é também uma fórmula que vem sendo maltratada nos últimos anos – como se a maioria dos cineastas tivesse desaprendido a fazer filmes clássicos antes de chegar a dominar o cinema moderno.

“O despertar de uma paixão” me lembrou David Lean – especialmente o de “Passagem para a Índia”. O único senão é a interminável quantidade de pans verticais em que a câmera apontava das montanhas para o lago ou do lago para as montanhas. Típico caso de fotógrafo enamorado por sua paisagem. Deveria ter sido domesticado pelo diretor. De resto, porém, o filme dificilmente irá ofender os espectadores. Pelo contrário.

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23/07/2007 - 11:39

Um país bipolar

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Nunca na história desse país uma certa bipolaridade brasileira ficou tão clara quanto no noticiário de TV da última semana. No bloco dedicado ao Pan, somos uma nação com um futuro brilhante, uma nova potência esportiva, um gigante finalmente desperto. Portanto, somos também incapazes de aceitar qualquer medalha que não seja ouro, de vaiar moleques de menos de 17 anos que perdem no futebol para garotos cinco anos mais velhos, de entender a revolta do judoca que levou “apenas” prata.

No bloco seguinte, dedicado à tragédia de Congonhas, voltamos a ser um país de merda, com um governo incompetente e corrupto, companhias aéreas e pilotos despreparados e uma população de bundões, incapaz de se revoltar com tamanhas barbaridades. Claro, existe aí o evidente desejo das emissoras de TV de usar a tragédia para atacar politicamente o governo, de repetir cenas mórbidas para aumentar índices de audiência. Mas há também, como pano de fundo, uma certa fracassomania, a velha síndrome de vira-latas de que falava Nelson Rodrigues.

E, no bloco seguinte, voltamos à euforia do Pan. E continuamos a ser um país onde não se aceita o bronze e o acaso. Um país sem razão.

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20/07/2007 - 16:30

A pergunta de Furtado

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“Saneamento básico – O filme”, novo trabalho de Jorge Furtado que estréia hoje, propõe uma questão fundamental para o Brasil: em um país com problemas tão essenciais, vale a pena investir em cultura?

Como se trata de um filme de Furtado – que vem com a garantia mínima de um roteiro inteligente -, a questão não é colocada de forma direta na boca de um personagem, mas surge como principal subtexto da trama.  

Nela, um grupo de moradores de uma vila da Serra Gaúcha pede aos órgãos públicos dinheiro para a construção de uma fossa sanitária. A prefeitura informa que já gastou toda sua verba de saneamento básico para o ano, mas ainda tem R$ 10 mil em caixa para a realização de um vídeo de ficção. Os moradores decidem, então, fazer um filme sobre a construção da fossa. Como nenhum deles entende nada de cinema, o resultado é precário, um bizarro filme de monstro com mensagem ambiental. Mas, no final, todos estão apaixonados pelo cinema.

Como toda obra de Furtado, o filme tem a virtude de conseguir simultaneamente entreter o público – fazendo boas piadas com os problemas históricos do cinema nacional – e  propor questões pertinentes sobre o Brasil – no caso, sobre as prioridades de investimento do governo.

A resposta de Furtado à pergunta do início deste texto é “sim” - vale a pena investir em cultura, não se pode deixá-la de lado porque o país tem outros problemas mais urgentes; por outro lado, o cinema não pode ser feito apenas por amadores e burocratas, como no filme. Eu fecho com Furtado. E você, caro leitor?

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11/07/2007 - 15:47

Resnais em grande forma

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Mais uma vez, peço perdão pela ausência de um par de dias.  Days of being wild. Volto a aparecer por aqui para recomendar muitíssimo “Medos privados em lugares públicos”, o novo filme do mestre francês Alain Resnais, que estreou no Rio na semana passada e chega a São Paulo nesta sexta. Abaixo, reproduzo minha crítica do filme para a revista “Bravo!”:

Para quem associa o nome de Alain Resnais aos inovadores e intrincados experimentos narrativos de “Hiroshima, meu amor” (1959) e “O ano passado em Marienbad” (1961), o novo filme do mestre francês será uma surpresa. À primeira vista, “Medos privados em lugares públicos” (2006) é um trabalho acessível e até mesmo despretensioso, na linha dos mais recentes “Smoking/ No smoking” (1993) e “Amores Parisienses” (1997). Se levarmos em conta apenas a sinopse, estamos no confortável território da comédia romântica. Mas o filme é muito mais que isso.

“Medos privados” acompanha seis personagens à procura de um amor no inverno de Paris, com histórias afetivas que se entrelaçam como no poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade. Charlotte cuida do pai doente do barman Lionel, que tem como cliente mais assíduo o ex-militar Dan, que vive uma crise em seu relacionamento com a namorada Nicole, que procura um apartamento com o agente imobiliário Thierry, que tem como irmã a solitária Gaëlle e sente-se atraído por sua colega Charlotte. E, assim, está fechada a ciranda amorosa do filme. Nos papéis principais, estão os atores preferidos de Resnais em sua fase mais recente: a sempre encantadora Sabine Azéma, Pierre Arditi, Lambert Wilson, Laura Morante, André Dussollier e Isabelle Carré.

Como se trata de uma obra de Resnais, o cineasta substitui o otimismo primaveril da comédia romântica por um fatalismo invernal, em que as relações estão fadadas ao desencontro. Até mesmo o humor do filme está impregnado de uma certa melancolia, representada pela neve que cai constantemente sobre Paris e que aparece como uma espécie de vinheta em todas as transições de cena. Além disso, o filme tem uma sofisticação visual e uma qualidade geral de interpretação que o distanciam das comédias descartáveis recentes.

Ao final, descobre-se que a simplicidade de “Medos privados em lugares públicos” é ilusória e que o filme não está assim tão distante de “Hiroshima” ou “Marienbad”. Como naqueles clássicos, os personagens são assombrados por relações do passado e se revelam incapazes de se conectar por completo. Resnais apenas retoma seus temas preferenciais (o tempo, a memória, as relações amorosas) com ousadias formais mais discretas (que podem ser observadas, por exemplo, na linda cena em que parece nevar dentro do apartamento de Lionel). Como os personagens de “Medos privados”, os filmes de Resnais também formam uma ciranda. Aos 85 anos, o cineasta continua não apenas lúcido e coerente. Ele ainda é moderno.

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09/07/2007 - 14:51

Não vi e não gostei

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No blog Talking Pictures, o crítico Michael Phillips, do jornal “Chicago Tribune”, levanta uma boa discussão sobre um tema delicado: filmes que nos fazem sair do cinema antes do final da sessão – seja por raiva, tédio ou qualquer outro motivo.

Primeiro, Philips cita seus títulos renegados: “Forrest Gump”, “O expresso da meia-noite”, “O ano do dragão”. Depois, seus colegas de redação fazem o mesmo e falam mal de “Barry Lyndon”, “Cães de aluguel”, “Sangue de pantera”. Discordo de todas as escolhas: para mim, os filmes vão do passável (“Forrest gump”) ao brilhante (“Barry Lyndon”). Mas aí entramos na estranha seara dos gostos e dos recalques.

Confesso que saí no meio de pouquíssimos filmes na minha vida – algo que considero uma espécie de sacrilégio. Muitas vezes deixei namoradas mais impressionáveis me esperando no saguão (a última delas foi em “Irreversível”). Por outro lado, acho perfeitamente desculpável dormir em certos filmes.

Puxando pela memória, o primeiro filme que me fez debandar foi “Afogando em números”, de Peter Greenaway. E a soneca inaugural no cinema aconteceu em “O homem da linha”, de Jos Stelling – filmes de dois velhos queridinhos da Mostra de São Paulo. E quanto a você, caro leitor, qual foi o filme que te afugentou e o que te adormeceu?

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07/07/2007 - 13:22

Do que as mulheres gostam

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Por falar em listas dos 100 melhores filmes (e prometo não voltar ao assunto em algum tempo), a Alliance of Women Film Journalists (Aliança das Jornalistas de Cinema) acaba de divulgar a sua. A relação pode funcionar como um bom indicativo das diferenças de gostos cinematográficos entre homens e mulheres. A lista da Aliança está cheia de filmes com temática feminina (apesar de não ter havido qualquer restrição para as escolhas).

Existem bons achados na relação, alguns filmes que dificilmente seriam votados por homens: “Encontros e desencontros”, “Tudo sobre minha mãe” e “As patricinhas de Beverly Hills” (não é um dos 100 melhores da história, mas, sim, eu o considero um bom filme; podem sacanear à vontade). E “A marca da maldade” está lá – ponto considerável a favor das mulheres.

Por outro lado, há várias escolhas no mínimo questionáveis: “Como água para chocolate”, “Tomates verdes fritos”, “O fabuloso destino de Amelie Poulain”, “Driblando o destino” e “Encantadora de baleias”, entre outros “filmes de mulherzinha”, com o perdão da expressão machista. Depois dessa lista, sobrou só uma certeza: eu definitivamente não entendo nada de mulheres.

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05/07/2007 - 10:41

Por que “Cidadão Kane” de novo?

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A lista dos 100 melhores filmes norte-americanos da história segundo o AFI (American Film Institute) é assunto velho. Em dois sentidos: foi divulgada na semana passada, traz poucas mudanças em relação à lista de dez anos atrás e quase todas as escolhas são óbvias. “Cidadão Kane” levou mais uma vez o primeiro lugar, seguido de “O poderoso chefão”,  Casablanca”, “Touro indomável”, “Cantando na Chuva” e os suspeitos de sempre (para a lista completa, clique aqui).

A boa nova, no caso, é que a lista gerou uma série de contestações muito interessantes. Sem dúvida, a melhor delas vem de Filipe Furtado, crítico da Contracampo e da “Paisá”, em seu blog Anotações de um Cinéfilo. Furtado faz sua relação particular dos cem melhores filmes americanos da história, (deixando de lado as escolhas do AFI), com comentários sempre certeiros. Impressionante – e talvez até um pouco humilhante para críticos sem a mesma formação, como este aqui. Leitura obrigatória.

O blog americano The 400 obscure passions of the 8 1/2 personas (que deveria concorrer ao prêmio de pior nome de um site) traz uma lista menos extensiva e menos rica de filmes esquecidos pela AFI. Mas a relação tem o mérito de começar por “A marca da maldade”, de Orson Welles – que considero um filme superior a “Cidadão Kane”. Se este não é nem o melhor filme do cineasta, como pode ser considerado unanimemente o melhor da história?

Por fim, a crítica inglesa Rebecca Davis, no blog do “Daily Telegraph”, ataca o medo de errar dos membros do AFI. “Não dá para negar que os filmes escolhidos são grandiosos, mas seria muito mais interessante que alguém dissesse que ‘Caché’, de Michael Haneke, é muito superior a ‘Um Corpo que Cai’, de Hitchcock’. Mas as pessoas são medrosas demais para questionar a autoridade desses filmes.” Dos títulos recentes, ela cita três que deveriam ter sido lembrados: “Kill Bill”, “Amnésia” e “Cidade de Deus”.

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