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23/07/2007 - 11:39

Um país bipolar

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Nunca na história desse país uma certa bipolaridade brasileira ficou tão clara quanto no noticiário de TV da última semana. No bloco dedicado ao Pan, somos uma nação com um futuro brilhante, uma nova potência esportiva, um gigante finalmente desperto. Portanto, somos também incapazes de aceitar qualquer medalha que não seja ouro, de vaiar moleques de menos de 17 anos que perdem no futebol para garotos cinco anos mais velhos, de entender a revolta do judoca que levou “apenas” prata.

No bloco seguinte, dedicado à tragédia de Congonhas, voltamos a ser um país de merda, com um governo incompetente e corrupto, companhias aéreas e pilotos despreparados e uma população de bundões, incapaz de se revoltar com tamanhas barbaridades. Claro, existe aí o evidente desejo das emissoras de TV de usar a tragédia para atacar politicamente o governo, de repetir cenas mórbidas para aumentar índices de audiência. Mas há também, como pano de fundo, uma certa fracassomania, a velha síndrome de vira-latas de que falava Nelson Rodrigues.

E, no bloco seguinte, voltamos à euforia do Pan. E continuamos a ser um país onde não se aceita o bronze e o acaso. Um país sem razão.

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19 comentários para “Um país bipolar”

  1. beckett disse:

    Voto com o relator..

  2. Thiago disse:

    Por isso que eu digo: “O pior do Brasil é o brasileiro!”

  3. Kleber disse:

    Pior é acharem que essas medalhas do Pan realmente demonstram que somos “uma potência esportiva”… será que ninguém, por exemplo, é inteligente suficiente pra comparar os tempos dos nossos ouros da natação com os tempos olímpicos? A maioria não dá nem para ficar entre os 8 que disputam a final… Não é culpa dos atletas que estão fazendo o possível sem condições, mas é forçar demais a barrar as televisões quererem vender algo que não é a realidade. Depois, no próximo ano, vão falar do “vexame”, da “decepção” brasileira em Pequim…

  4. Anonymous disse:

    CAlil, Voce tava assistindo “tv” sintonizado na globo não é?

  5. Luiber disse:

    Caro Calil, não é preciso nem assistir TV para constatar essa tal “síndrome de vira-latas”. Aqui mesmo, nesses blogs ex-NoMínimos podemos constatar isso pelos comentários.
    Em outro post eu perguntava (mesmo! não é pergunta retórica) por que as caixas-pretas tem de ser enviadas aos Estados Unidos, onde, segundo noticiário, uma comissão de engenheiros do fabricante (o fabricante é europeu, mas os engenheiros são americanos) deverá examiná-las. Penso eu que o maior interessado é o Brasil, e que os engenheiros é que deviam vir para cá.
    Mas já me responderam, com ironia, que aqui é um antro de corrupção, e que por isso devemos deixar nosso destino e nossa sorte ser selada por estrangeiros. Não temos capacidade para cuidar de nós mesmos.
    Quanto ao Pan, pego o gancho do Kleber. Periga a turma pensar que vamos fazer feito parecido nas Olimpíadas. O buraco, e os tempos, são mais embaixo.

  6. aiaiai disse:

    eu nem entrei na bipolaridade. Tava feliz com as medalhas de terça e fiquei de “cara” com a tragédia e sua repercussão. Desde então, nem liguei mais a tv. No máximo, estou dando uma olhadinha nos blogs que gosto. No mais, cuido da minha vida que já é dá bastante trabalho. É uma boa receita contra a esquizofrenia geral.

  7. confetti disse:

    esse post é perfeito !

  8. Caroline disse:

    Tudo isso intercalado ao caso Calheiros, outra tecla em que a TV vem batendo, exaustivamente. Será que é só isso o Brasil?

  9. Luiz Valério disse:

    É Calil, está duro ver tv por esses dias. Ou é uma euforia desmedida e forçada com o Pan ou a escatologia total e absoluta na cobertura da tragédica com o avião da TAM. Os blogs ainda são a melhor saída para quem está cansado dessa fórmula decadente de jornalismo praticado pelos meios de comunicação convencionais em nosso país.

  10. Milton disse:

    Acaso, Calil? O acidente de Congonhas foi fruto do acaso???

    então tá.

  11. Rachel disse:

    Ricardo, tenho que discordar quando vc pressupõe que o que houve em Congonhas foi puro acaso. Acho que a conta avião com problemas + manobra arriscada do piloto + pista sem 100% de condições + dia chuvoso não tem o “acaso” como resultado.

  12. Ricardo Calil disse:

    Milton e Rachel, só para esclarecer minha posição: não acho que a tragédia seja fruto do acaso, peço desculpas por dar a entender isso; mas acho que somos precipitados demais em determinar causas que só poderão ser comprovadas daqui a alguns meses – e devemos ter cuidado para que nossa justa indignação não seja usada para fins políticos. Obrigado pela leitura e pelos comentários. Um abraço, Ricardo

  13. José disse:

    post perfeito Ricardo. É uma coisa meio imatura. Parece que não dá para reconhecer o sucesso do pan a não se rpor oba-oba. Não devíamos esquecer e seguir apontando os problemas de superfaturamento, os cupinchas do Nuzman etc…e infelizmente, esse também deveria ser o papel da Globo, que faz uma cobertaura institucional, “Galvão Bueno”, para dizer o mínimo…
    e no caso de Congonhas, parece que não dá para reconhecer as responsabilidades, como acho que o governo federal tem parte inegável de responsabilidade (qual o tamanho parte é a questão) , sem cair para a histeria e usos políticos tão hipócritas quanto a fuga de responsabilidade de outros. O pior da histeria é que no final ela não dá em muita coisa boa…

  14. Kamila disse:

    A tragédia com o avião da TAM enterra qualquer esperança que a gente tenha de que o Brasil, um dia, seja um país bom de se viver.

    As cenas vistas no Pan, com a torcida brasileira vaiando os atletas de outro países e torçam contra eles em prol dos brasileiros, é de dar vergonha. Isso vai contra o espírito olímpico e esportivo.

  15. Alba disse:

    Texto excelente, Calil!

  16. Fabiano disse:

    O Brasil é um país que adoraria acreditar que é o melhor lugar do mundo (afinal, nós temos o Cristo Redentor, o Rio de Janeiro, as bundas das mulatas, como bem sabem os turistas sexuais), mas a incompetência absoluta dos governantes e a mesquinharia do povo gritam todos os dias que isso é impossível.

    O Brasil é um país onde os governantes sempre quiseram controlar até a alma das pessoas (Vargas, a Inquisição etc), mas a incompetência absoluta dos governantes e a mesquinharia do povo tornam isso impossível.

    O gesto que define o Brasil é o top-top-top do Marco Aurélio Garcia. O Heinrich Himmler tupiniquim, a eminência parda do lulismo, descreveu à perfeição o nosso passado, nosso presente e nosso futuro.

    A frase que define o Brasil foi cunhada por uma sexóloga ministra do turismo: “Relaxa e Goza” (os turistas estrangeiros fazem isso há anos com as nossas prostitutas de 12 anos de idade).

    O lema da bandeira nacional está defasado; o verdadeiro lema do Brasil é “E quem é que tá ligando?”

  17. Lucas Rohãn disse:

    Calil,
    Observação perfeita, como sempre.
    Enquanto isso as coisas acontecem: Calheiros, pitboys, assaltos, acidentes, máfia dos Selos no RS etc

  18. lítio disse:

    O transtorno afetivo bipolar ocorre sempre que há eleições.

    Acreditamos no Brasil, mas votamos em Lulla Laus.

  19. Clara disse:

    Acho que o país está meio esquizofrênico mesmo, Calil. Só me faltava agora uma espécie de Voz do Brasil na televisão, para ficar relatando coisas sem nenhuma emoção.

Os comentários do texto estão encerrados.

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