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Arquivo de maio, 2008

31/05/2008 - 21:04

“Easy Rider” dos anos 00

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Não consegui assistir a “Na Natureza Selvagem” no cinema. Mas vários amigos se disseram comovidos com o filme de Sean Penn baseado na história real do americano Christopher McCandless, jovem de família rica e estudante brilhante que abandonou literalmente tudo e percorreu os Estados Unidos como andarilho por dois anos, até morrer sozinho no Alasca, provavelmente de inanição. Então decidi alugar o DVD assim que foi lançado (mesmo sabendo que o cinema é o lugar ideal para um filme sobre perder-se na vastidão da paisagem).

 

Deu para entender a razão de tamanha comoção. “Na Natureza Selvagem” é um belo filme, que confirma Penn como um ótimo diretor (além de brilhante ator), mas está longe de ser perfeito: às vezes ele se aproxima de uma hagiografia (a biografia de um santo), outras se enamora demais da beleza dos cenários, e o caráter épico da trilha de Eddie Veder frequentemente briga com o intimismo da busca de McCandless. Por outro lado, é uma daquelas raras obras que nos fazem repensar a vida.

 

Não, a história de McCandless não dá vontade de deixar tudo para trás, mesmo porque o caso de McCandless foi de um idealismo (ou, dependendo de sua visão, de um radicalismo) extremado. Mas desperta uma série de questões essenciais: será que muitos de nós não vivemos com mais do que precisamos? Será que perdemos contato com as coisas que nos são mais essenciais? Será que estamos criando nossos filhos da maneira como deveríamos?

 

A julgar pela reação de amigos próximos (e a minha também), essas são perguntas que permanecem com o espectador muito depois que terminam os letreiros. E arrisco dizer que o filme, embora tenha causado menos barulho do que deveria em sua estréia, irá encontrar um lugar especial na história do cinema. Não em uma lista de obras-primas, mas na igualmente seleta relação de filmes que colocam em xeque os valores de uma geração, como “Easy Rider” (Sem Destino), de Dennis Hopper. Só que, diferentemente do clássico da contracultura de 1969, a obra de Penn o faz dentro de uma perspectiva individual, não como ideal coletivo – o que só o torna mais representativo de seu tempo.

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30/05/2008 - 18:38

Xingue com Al Pacino

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Você já deve ter ouvido falar de sessões de cinema do tipo “Sing-along” (Cante junto), em que as músicas do filme são acompanhadas pelo público (em alguns casos, as letras surgem na tela com aquelas clássicas bolinhas saltitantes). Talvez o musical que mais serviu a esse tipo de evento até hoje foi o “Rocky Horror Picture Show” (1975), que atrai para sessões da meia-noite em várias cidades americanas centenas de fãs fantasiados como os personagens que conhecem as letras e os diálogos de cor.

 

Pois o Los Angeles Film Festival acaba de criar uma nova modalidade de interação com a platéia: o “Swear-along” (Xingue junto). O filme escolhido para a sessão, no dia 20 de junho, não poderia ser mais adequado: “Scarface” (1983), dirigido por Brian De Palma e protagonizado por Al Pacino como o mafioso Tony Montana. Só a palavra “fuck” é dita 226 vezes, um recorde na historia do cinema. E há vários outros tipos de palavrão ao longo do filme.  

 

Se houvesse uma sessão dessas no Brasil, qual filme você escolheria para xingar junto? Acho que os candidatos naturais da maioria serão “Cidade de Deus” (“Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno!”) e “Tropa de Elite” (“Essa pica não é mais minha, essa pica agora é do aspira”). Pessoalmente, gostaria mais de soltar um “Eu te amo, porra!” em uníssono com o Paulo César Pereio. 

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29/05/2008 - 17:15

Conto de fadas sangrento

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 “As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian”, segundo episódio da série adaptada dos livros do irlandês C.S. Lewis, é uma estranha mistura entre conto de fada infantil e filme de guerra medieval. Com estréia marcada para esta sexta-feira no Brasil, “Nárnia 2” tem boa parte de sua longa duração (quase duas horas e meia) preenchida por grandiosas batalhas, incluindo um massacre de centenas de seres encantados. As cenas podem não ser ricas em detalhes sangrentos, mas não deixam de ser bárbaras para o público a que se dirigem.

 

Esse lado violento do filme deriva de uma clara escolha da produção: no lugar da espiritualidade que marcava o primeiro episódio (“O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa), o investimento aqui é todo na aventura. O leão Aslam – que, para muitos analistas dos livros de Lewis, nada mais é do que uma representação de Jesus – aparece muito pouco em cena, e a feiticeira ainda menos. Em vez de girar em torno de aspectos mágicos, a trama se concentra agora em uma shakespeariana sucessão de trono.

 

Cerca de um ano (ou 1300 anos narnianos) depois dos acontecimentos de “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa”, o reino de Nárnia foi dominado pelos telmarines e está sob o domínio do maligno rei Miraz, que planeja matar seu sobrinho Caspian, legítimo herdeiro do trono. Mas este consegue, escapar e, por meio de uma trompa mágica, invocar a ajuda dos quatro irmãos Pensevie (Peter, Susan, Edmund e Lucy), que são transportados de Londres para Nárnia. Ao lado de seres encantados como um duende, um rato e um texugo falantes, centauros e minotauros, eles tentarão derrotar Miraz e conduzir Caspian ao trono. Para tanto, porém, precisarão reencontrar Aslam.

 

No fundo, a trama parece servir apenas de entreato para épicas seqüências de batalha, muito bem dirigidas por Andrew Adamson. Ao apostar na ação, “As Crônicas de Nárnia” torna-se um produto de entretenimento mais palatável (embora também mais violento). Por outro lado, perde sua grande marca distintiva, a religiosidade, tornando-se uma mistura de referências que vão de “Harry Potter” a “Gladiador”, de “Shrek” e “Cruzada”.

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28/05/2008 - 12:49

A culpa é do etanol

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Os comentaristas da nota abaixo reclamam do preço elevado dos ingressos nos cinemas brasileiros. Mas as coisas ainda podem piorar. E o culpado é o etanol – não o nosso (da cana-de-açúcar), mas o deles (do milho). Por enquanto, o problema está restrito aos Estados Unidos, mas, nesse mundo globalizado, ele pode chegar logo ao Brasil.

 

Por uma série de fatores interligados da cadeia econômica, a explosão do etanol do milho está elevando o preço da pipoca nos cinemas e, em última instância, também o dos ingressos de filmes. Funciona assim: 1) com a demanda crescente de milho para a produção de biocombustível, diminui a oferta do produto e aumenta seu preço, incluindo aí o da pipoca; 2) nas grandes redes de cinema americanas, o faturamento da venda de pipoca é usado para conter o preço do ingresso; se cai o lucro do primeiro, aumenta-se o valor do segundo.

 

De acordo com uma série de notícias publicadas nos EUA, o problema já é uma realidade. A rede AMC Entertainment, do Kansas, anunciou que irá aumentar o preço da pipoca em 25 centavos e o dos ingressos, de US$ 9 para US$ 10. Já Mike Campbell, CEO da rede Regal Entertainment, disse que, se os cinemas não lucrassem com a pipoca, o valor dos ingressos seria de US$ 20.

 

Só nos resta torcer para que a economia dos cinemas brasileiros esteja blindada contra o fator-pipoca americano.

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27/05/2008 - 19:36

Festa do interior

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A Filme B, empresa especializada em números do mercado de cinema no Brasil, publicou um ranking das cidades mais “cinéfilas” do país (só para assinantes do boletim, confira aqui). Para ser mais exato, daquelas que detêm os melhores índices de ingressos vendidos per capita. O resultado é surpreendente: as cidades do interior, especialmente de São Paulo, ficaram com os primeiros lugares na lista, desbancando as principais capitais brasileiras.

 

A campeã é Campinas, com 2,31 ingressos comprados por habitante ao ano. Depois dela, vêm Santos (2,23), Niterói (2,15), Vitória (a primeira capital do ranking, com 1,99), Florianópolis (1,98), Barueri (1,93), Porto Alegre (1,69), Ribeirão Preto (1,67), Taboão da Serra (1,60) e Curitiba (1,57).

 

Maiores metrópoles do país, São Paulo (1,14) e Rio de Janeiro (1,27) fizeram feio no ranking, ficando respectivamente na 27ª e 14ª colocações. Na verdade, o Brasil como um todo deixa a desejar nesse quesito. Um ou dois ingressos por morador ao ano é um número pífio, sob qualquer ponto de vista.

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27/05/2008 - 19:17

O papel de Pollack

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“Eu nunca fui o que chamaria de grande estilista visual”, disse o cineasta Sydney Pollack em entrevista no ano passado para a revista “American Cinematographer”, reproduzida no obituário do cineasta publicado pelo “The New York Times”.

 

Pollack morreu ontem, aos 73 anos, de câncer, em Los Angeles. Em um momento como este, é natural que palavras como “mestre” ou “grande diretor romântico” pululem nos obituários. Mas o próprio cineasta, auto-crítico por natureza, era o primeiro a rechaçar essas idéias de grandeza.

 

Ele foi um diretor correto e competente, que errava pouco, mas nunca chegou a firmar uma marca pessoal em seus filmes. O superestimado “Entre Dois Amores” (1985), que lhe deu dois Oscar (melhor filme e direção), foi um dos pontos baixos da história da premiação. Mas ele também assinou trabalhos bem marcantes, como “A Noite dos Desesperados” (1969) e “Tootsie” (1982).

 

Pollack deve ser lembrado como um ator, diretor e produtor acima da média, além de um sujeito digno o suficiente para saber exatamente qual era seu lugar na história do cinema.

 

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26/05/2008 - 15:04

Pobre cine latino

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Sem querer jogar água no chope da comemoração da Palma de Ouro para Sandra Corveloni, o grande perdedor nas premiações do Festival de Cannes foi o cinema latino-americano. Tinha quatro representantes de peso na competição – “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas, “Blindness”, de Fernando Meirelles, “A Mulher sem Cabeça”, de Lucrecia Martel, e “Leonera”, de Pablo Trapero -, mas apenas o primeiro levou o prêmio individual para Corveloni.

 

Pode-se argumentar que os latinos saíram bem na foto apenas por sua presença maciça na disputa, que festival não deveria ser visto como campeonato. Verdade, verdade. Mas também é fato que a escassez de prêmios e a recepção em geral negativa da crítica serviram como uma espécie de ducha de água fria para os filmes latinos – que vinham sendo saudados, precocemente, como “a grande história de sucesso do festival”, nas palavras do “Guardian” britânico.

 

Em termos de geografia cinematográfica, quais seriam, então, os grandes vencedores do festival? Em primeiro lugar, a França – que levou a Palma de Ouro de melhor filme para “Entre les Murs”, de Laurent Cantet, após 21 sem ganhar o prêmio principal em Cannes. É um reconhecimento justo não apenas para Cantet (dos ótimos “Recursos Humanos”, “A Agenda” e “Em Direção ao Sul”), mas também a uma cinematografia que vive seu melhor momento em décadas, com vários grandes realizadores no auge de suas formas (Desplechin, Assayas, Ozon, Garrell, Denis, Honoré, entre outros).

 

Além da França, outro país que retomou fôlego em Cannes foi a Itália, com o Prêmio do Júri para “Il Divo”, de Paolo Sorrentino, e o Grand Prix para “Gomorra”, de Matteo Garrone. Com a dupla premiação, fica a esperança de que o país volte a seus dias de glória e não viva mais de um ou outro talento isolado (Moretti, Crialese) – promessa que vem sendo constantemente descumprida nos últimos anos.

 

Para além da tradição européia, Cannes sinalizou discretamente que algo de novo pode estar vindo do Oriente – desta vez, do Próximo, não do Extremo. O turco Nuri Bilge Ceylan levou o importante prêmio de melhor diretor por “Três Macacos”, e o israelense fez barulho com a animação “Valsa com Bashir”, embora tenha saído de mãos abanando.

 

Para finalizar, uma ressalva: festivais importantes, como o de Cannes, são como fotografias que registram um momento específico do cinema mundial. Mas nada garante que a imagem seja completamente diferente daqui a algum tempo, porque o cinema, como se sabe, é a projeção de 24 fotos por segundo. Ou pelo menos era, antes do digital.

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25/05/2008 - 22:17

Muito antes de Cannes

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Pescado no YouTube, o vídeo acima mostra cenas da peça “Amargo Siciliano”, na qual o Grupo Tapa encena três obras inéditas no Brasil do italiano Luigi Pirandello. Quem assina a direção, ao lado de Eduardo Tolentino, é Sandra Corveloni, que ganhou hoje o prêmio de melhor atriz em Cannes por “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniella Thomas. Em cartaz no Viga Espaço Cênico (tel. 11/3801-1843), em São Paulo, a peça é uma boa forma de conhecer o trabalho de Sandra, veterana do teatro, antes da estréia de “Linha de Passe” no cinema. E também uma prova de que a Palma não caiu do céu. Fica o registro e a homenagem a Sandra pelo prêmio.

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25/05/2008 - 21:45

Saudosismo lucrativo

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A nostalgia continua sendo um bom negócio. “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” arrecadou US$ 126 milhões em seus quatro primeiros dias de exibição nos Estados Unidos, segundo dados da “Variety”. Os números tornam o filme a segunda maior abertura do feriado americano do Memorial Day (não diz muito para nós, mas é importante para eles), atrás apenas de “Piratas do Caribe – No Fim do Mundo”, com US$ 139,8 milhões.

 

 

Na seleção do resto do mundo, “Indy 4” também foi muito bem, com uma bilheteria total US$ 143 milhões em 56 países (incluindo US$ 5,7 milhões no Brasil), ainda de acordo com a “Variety”. É a sexta maior abertura no exterior de toda a história, atrás apenas de “Piratas do Caribe – No Fim do Mundo”, “Homem-Aranha 3”, “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, “O Código Da Vinci” e “Star Wars: A Vingança dos Sith”.

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23/05/2008 - 15:45

Escandinávia chicana

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Embora o mexicano Carlos Reygadas já seja um nome badalado em festivais há alguns (“Japón” e “Batalha no Céu”, por exemplo, foram exibidos em Cannes), nenhum de seus filmes havia sido lançado comercialmente no Brasil. “Luz Silenciosa”, que estréia neste feriado no país, vem não apenas preencher essa lacuna, como confirmar a reputação do cineasta.

 

Bastam 10 minutos de filme para qualquer um perceber que está diante de um cineasta singular. Primeiro, há um longuíssimo plano de um nascer de sol em uma paisagem campestre. Corta para uma família orando em silêncio e depois conversando com palavras incompreensíveis no café da manhã. E, então, o chefe do clã fica sozinho à mesa e não segura o pranto.

 

Impossível conter  o estranhamento diante dessa abertura. A origem do cineasta e a paisagem que lembra um faroeste nos indicam que estamos no México, mas as feições das pessoas e a língua que elas falam parecem saídas de algum canto da Escandinávia. Então, a sinopse vem nos ajudar: os personagens são menonitas, espécie de seita protestante que rejeita o progresso e tem dialeto próprio.

 

Johan (Cornelio Wall), o chefe de família, chora porque está infeliz ao lado da mulher Esther (Miriam Towes) e apaixonado pela amante Marianne (Maria Pankratz) – mas sente-se culpado pela idéia de abandonar a família, de envergonhar o pai pastar e ofender as leis de Deus.

 

Difícil encontrar parentescos do filme com qualquer outro do cinema recente. Mais fácil buscá-los no passado, em um filme como “Ordet” (1955), do dinamarquês Carl Th. Dreyer – com o qual compartilha não apenas o foco sobre uma severa comunidade religiosa, como também os personagens marcados pela culpa e pela fé na possibildade de um milagre.

 

Em certos momentos, Reygadas flerta perigosamente com os maneirismos do filme de arte. Em outros, busca sua singularidade meio que a fórceps. Os longos planos-seqüência, os intermináveis silêncios às vezes parecem servir mais à fama do autor do que à demanda do filme.

 

Mas não há como não admirar seu enorme talento plástico, sua maestria no uso do som e o desejo de, como Dreyer, fazer um cinema sobre o mistério do mundo, sobre as coisas que não podem ser filmadas. Sem dúvida, Reygadas é um cineasta a ser seguido de perto.

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