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23/05/2008 - 15:45

Escandinávia chicana

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Embora o mexicano Carlos Reygadas já seja um nome badalado em festivais há alguns (“Japón” e “Batalha no Céu”, por exemplo, foram exibidos em Cannes), nenhum de seus filmes havia sido lançado comercialmente no Brasil. “Luz Silenciosa”, que estréia neste feriado no país, vem não apenas preencher essa lacuna, como confirmar a reputação do cineasta.

 

Bastam 10 minutos de filme para qualquer um perceber que está diante de um cineasta singular. Primeiro, há um longuíssimo plano de um nascer de sol em uma paisagem campestre. Corta para uma família orando em silêncio e depois conversando com palavras incompreensíveis no café da manhã. E, então, o chefe do clã fica sozinho à mesa e não segura o pranto.

 

Impossível conter  o estranhamento diante dessa abertura. A origem do cineasta e a paisagem que lembra um faroeste nos indicam que estamos no México, mas as feições das pessoas e a língua que elas falam parecem saídas de algum canto da Escandinávia. Então, a sinopse vem nos ajudar: os personagens são menonitas, espécie de seita protestante que rejeita o progresso e tem dialeto próprio.

 

Johan (Cornelio Wall), o chefe de família, chora porque está infeliz ao lado da mulher Esther (Miriam Towes) e apaixonado pela amante Marianne (Maria Pankratz) – mas sente-se culpado pela idéia de abandonar a família, de envergonhar o pai pastar e ofender as leis de Deus.

 

Difícil encontrar parentescos do filme com qualquer outro do cinema recente. Mais fácil buscá-los no passado, em um filme como “Ordet” (1955), do dinamarquês Carl Th. Dreyer – com o qual compartilha não apenas o foco sobre uma severa comunidade religiosa, como também os personagens marcados pela culpa e pela fé na possibildade de um milagre.

 

Em certos momentos, Reygadas flerta perigosamente com os maneirismos do filme de arte. Em outros, busca sua singularidade meio que a fórceps. Os longos planos-seqüência, os intermináveis silêncios às vezes parecem servir mais à fama do autor do que à demanda do filme.

 

Mas não há como não admirar seu enorme talento plástico, sua maestria no uso do som e o desejo de, como Dreyer, fazer um cinema sobre o mistério do mundo, sobre as coisas que não podem ser filmadas. Sem dúvida, Reygadas é um cineasta a ser seguido de perto.

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