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24/07/2008 - 11:38

Era uma vez um problema de merchandising…

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Sempre que alguém reclama do uso de merchandising em filmes brasileiros, o diretor ou o produtor responde: “Mas no cinema americano tem muito mais e ninguém fala nada”. É, pode ser. Só que, bem ou mal, Hollywood desenvolveu alguma técnica para nos enfiar uma tonelada de produtos e marcas goela abaixo sem que necessariamente percebamos a malandragem. Enquanto no cinema brasileiro a coisa está ainda tão mal resolvida que é muito difícil ver um merchan sem sair completamente do filme.

 

Isso me veio à cabeça enquanto assistia a “Era uma Vez”, segundo filme de Breno Silveira, o diretor de “2 Filhos de Francisco”, maior público do cinema brasileiro depois da chamada “retomada”. O novo filme é uma história de amor entre Dé (Thiago Martins), rapaz pobre do Morro do Cantagalo, e Nina (Vitória Frate), garota rica de Ipanema (Vitória Frate). A certa altura, Dé pega dinheiro emprestado para fugir com a amada em uma financeira (que tem como garoto-propaganda um dos co-produtores do filme).

 

A essa altura do campeonato, não tem como brigar com o uso do merchandising em si. Acho que temos que ser um pouco menos católicos, mais protestantes, nesse sentido. A questão é que o merchan de “Era uma Vez”, como na maioria dos filmes brasileiros (e “Tieta”, de Cacá Diegues, com aquela infame cena do cheque, permanece como exemplo máximo do problema), é não apenas ostensivo, como, em última instância, gratuito. Logo depois de pegar o empréstimo com a financeira, Dé também aceita o dinheiro de seu irmão traficante. Então qual o sentido da cena anterior? Talvez a mensagem seja: se o moleque tivesse se contentado com o financiamento, ele podia se dar bem; como recorreu também ao tráfico, seu final será trágico.

 

***

 

Quanto ao filme em si, “Era uma Vez” confirma as principais virtudes e limitações que Breno Silveira já havia demonstrado em “2 Filhos de Francisco”. Ele é um diretor que trabalha com bastante competência os clichês consagrados do cinema. Em “2 Filhos”, os chavões da cinebiografia musical de sucesso; em “Era uma Vez”, uma combinação de velhos lugares comuns de filmes românticos decalcados de “Romeu e Julieta” com outros recentes do cinema e da TV brasileiros dedicados aos nossos pobres, de “Cidade de Deus” a “Central da Periferia”. Pode soar como ofensa, mas é elogio: o fato é que a maioria dos cineastas do país não domina essa ferramenta tão básica e eficiente que é o clichê.

 

Por outro lado, passamos o filme todo torcendo para que Silveira consiga ir além deles, para que um erro qualquer empresta mais personalidade a um filme tão redondo, tão simétrico, tão correto. E os equívocos acabam aparecendo: primeiro, o merchandising; depois, um final gritado, fora do tom, recado confuso e desesperado sobre nossa tragédia social, logo em seguida apaziguado por um estranho epílogo. Longe da zona de conforto dos clichês, Silveira se perde. Talvez seja melhor ficar com eles mesmo.

 

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16 comentários para “Era uma vez um problema de merchandising…”

  1. Não esqueça o merchan da Azaléia em A PAIXÃO DE JACOBINA, com direito a plaquinha de madeira e tudo! :-P

  2. Alvaro disse:

    Putz, falou tudo, isso é uma das coisas que eu falo porque eu não vejo cinema brasileiro.

    Tipo aquele filme “se eu fosse você” a penultima cena na agencia é muito descarada.

    Não sei se é o patrocinador dono da marca exige que o filme praticamente pare para um intervalo, ou se são os nossos cineastas-produtores que se vendem tão fácil.

  3. arnaldo de oliveira disse:

    pior que o merchan nos filmes é pagaringresso pra ver um filme e ter que assisir a 30 minutos de comerciais nas salas de cinema.

  4. MARCELO disse:

    MERCHANDISING É UMA MODALIDADE DE PROPAGANDA FEITA AO VIVOOO, NO PONTO DE VENDAAA… NÃO EXISTE MERCHANDISING DENTRO DE FILMEEE… DIZ A LENDA QUE ALGUM ANIMAL LEU A INFORMAÇÃO “AO VIVO” E PENSOU SE TRATAR DE PROGRAMAS EXIBIDOS AO VIVO NA TELEVISÃO… ISSO TAMBÉM NÃO EXISTEEE… MERCHANDISING SÓ EXISTE SE FOR FEITO AO VIVOOO, NO PONTO DE VENDAAA, NA CARA DO CLIENTEEE… é isso aí.

  5. Cristovam Tadeu disse:

    O problema do merchan no cinema é que tudo fica muito “ampliado”, muito dificil de esconder. E se o merchan na TV incomoda, no cinema mais ainda. Porque muitas vezes é enfiado goela a dentro de quem tá sala escura onde uma paradinha pro xixi é perda de enredo na certa. E no cinema não tem como “zapear”. Nem acho que o cinema americano anda tão sutil assim no merchan. Ele estão na mesma pisada, mas claro, muito mais discreto do que a tela brasilis.

  6. Anna May disse:

    A postagem se refere à propaganda dentro do filme, mas a que passa antes do filme tb está de matar. Domingo vi Batman, e me assustei qdo soube que eram 3h de filme. Ma verdade 2h40. Os primeiros 20 minutos da sessão é de pura propaganda. Puxa, já pagamos um ingresso super-caro… Será que realmente tem necessidade disso???

  7. Welington Liberato disse:

    Gostei do filme, um trabalho digno, muito bem realizado, com atuações naturais, na medida. O merchadising não atrapalhou em nada.

  8. anrafel disse:

    A maioria dos cineastas brasileiros vem da televisão ou da publicidade. Daí que o intervalo comercial é obrigatório.

  9. rodrigo disse:

    Eu achei interessante, que quando o Dé é criança, esta com a camiseta da Prefeitura do Rio (… é isso!?) indo para escola.
    Depois ele, com mais idade aparece com uma camiseta da Australia, e sem estudos.
    O filme é legal, apesar de não gostar de filmes de bang bang!

  10. Dias de Carvalho disse:

    Um dos merchans mais vergonhosos do cinema nacional foi o outdoor da Goodyear em “Muito Gelo e Dois Dedos D’Água”. O menos pior é que se trata de um filme medíocre, mesmo.

    Ricardo, a sua comparação do merchandising no cinema americano com o realizado no cinema brasileiro é muito boa. Algo que já percebia há muito. Embora às vezes os americanos errem a mão. Repare em “O Último Portal”, um ótimo e subestimadíssimo filme de Roman Polanski, quando o personagem de Johnny Depp abastece o carro num posto de gasolina. O foco no emblema da Shell na mangueira da bomba foi exagerado. Mas, nesse caso, o filme se mantinha de pé.

  11. Marco C. disse:

    Prezado Ricardo:

    Ótima a sua exposição sobre o “problema do merchandising”. Na verdade, a meu ver e sem desconsiderar a sua opinião, creio que o merchandising nunca foi problema. O problema é “acertar na mão”. O cinema, a TV, podem muito bem passar “a vida como ela é” sem ter que exagerar. Tudo é a mão, a sensibilidade. Em tudo que há exagero a coisa fica feia. Se o diretor faz um merchandising (o qual tem mesmo que existir para financiar o trabalho), o que vejo ser mais necessário é o acerto de detalhes de contrato com o patrocinador. Como aqui no Brasil a coisa é muito desgastante (digo isso em relação a conseguir patrocínio, pois os produtores, diretores e artistas têm mesmo que correr atrás com o pires na mão), acaba que os tais contratos deixam muito a desejar em termos de “exigências” dos financiadores do filme. Se um contrato não for muito bem redigido e com todas as cláusulas muito bem detalhas e claras acontece mesmo o abuso por parte do patrocinador, que quer aparecer o mais que puder, pouco se importando com a trama ou mesmo (o que é pior ainda para ele) com a duração e a maneira como sua marca irá aparecer numa tela gigantesca. Como resultado há uma rejeição/antipatia natural à marca exposta inadequadamente.
    As apelações existem sim, mas por falta de sensibilidade e ou contratos mal elaborados. E não digo isso apenas em relação ao cinema (ou à TV) brasileiro. O cinema americano também peca em alguns filmes. Merchandising não é comercial. Não tem que mostrar claramente que aquele produto, serviço ou idéia está sendo oferecido ao target com todas as intenções de venda possíveis. Deve ser uma coisa sutil, que dentro da própria trama, encaixado numa cena que deve ter algo a ver com o produto, serviço ou idéia em questão e, principalmente, com o cuidado de não se perder (por um roteiro mal feito) e nem aparecer demais, se tornando agressivo e incoerente, incompatível com sua proposta.
    Um abraço!
    Marco C.

  12. Marco C. disse:

    Olá, Ricardo.

    Apenas complementando o comentário anterior e para que não haja confusão. Comumente o merchandising é realizado nos PDV’s, porém, cada vez mais, cresce no mundo e no Brasil também o uso do merchandising editorial que são aquelas conhecidas inserções de produtos, serviços ou idéias em programas de TV e chamadas em outros países de ações “Tie-in”.
    Em uma quantidade enorme de roteiros de programas, filmes e novelas é possível assistir a quadros inteiros com o foco voltado diretamente para o consumo do produto ou serviço anunciado. E o resultado positivo dependerá apenas e tão somente, volto a dizer, de contratos bem elaborados e sensibilidade.
    Um abraço.
    MarcoC.

  13. Rúbia Rosa disse:

    Sou universitária, meu curso e de comunicação social- habilitação em publicidade e propaganda. Estou preparando o meu TCC que tem o tema “O Curta e o merchandising ”, muitas obras cinematográficas ficam no armário por não conseguirem apoio das leis de incentivo ou de um patrocinador. Nada nesta vida é de graça, se você quiser realizar um bom trabalho terá que se sujeitar a algumas ações que você não desejaria praticar, como por exemplo, estragar seu filme com um monte de propagandas sem contexto com o tema abordado, estou procurando realizar o meu curta só com produtos que realmente se encaixem na historia e não mencionar o nome do produto, só sua imagem. Porém, de 35 possíveis patrocinadores, todos desejam que sua marca tenham também presença sonora no curta. O que devo fazer se não tenho apoio da secretaria de cultura? Engavetar meu projeto? De forma alguma…
    Selecionarei alguns patrocinadores para realizarem o que eles desejam, colocar sonoramente suas marcas.
    Insisto que no início do projeto, essas marcas só entrariam através de imagens, mas quem manda é quem tem dinheiro.

  14. Lucio disse:

    Olá Rubia, faço faculdade de propaganda e publicidade, e pretendo fazer meu tcc em Merchandising no cinema, fazer compararitivos de filmes americanos francês e brasileiro, conhece artigos que mencionam algo sobre isso??? obrigado

    • Vanice da Mata disse:

      Marcelo, então o que é isso que vemos no cinema, publicitariamente falando?
      Lucio e Rúbia, interesso-me também pelo tema. Artigos e livros a indicar?

  15. Maria Tereza disse:

    O que a maioria não entende é que nada sobrevive sem publicidade. A coca cola já é centenária e continua fazendo publicidade. O que falta é publicidade de bom gosto. E é uma solução para patrocínio de filmes. Fazer publicidade e vender até a mãe dentro dele. Mas vender direito, bem feito. Ninguém vê mais intervalo de filmes depois do controle remoto. Acho maravilhosa a publicidade da limonada de um banco. Dividir a tela com publicidade quando estiver passando os créditos é uma.

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