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27/08/2008 - 22:16

Quem pode resistir ao “Mistério do Samba”?

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Certos filmes desarmam o espírito crítico. Alguns por ofereceram uma experiência estética e emocional arrebatadora. Outros por retratarem personagens ou situações aos quais é praticamente impossível não aderir. Este é o caso do documentário “O Mistério do Samba”, de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda, sobre a Velha Guarda da Portela.

 

É um bom filme? Não sei dizer. Não consegui elaborar grandes pensamentos sobre sua linguagem ao longo da projeção, nem me preocupei em identificar a quais escolas documentais ele se alinha. Sei que os sambistas que ele retrata, os casos que eles contam, os sambas que eles cantam são irresistíveis.

 

Outra dúvida: seria possível fazer um mau filme sobre a Velha Guarda da Portela? Também não sei, deve ser difícil. Só posso dizer que os diretores deste não conseguiram. “O Mistério do samba” é um filme feito com afeto e tempo (filmagens ao longo de dez anos). Um filme que consegue registrar tanto os aspectos poéticos quanto os mundanos do universo do samba – o que fica patente em duas passagens envolvendo o cantor Argemiro do Patrocínio.

 

Na primeira, ele aparece reclamando da falta de uma companheira e cantando um lindo samba sobre a solidão, que faz com que ele parece um velho bluesman em plena Oswaldo Cruz. Depois, Zeca Pagodinho conta um causo excelente sobre Argemiro: certa vez levou almoço e moças à casa do velho sambista, e elas deram até comidinha na boca dele. Quando Zeca disse que ia embora, Argemiro bronqueou: “Antes de sair, manda as piranhas lavarem a louça!”

 

Cada um dos integrantes da Velha Guarda – Monarco, Casquinha, Jair do Cavaquinho, Tia Surica e Tia Doca, entre outros – tem um samba tocante e uma história especial a oferecer. É possível ser contra um filme que se lança à tarefa de preservar a memória dessa turma no cinema, assim como Marisa Monte fez na música ? Deve ser possível, mas para mim não é fácil.

 

No passado, outro documentário sobre um sambista da Portela também me desarmou: “Paulinho da Viola – Meu Tempo é Hoje”. Na revisão, enxerguei uma série de limitações no filme, que não consegui ver da primeira vez por conta do deslumbramento com a música e a figura de Paulinho. O mesmo se deu agora com “O Mistério do Samba”. Com o tempo, isso pode mudar. Por enquanto, fica o encantamento com os velhos sambas cantados pela Velha Guarda, desencavados por Marisa Monte e registrados pelo filme.

 

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4 comentários para “Quem pode resistir ao “Mistério do Samba”?”

  1. Marvado disse:

    Ainda, como simples mortal, não vi o filme, mas o que vc diz e concordo com relação ao filme do Paulinho e pra mim tal e qual o do Cartola ou um doc que assisti sobre Mestre Pastinha e da mesma Capoeira de Angola, um documentário sobre Mestre Russo, mestre vivíssimo lá da baixada fluminense e zelador há anos da tradicional roda de Caxias, o qual assisti na última mostra, em SP, aparecia na programação como um filme inglês, produção inglesa sobre um personagem brasileiro. E por fim o Buena Vista que já vi algumas vezes e o filme recuso-me a comentar, mas os personagens me trazem emoções a cada projeção, estou curiosíssimo pra ver um pouco mais desta riqueza do Brasil, ainda que seja a estória de homens materialmente pobres, O Mistério do Samba.
    bjs no Brasil

  2. Marco Antonio Malcher disse:

    Ainda não vi o filme, mas acompanhei através de documentário na TV Futura todo desenrolar do projeto com narração da Marisa Monte. Falar sobre a história do samba é sempre um marco, pois nos leva àquilo que representa a raiz cultura brasileira, o samba. Oxalá permita que outros bambas do samba sejam relembrados em novos documentários.

  3. Sergio Ramos disse:

    Como portelense e frequentador assíduo da minha escola de samba, fico muito grato pelos profissionais que atuaram no desenvolvimento desta obra prima, é obvio que falar da nossa cultura é um luxo pq. esse brasil é uma pérola, falar do samba então sem comentários, ainda mais quando está envolvido essa velha guarda que é exemplo nesse país, que com suas lagrimas e sorrissos conseguiram permanecer lutando pela nosso samba e nossa cultura.
    Já consegui assisti um trailler , mas quero parar e ver na íntegra. Obrigado Marisa Monte, o brasil e a familia portelense te agradecem por não esquece de nossas raízes.

  4. Caro Calil, aproveitando a questão da crítica, gostaria de pedir uma indicação de livro. Como um bom blogueiro pedante e exibido, gosto de me aventurar por escrever sobre alguns filmes que vejo. Não tenho pretensões maiores que a de irritar alguns amigos de não gostam do meu lado crítico de cinema (preferem o poeta e ficcionista), mas também adoro ser auto-didata, especialmente porque adoro ler. Sendo assim, gostaria que me indicasse uns dois ou três livros que você julga fundamentais para quem quer entender um pouco mais de cinema e crítica de cinema. Acabei de ler três livros que me acrescentaram muito. São eles: A Linguagem Cinematográfica, de Marcel Martin (que amei imensamente); Ensaio Sobre a Análise Fílmica, de Francis Vanyone e Anne Goliot-Lété (que não gostei, por achar esquemático demais); e O Prazer dos Olhos, que são os escritos sobre cinema de François Truffaut. Além desses, o que você sugere para um pobre admirador de cinema sem curso superior e metido a escritor? Abraços.

Os comentários do texto estão encerrados.

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