Publicidade

Publicidade
24/10/2008 - 00:03

O roteirista como deus ex machina

Compartilhe: Twitter

Braulio Mantovani é o melhor roteirista em atividade no Brasil. Seu trabalho em “Cidade de Deus” virou referência para qualquer pessoa que queira escrever para cinema no país. Grande dialoguista, ele criou diversas frases que caíram na boca do público (“pede pra sair”, “o senhor é um fanfarrão”, “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno”, entre outras), um mérito que poucos colegas podem reivindicar.

Mas Mantovani parece acometido por um mal comum entre pessoas que se destacam muito no cinema: o desejo de impor uma marca pessoal a cada um de seus trabalhos, de criar uma assinatura imediatamente reconhecível, independentemente do filme ou do diretor. Entre os diretores de fotografia, aconteceu com Walter Carvalho. Entre atores, com Selton Mello.

No caso de Mantovani, o problema dessa mão um tanto pesada fica claro em “Última Parada 174”, de Bruno Barreto, que estréia nesta sexta-feira no Brasil. Ao ficcionalizar a trajetória de Sandro Nascimento, que seqüestrou um ônibus no Rio, matou uma de suas vítimas e foi morto pela polícia, o roteirista tomou uma série de liberdades com a história real – o que é quase sempre bem-vindo. O problema é que ele inventou um paralelo forçado entre Sandro e uma espécie de meio-irmão de mesmo nome, como um exercício didático para contrapor um criminoso “do bem” e outro “do mal”, um assassino circunstancial e outro inato – um contraponto que banaliza a história de Sandro, em vez de torná-la mais complexa.

Uma certa simetria artificial também prejudica “Linha de Passe”, filme bastante superior a “Última Parada 174”, mas afetado pela necessidade de distribuir entre os membros de uma única família paulistana atividades ou crenças emblemáticas da nossa classe média-baixa: faxineira, motoboy, aspirante a jogador de futebol, evangélico.

Há também o problema da repetição de fórmulas consagradas. “Cidade de Deus” abre com uma cena com narração em off, congela o quadro, entra um longo flashback. “Tropa de Elite” abre com uma cena com narração em off, congela o quadro, entra um longo flashback. Nem sempre é fácil saber o que está no roteiro e o que é escolha do diretor. Mas é possível notar que certos padrões se repetem, mesmo quando mudam os cineastas.

Todo roteirista é um pouco de deus ex machina, a distribuir soluções arbitrárias para os impasses dos personagens. Mas alguns assumem essa função divina de maneira menos discreta, mais ostentatória. Para recorrer a uma metáfora futebolística, é como se juiz de futebol não quisesse apenas deixar o jogo correr, mas aparecer tanto quanto os jogadores. Talento e competência Mantovani tem de sobra. Talvez o problema seja apenas de dosagem.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:

Ver todas as notas

9 comentários para “O roteirista como deus ex machina”

  1. Mal conheci o blog e já encontro o comentódromo virgem. Não entendo de cinema, mas o túnel do Linha de Passe não mostrou uma luz na saída. E eu acho, sinceramente, que tem.

  2. ivone silva disse:

    vc acha que o ex :namorado da eloa estar arrependido

  3. ricardo calil disse:

    vc acha que o ex: namorado de eloa estar arrependido?

  4. mariana serapicos disse:

    Olá Ricardo, eu sou aluna de rádio e tv da Cásper Líbero e estou desenvolvendo um pequeno documentário sobre o universo da crítica de cinema. Gostaria de saber se você poderia me pasar um email de contato para realizar uma entrevista…Obrigada.

  5. Milton disse:

    Resta saber até que ponto o roteiro foi mexido pelo Bruno Barreto, sabidamente um totalitário e centralizador. Se Braulio é egocêntrico, a briga de egos deve ter sido feia.

  6. ricardo calil disse:

    Olá Mariana, o email é calil7@hotmail.com. Fique à vontade para entrar em contato. Abs, Ricardo

  7. Fabio Negro disse:

    Essa dinâmica do “fodão que sabe muito mais que os outros” realmente existe… quem já teve uma banda ou um blog coletivo sabe que é isso mesmo.

    Não vi exatamente esse tom no post do Calil, mas não é como se o Mantovani fosse maquiavélico e egocêntrico.

    O poder corrompe, mas acho que a frase mais correta, em português, seria “o poder deforma“. Jogaram – e nenhum corpo físico poderia ser apresentado como testemunha dessa afirmação – o poder nas mãos do Mantovani, e ele lida com isso do jeito que pode.

    De toda forma: antes ele do que os outros roteiristas do Brasil.

  8. ricardo calil disse:

    Milton, Fabio, pelo que eu sei o Mantovani não é nada egocêntrico e muito menos maquiavélico, pelo contrário. Estou me referindo apenas a uma mão pesada nos roteiros recentes dele – mas, ainda assim, eles continuam superiores à média. Abs, Ricardo

  9. Diego disse:

    Os filmes com roteiro do Braulio Mantovani começam com narração em off, congela o quadro, longo flashback desde os primeiros curtas que ele escreveu, ou seja, desde sempre. Quando um filme brasileiro começa, em menos de cinco minutos já dá pra saber se o roteiro é de BM ou não. (Em outras palavras, são todos iguais.)

Os comentários do texto estão encerrados.

Voltar ao topo