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20/03/2009 - 00:13

Dirty Harry vai ao confessionário em “Gran Torino”

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Em ótima entrevista dada ao jornalista Leonardo Cruz, da “Folha de S. Paulo”, Clint Eastwood garantiu que Walt Kowalski, o protagonista de “Gran Torino”, não tem nada a ver com Dirty Harry, o emblemático personagem da série de mesmo nome que ele encarnou nos anos 70 e 80.

Ouso discordar de Clint. Certo, Kowalski não é igual ao Harry do passado. Mas é um Harry melhorado pela sabedoria adquirida por Clint Eastwood nos últimos anos como cineasta. Um Harry levado ao confessionário, obrigado a um mea culpa.

Como o antigo personagem, Kowalski é um sujeito solitário e implacável, um defensor dos mais conservadores valores americanos. Mais do que isso, é um xenófobo e um misantropo. Veterano da Guerra da Coréia e recém-enviuvado, ele mantém filhos e vizinhos à distância com seu código de conduta absurdamente estrito.

Então, um dia, o adolescente Thao, vizinho Hmong (grupo étnico do Sudeste Asiático) do protagonista, tenta roubar aquilo que Kowalski mais preza na via: seu velho automóvel Gran Torino. O incidente o obriga a prestar atenção no garoto e enxergar alguém tão deslocado quanto ele, um menino espremido entre a família tradicional e o assédio de uma violenta gangue Hmong liderada por seu primo.

A partir desse encontro, Clint vai oferecer a Kowalski uma chance de transformação e de redenção, vai submeter Harry, o sujo, a um banho moral, vai lhe dar a lição de tolerância que a obra recente do cineasta costuma pregar.

Kowalski irá informalmente adotar Thao e lhe ensinar o melhor de seus valores (que se confundem, no caso, com os valores americanos). Ou seja, Clint reedita aqui, com um viés interracial, o tema da união entre outsiders, da suspensão da orfandade, que é tão caro a seus filmes recentes, como “Um Mundo Perfeito” e “Menina de Ouro”.

“Gran Torino” tem alguns dos defeitos da obra de Eastwood (a necessidade de sublinhar certos sentimentos com os diálogos e a trilha, a recorrência de vilões unidimensionais). Mas, dentro de uma escala menos ambiciosa do que “Cartas de Iwo Jima” ou “A Troca”, também ostenta muito de suas virtudes, como a competência para apresentar questões morais bastante profundas e ambíguas de maneira simples e cristalina. Em resumo, é um pequeno grande filme, certamente não seu melhor como diretor, mas talvez o melhor como ator de sua carreira. Aos 79 anos, o prolífico Clint acertou outra vez.

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4 comentários para “Dirty Harry vai ao confessionário em “Gran Torino””

  1. gilvas disse:

    apareceu um “praza” no lugar do que imagino ser um “preza”. e, bem, o clint diretor não me convence.

  2. […] em “Gran Torino” é o da conversão do próprio Clint Eastwood. Como também já apontaram outros críticos, o filme é uma espécie de revisão da fase truculenta do ator e cineasta, cujo ápice foram os […]

  3. Murilo disse:

    Quando li a chamada da matéria pensei que Gran Torino era modelo de automóvel. E não é que é isso mesmo? Mas errei ao achar que era modelo fiat. Gostei da descrição do vilão como unidimensional.

  4. Cristiane Martins disse:

    Um grande filme que mostra, o diretor na sua melhor forma como ator e diretor, a conversão de Walt através do garoto Thao, é fascinante por mostrar que mesmo os brutos conseguem ter um pouco de sensiblidade, quando se dão oportunidade de ver o outro lado.
    A grande imjustiça do Oscar deste ano, foi a ausência deste filme na lista dos melhores, como Clint ser indicado a melhor ator.

Os comentários do texto estão encerrados.

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