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Arquivo de outubro, 2009

30/10/2009 - 23:49

Heath Ledger merecia despedida melhor

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parnassus

“O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”, último filme de Heath Ledger e atração da Mostra de São Paulo, é uma tremenda bagunça. E isso não tem nada a ver com o fato de o ator australiano ter morrido antes de concluir sua participação no filme. Pelo contrário, a saída para compensar sua ausência – a utilização de três atores, Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, para substituir Ledger em diferentes cenas – foi muito bem sacada e é um dos pontos altos da produção.

selo_mostraO problema de “Dr. Parnassus” é de outra ordem – e é recorrente na obra do diretor Terry Gilliam. Mais uma vez, ele concentra esforços no visual e descuida da narrativa. Já havia acontecido, por exemplo, com “As Aventuras do Barão de Munchhausen” – cuja estética rococó lembra bastante a de seu novo filme.

Dr. Parnassus (Christopher Plummer), dono e atração principal de uma companhia de teatro mambembe, esconde vários segredos. Um deles: por meio de um espelho mágico, é possível a qualquer um entrar dentro de sua imaginação. Outro: em uma aposta, perdeu sua filha (Lily Cole) para o diabo (Tom Waits), e este está prestes a cobrar o pagamento.

A única pessoa que parece capaz de ajudá-lo é um milionário desmemoriado que se integra à trupe, papel de Ledger. As sequencias em que ele é substituído por outros atores são aquelas em que o personagem entra no imaginário do dr. Parnassus. Como o tom dessas cenas é bem diferente das demais, a mudança de atores acaba soando natural.

O último papel de Ledger não está entre seus trabalhos mais memoráveis, como os de “O Segredo de Brokeback Mountain” ou último “Batman”. Mas o problema não é seu, mas da bagunça à sua volta. Gilliam cria um filme com alguns momentos de brilha, mas com uma narrativa frouxa, desconjuntada e monocórdia. Ledger merecia despedida melhor.

“O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus” será exibido neste sábado, às 21h50, no Unibanco Arteplex, e domingo, às 14h, no Unibanco Pompeia. Para informações sobre as outras exibições, confira o site oficial.

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28/10/2009 - 22:38

Centenário Manoel de Oliveira mostra vigor juvenil

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singular

Aos 101 anos, Manoel de Oliveira continua um enigma. Os filmes do cineasta português, mais velho diretor em atividade na história do cinema, despertam sempre uma sensação de estranheza. “Singularidades de uma Rapariga Loura”, seu mais novo trabalho, atração da Mostra de São Paulo, não é exceção.

selo_mostraQue pessoas são aquelas que freqüentam o filme? Aliás, são mesmo pessoas ou são fantasmas? A que época elas pertencem, presente ou passado? Por que elas são tão sérias, tão formais? Oliveira as leva minimamente a sério ou só tira onda com elas? Ele fez cinema, teatro ou literatura?

“Singularidades de uma Rapariga Loura” é baseado em um conto de Eça de Queirós. Na história, Macário (Ricardo Trêpa) narra suas desventuras amorosas a uma desconhecida que viaja a seu lado no trem (Leonor Silveira). Contador na empresa de seu tio em Lisboa, ele se apaixona por uma moça loira (Catarina Wallenstein) que vê se abanando com um leque, na janela da casa do outro lado da rua.

Macário a conhece e a pede em casamento. Mas seu tio se opõe, por razões obscuras, e o expulsa de casa. Ele vai até Cabo Verde para juntar dinheiro, perde tudo em um golpe, mas seu tio acaba por recontratá-lo e por aceitar o casamento. Só que aí ele descobre uma certa singularidade da rapariga loura. E, então, a história termina, abruptamente, com uma hora de duração.

À lista de perguntas habituais despertadas pela obra de Oliviera, seu novo filme acrescenta outras mais específicas. Por que Macário decide contar sua história a uam desconhecida? O que faz Macário se apaixonar pela moça loura? Por que o tio é contra o casamento e depois a favor? Por que os personagens se preocupam tanto com as convenções sociais a essa altura do campeonato?

Oliveira continua recobrindo a realidade lusitana com uma leve pátina de ironia, continua se recusando a oferecer respostas prontas – o que só torna o enigma de sua obra mais fascinante. E “Singularidades”, pequeno grande filme, está entre os momentos mais felizes de sua longa carreira. Oliveira pode ter comemorado seu centenário, mas continua trabalhando com o vigor de um rapazote.

“Singularidades uma Rapariga Loura” será exibido nesta sexta-feira, às 22h50, no Reserva Cutural. Para mais informações sobre as outras sessões na Mostra, confira o site oficial.

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27/10/2009 - 10:34

Wes Anderson brilha com animação do “Sr. Raposo”

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De um lado, o cineasta americano Wes Anderson, idiossincrático cronista do desajuste social, de filmes como “Três é Demais”, “Os Excêntricos Tenembaums”, “A Vida Marinha com Steve Zissou” e “Viagem a Darjeeling”. Do outro, o escritor britânico Roald Dahl, autor de clássicos infantis como “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “James e o Pêssego Gigante”.

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Como seria o encontro cinematográfico entre esses dois universos tão ricos e tão marcados pela personalidade de seus criadores? Suas qualidades se somariam ou se anulariam? A resposta não poderia ser mais positiva. Com sua última exibição na Mostra marcada para sexta-feira (no Espaço Unibanco, às 19h30), mesmo dia em que estreia nos EUA, “O Fantástico Sr. Raposo” é uma encantadora animação em stop-motion, à qual Wes Anderson conseguiu imprimir todas suas marcas pessoais, sem trair a essência da obra de Dahl. Como Tim Burton em sua versão de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.

O material ajuda. Os protagonistas de “Fantástico Sr. Raposo” formam uma excêntrica família dominada pelo pai, prato cheio para Anderson. Depois de uma vida dedicada aos assaltos a galinheiros, o galante Sr. Raposo (voz de George Clooney) atende o pedido da Sra. Raposo (Meryl Streep) para sossegar quando esta lhe comunica que está grávida.

Muitos anos mais tarde, já transformado em colunista de jornal e com um desajeitado filho adolescente (Jason Schwartzman), ele se muda para uma árvore em frente aos maiores criadores de galinhas, perus e sidras da Inglaterra. O Sr. Raposo não resiste à tentação e arma um plano para roubar os três.

A questão central de “Fantástico Sr. Raposo’ é o velho confronto entre instinto e razão, entre o ser selvagem e o social. O subtexto “humano” é o conflito masculino entre a vida de predador solteiro e a de provedor casado. Outro tema do filme, ainda mais caro ao cineasta, é a relação entre a figura heroica do pai e a persona insegura, ainda em formação, do filho.

O fato de fazer uma animação protagonizada por raposas não intimida Anderson. Para começar, ele recorre à estética meio “vintage” do stop-motion, que parece mais um antigo desenho de TV do que as modernas animações em 3-D que acostumamos a nos ver no cinema.

A partir daí, o cineasta vai distribuindo suas assinaturas ao longo do filme. Ele chama novamente seus atores-fetiche para dar voz a alguns dos personagens, como Bill Murray, Schwartzman e Owen Wilson. Ele veste os animais com roupas que parecem saída de um brechó. Ele usa uma música dos Rolling Stones na trilha. Ele coloca em cena personagens que parecem anestesiados mesmo diante dos sentimentos mais dilacerantes.

Assim, cada vez que a raposa adolescente surge em crise existencial na tela, nós enxergamos não apenas o personagem criado por Roald Dahl, mas também Jason Schwartzman em “Três é Demais” ou “Viagem a Darjeeling”.

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27/10/2009 - 00:01

Theo Angelopoulos, deus da Mostra, está entre nós

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Longos planos sem corte. Câmera quase sempre estática. Silêncios intermináveis. Personagens que vagam em busca da própria identidade e que parecem carregar o peso da história sobre as costas. As características essenciais da obra do diretor grego Theo Angelopoulos são quase um “greatest hits” do que muitas pessoas enxergam, para o mal e para o bem, como um “filme de festival”.

selo_mostraNão é à toa, portanto, que ele seja um dos autores preferidos da Mostra de Cinema de São Paulo. Seis dos seus filmes já foram exibidos no evento paulistano, de “A Viagem de Cithera” (1983) a “O Vale dos Lamentos” (2004). Ele ganhou uma retrospectiva completa no 20ª Mostra, em 1996. E, nesta edição, será novamente homenageado com a exibição de 8 de seus 19 filmes.

Agora, pela primeira vez, o cineasta grego marcará presença no evento. Nesta terça-feira, ele participa de um debate logo após a exibição, às 19h30 no Cine Bombril, de seu novo filme, “Trilogia II – A Poeira do Tempo”. Será a cerimônia de casamento, depois de um longo namoro entre a Mostra e Angelopoulos.

O fato de a obra do cineasta grego se encaixar em certos estereótipos do filme de festival não significa que ele seja um arrivista do cinema de arte. Seu trabalho é fruto de um longo processo de depuração, de uma série de questionamentos sobre o papel do cinema.

Ele começa a fazer filmes em 1965, depois de perder, com o golpe militar em seu país, seu emprego como crítico de cinema em um jornal de esquerda. Seus primeiros filmes são paineis históricos e políticos que ainda refletem a crença na primazia do coletivo sobre o individual.

Gradualmente, a história vai para o pano de fundo, e os personagens ganham destaque. Em seus filmes mais recentes e conhecidos – “Paisagem na Neblina” (1988), “Um Olhar a Cada Dia” (1995) e “A Eternidade e um Dia (1998), Palma de Ouro em Cannes – , Angelopoulos submete seus protagonistas a longas viagens físicas e emocionais.

“A Poeira do Tempo”, segundo episódio de uma trilogia sobre as raízes da Grécia no século 20, parece sugerir um encontro entre a fase histórica e a existencial de sua obra. O protagonista (Willem Dafoe) é um cineasta americano de origem grega que decide contar a história de seus ancestrais – que passa por Itália, Alemanha, Rússia, Cazaquistão, Canadá e EUA. Ao final, percebe-se que a jornada familiar do cineasta confunde-se com a história do século passado.

Como bom grego, Angelopoulos passou boa parte de sua obra refazendo o mito da “Odisseia”. E acabou transformando a própria carreira em um exemplar acabado de uma grande jornada geográfica e existencial.

Para mais informações sobre a retrospectiva de Theo Angelopoulos, confira o site oficial da Mostra.

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25/10/2009 - 22:05

Almodóvar é o pior inimigo de Almodóvar

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Pedro Almodóvar é o pior inimigo de Pedro Almodóvar. O cineasta espanhol nos acostumou com um patamar de qualidade tão elevado que temos dificuldade de perdoar seus menores deslizes. Aconteceu com “Má Educação”. E agora, de novo, com “Abraços Partidos”.

selo_mostra Uma das atrações mais concorridas até aqui da Mostra de São Paulo, o filme saiu de mãos abanando no último Festival de Cannes e vem despertando uma certa frustração por onde passa. Injustiça. “Abraços Partidos” pode não estar entre os melhores trabalhos de Almodóvar, mas é uma bela obra, superior a 90% dos filmes em cartaz.

Como “Má Educação”, “Abraços Partidos” é um trabalho mais sombrio e mais seco, com menos elementos tipicamente “almodovarianos”, como o colorido e o humor. É também mais uma homenagem ao filme noir com trama passada no universo do cinema, que soa como um ajuste de contas do cineasta com seu passado.

O protagonista é o diretor Matteo Blanco (Lluís Homar) , que usa o pseudônimo Harry Caine em seus trabalhos de encomenda. A partir de um episódio traumático de sua vida, ele fica cego, desiste de seu trabalho autoral e decide se identificar apenas com o pseudônimo.

Em uma série de flashbacks, o episódio vai sendo esclarecido aos poucos e logo fica claro que tudo está ligado à paixão por Lena (Penélope Cruz), amante de um homem poderoso que se torna protagonista de um filme de Matteo.

Por uma hora e meia, Almodóvar parece estar na sua melhor forma, intercalando os dois tempos do filme com maestria, renovando clichês de gêneros como o suspense e o melodrama, criando um punhado de cenas memoráveis. Mas a coisa desanda na última meia hora. Almodóvar parece que não sabe muito bem como concluir seu filme, a ode final ao cinema soa um tanto frouxa e artificial.

O protagonista de “Abraços Partidos” é um autor em crise, um homem que renega seu passado de cineasta. Um tanto do drama do personagem passou para Almodóvar: “Abraços Partidos” é um filme de crise, um trabalho de um cineasta que não está totalmente seguro de suas decisões, que não está confortável na própria pele.

Essa é a má notícia. A boa é que Almodóvar não está acomodado. Ele não quis fazer mais uma vez a aposta segura de um filme “almodovariano” – como era “Volver”, um trabalho superior, mas menos arriscado.

“Abraços Partidos” pode até gerar alguma decepção, apenas porque se trata de um Almodóvar. Mas deixa a esperança de um novo e frutífero caminho na obra de um enorme cineasta.

A Mostra exibe “Abraços Partidos” nesta segunda-feira, às 18h45, no Cinesesc, e na sexta-feira, às 18h20, no Reserva Cultural. Para mais informações, confira o site oficial.

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23/10/2009 - 23:40

“35 Doses de Rum”, primeira obra-prima da Mostra

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Escolher filmes da Mostra não é como apostar na MegaSena, puro exercício de sorte. Tem mais a ver com apostar na Loteria Esportiva: você conhece o retrospecto dos times e, portanto, tem mais probabilidades de acertar o desfecho de cada partida. Mas as chances de errar, claro, são sempre consideráveis.

selo_mostraA Mostra começou para mim como um bilhete premiado. Até aqui, foram várias apostar acertadas, incluindo o primeiro filme que eu vi nesta edição. Posso dizer sem medo de me enganhar: “35 Doses de Rum”, da francesa Claire Denis, é uma obra-prima – um termo que não gasto à toa.

Ex-assistente de Wim Wenders, diretora de grandes filmes como “Beau Travail” (1999) e “Desejo e Obsessão”, Denis é uma das mais fascinantes autoras do cinema contemporâneo – embora os brasileiros conheçam pouco sua obra, visto que poucos de seus filmes foram lançados em circuito comercial.

Seus filmes costumam oferecer viagens sensoriais poderosas, embaladas por narrativas descontínuas e trilhas sonoras oníricas. “35 Doses de Rum” é assim e é diferente: uma viagem mais plácida, mais linear, mais melancólica, criada sob o signo da delicadeza.

O filme é uma homenagem a Yasujiro Ozu, em particular a “Pai e Filha” (1949). Como no clássico do cineasta e japonês, o novo trabalho de Denis se concentra na relação entre uma jovem e seu pai viúvo, particularmente nos pequenos ritos do cotidiano. No lugar da antiga Tóquio, os subúrbios de Paris hoje.

Ali vivem o condutor de trem Lionel (Alex Descas) e sua filha Josephine (Mati Diop), que se protegem do sofrimento da perda respectivamente da mulher e mãe com uma relação ultraprotetora, que vêem o lar como um abrigo contra as agruras do mundo externo.

As únicas pessoas que eles aceitam em seu pequeno núcleo são os vizinhos Gabrielle (Nicole Dogue), ex-namorada de Lionel, e Noé (Gregoire Colin), apaixonado por Josephine. Ainda assim, eles o mantêm a uma distância segura, como se o afeto alheio pudesse ameaçar a harmonia de pai e filha.

Mas Lionel e Josephine sabem que mais cedo ou mais tarde vão ter que se abrir para o mundo, vão ter que afrouxar os laços que os unem. “35 Doses de Rum” é permeado pela tensão da quebra desse equilíbrio entre os protagonistas, uma tensão expressa não em palavras, mas em pequenos gestos.

Há pelo menos uma sequência antológica no filme, uma cena de dança em um bar, ao som de “Night Shift” dos Commodores, entre Lionel, Josephine, Gabrielle e Noé, em que os complexos sentimentos que unem os quatro são traduzidos apenas em olhares.

Com “35 Doses de Rum”, Claire Denis fez um dos mais belos filmes da história sobre as relações entre pais e filhos e confirmou ser uma mestra do cinema contemporâneo. Seu novo filme não fica devendo à obra de Ozu – e este é o melhor elogio que eu posso lhe dedicar.

“35 Doses de Rum” será exibido neste sábado, às 13h30, no Cinesesc, e domingo, às 22h10, no Cinema da Vila. Para conferir outros dias e locais de exibição, veja o site oficial da Mostra.

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21/10/2009 - 23:37

Mostra começa com raro filme digno sobre futebol

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selo_mostraA julgar pelos seus filmes mais conhecidos, como “Terra e liberdade” (1995) e “O Vento nos Libertará” (2006), o cineasta inglês Ken Loach é daquele tipo que acha que o futebol é o ópio do povo. Socialista de carteirinha, ele dedicou boa parte de sua carreira a dramas sobre a classe operária inglesa ou a épicos sobre a revoluções populares.

Mas, na verdade, Loach é um fanático por futebol, que foi assunto coadjuvante em alguns de seus filmes menos conhecidos. Em “À Procura de Eric”, filme que abre nesta quinta-feira a Mostra de Cinema de São Paulo para convidados (mais informações no site oficial), o esporte é elevado a protagonista.

O Eric do título é Eric Cantona, o rebelde jogador francês que foi um dos grandes ídolos do time inglês Manchester United. Cantona é o grande heroi de outro Eric (Steve Avets), um carteiro em crise existencial, com problemas como o envolvimento de um enteado com uma gangue local e a dificuldade para se reaproximar de seu antigo amor.

Certo dia, quando fuma um baseado, o Eric carteiro recebe a visita imaginária do Eric jogador (interpretado pelo próprio Cantona), e este passa a atuar como conselheiro para resolver seus problemas pessoais. Em meio à história, são mostrados alguns dos melhores lances de Cantona com a camisa do Manchester United.

O resultado é o trabalho mais acessível da obra de Loach, mas ainda assim um típico produto do cineasta inglês, atento aos dramas cotidianos da classe operária e crente em uma solução coletiva para problemas individuais, Por outro lado, trata-se de um filme bastante digno sobre a paixão pelo futebol, que é uma das maiores caveiras de burro da história do cinema.

O mais popular esporte do mundo nunca ganhou um filme de ficção à sua altura. Nem mesmo no Brasil, onde os poucos bons exemplares bem-sucedidos são documentais, como “Futebol”, de João Moreira Salles e Arthur Fontes, “Todos os Corações do Mundo”, de Murilo Salles, e “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade.

“À Procura de Eric” não é o filme que irá saldar a dívida do cinema com o futebol, nem está entre os melhores trabalhos de Loach. Mas é um prazer ver que o cineasta socialista de 72 anos conseguiu valeu-se do esporte para dar um pouco de leveza a sua obra – ao mesmo tempo em que usou sua verve social para emprestar um pouco de gravidade ao tema.

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21/10/2009 - 16:01

Dez caminhos para percorrer a Mostra

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Os premiados

O caminho mais curto. Para quem prioriza os filmes já consagrados nos maiores festivais mundiais. De Cannes, vêm “A Fita Branca”, do austríaco Michael Haneke (Palma de Ouro); “Dente Canino”, selo mostrado grego Yorgos Lanthimos (vencedor da mostra Un Certain Regard); “Sanson & Delilah”, do australiano Warwick Thornton (vencedor da Camera D’Or); e “Lost Persons Area”, da belga Caroline Strubbe (melhor filme da Semana da Crítica). De Berlim, “Everyone Else”, do alemão Maren Ade (Urso de Prata), e “London River”, Urso de Prata de melhor ator para Sotigui Kowjaté. De Veneza, “Lebanon”, do israelense Samul Maoz (Leão de Ouro). De Locarno, “Ela, uma Chinesa”, de Xiaolu Guo (Leopardo de Ouro).

As retrospectivas

O caminho vertical. Para quem gosta de se aprofundar na obra de uma só pessoa. Neste ano, são três as opções: o cineasta grego Theo Angelopoulos, dos já conhecidos “Paisagem na Neblina” e “ A Eternidade e um Dia” e do inédito “Dust of Time”; a musa francesa Fanny Ardant, de “A Mulher do Lado” e “De Repente, num Domingo”, que vem apresentar sua estreia na direção, “Cinza Sangue”; e o diretor e produtor italiano Gian Vittorio Baldi, conhecido por suas parcerias com Pier Paolo Pasolini, como “Appunti per un’Orestiade Africana” e “Porcile”.

Os mestres

O caminho garantido. Para quem quer ver o novo trabalho de seus cineastas preferidos. Nesta edição, as opções são fartas: “Singularidades de uma Rapariga Loura”, do português e centenário Manoel de Oliveira; “A Vida é um Romance”, do francês Alain Resnais; “Aquiles e a Tartaruga”, do japonês Takeshi Kitano; “Shirin”, de Abbas Kiarostami; “Carmel” e “A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas”.

Ficções brasileiras

O caminho nacionalista. Para quem aposta no cinema brasileiro. A Mostra vinha perdendo terreno para o Festival do Rio como grande vitrine dos filmes nacionais. Mas a seleção deste ano prova que o evento paulista recuperou o fôlego: “Os Famosos e os Duendes da Morte”, de Esmir Filho, diretor do fenômeno “Tapa Na Pantera”, que aliás venceu o Festival do Rio; “Cabeça a Prêmio”, estreia na direção do ator Marco Ricca; “Os Inquilinos”, de Sergio Bianchi; “O Amor Segundo B. Schianberg”, de Beto Brant; “Insolação”, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas; “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, de Karim Ainouz e Marcelo Gomes; “Natimorto”, de Paulo Machline.

Docs nacionais

O caminho do real. Para quem quer comprovar a bela fase dos documentários brasileiros, uma bela selação: “Pixo”, de João Wainer; “27 Cenas sobre Jorgen Leth”, de Amir Labaki; “Domingos”, de Maria Ribeiro; “BR-3”, de Evaldo Mocarzel; “Dzi Croquetes”, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez; “Belair”, de Noa Bressane e Bruno Safadi; “Beyond Ipanema”, de Guto Barra.

Antes da estreia

O caminho dos apressados. Para aqueles que não aguentam esperar a chegada ao circuito comercial de um filme muito aguardado. Anote aí alguns dos filmes que já tem data de estreia marcada: “Aconteceu em Woodstock”, de Ang Lee (que deve estrear em 13 de novembro); “500 Dias com Ela”, de Marc Webb (13 de novembro); “Abraços Partidos”, de Pedro Almodovar (20 de novembro); “Julie & Julia”, de Nora Ephron ( 27 de novembro), “Distante Nós Vamos”, de Sam Mendes (18 de dezembro).

As apostas

O caminho arriscado. Para quem gosta de ir ao cinema no escuro, conhecer um diretor do qual nunca viu um filme. As minhas são: “A Religiosa Portuguesa”, de Eugene Green (Portugal); “Amreeka”, de Cherien Dabis (EUA); “Daniel & Ana”, de Michel Franco (México/Espanha); “Eastern Plays”, de Kamen Kalev (Bulgária); “Food Inc.”, de Rebert Kenner (EUA); “Go Get Some Rosemary”, de Joshua e Ben Salfdie (EUA); “Humpday”, de Lynn Shelton (EUA); “Katalin Varga”, de Peter Strickland (Romênia); “La Pivellina”, de Rainer Frimmel e Tizza Covi (Áustria, Itália); “Polytechnique”, de Denis Villeneuve (Canadá); “Sex Volunteer”, de Kyeong-duck Cho (Coreia); “The Misfortunates”, de Felix van Groeningen (Bélgica); “The Wolberg Family”, de Axelle Ropert (França); e “Tsar”, de Pavel Luguin (Rússia).

Os clássicos

O caminho nostálgico. Para quem acha que o cinema já foi bem melhor ou pelo menos tem interessa em conhecer mais sua história, uma oportunidade única de ver em tela grande alguns dos maiores filmes da história. Em diferentes mostras, estão programados: “Inferno”, do francês Henri-Georges Clouzot; “Gabrielle” e “Girl with Hyacinths”, do sueco Hasse Ekman; “Terra em Transe”, de Glauber Rocha; e “O Despertar da Besta”, de José Mojica Marins.

Rebeldes do esporte

O caminho polêmico. Para quem gosta de esporte ou de biografia de figuras idiossincráticas, a Mostra tem três opções excelentes: “À Procura de Eric”, do inglês Ken Loach, estrelado pelo jogador de futebol francês Eric Cantona, no papel dele mesmo; e os documentários “Tyson”, do americano James Toback; “Maradona”, do sérvio Emir Kusturica; “Os Gracies e o Nascimento do Vale Tudo”, de Victor Cesar Bota.

Obras-primas

Meu caminho. Para os poucos que confiam no meu gosto, os dois melhores filmes que vi nas sessões de imprensa até aqui foram: “Vencer”, do italiano Marco Bellochio, brilhante cinebiografia da amante de Mussolini; e “35 Doses de Rum”, mais um belíssimo exemplar do cinema impressionista da francesa Clare Denis.

Se você quer mais detalhes sobre os filmes citados e saber quando eles serão exibidos, confira o site oficial da Mostra.

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20/10/2009 - 16:14

Estou de TPM. Tensão Pré-Mostra

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selo mostraEstou de TPM. Tensão Pré-Mostra. Um período fértil e estressante que se repete a cada 12 meses e que se iniciou, para mim, há 23 anos. A Mostra de Cinema de São Paulo só começa oficialmente na próxima quinta-feira (confira o site oficial aqui), mas, como vi um bom punhado de filmes nas sessões para imprensa, os sintomas desencontrados já começaram a me atacar: expectativa, euforia, frustração, cansaço… E eles só tendem a piorar nas próximas duas semanas, até desaparecer repentinamente, para voltar só no ano seguinte.

Tudo, claro, começou na adolescência. Era um garoto tranqüilo, que se contentava apenas com as preliminares: uns filmões hollywoodianos no cinema, um clássico ou outro na TV e no VHS. Então uma garota do colégio, uma coreana irmã mais nova da então organizadora da Mostra, surgiu com uma proposta indecente: ingressos grátis para dois filmes do evento.

Tirei a sorte grande. O primeiro era “Daubainló” (1986), a sensacional comédia de Jim Jarmusch com Roberto Benigni e Tom Waits. O outro era um filme húngaro sem legendas, lentíssimo, do qual não lembro o nome, nem o enredo – quase um clichê do que as pessoas chamam desdenhosamente de “filme da Mostra”. Meus amigos foram embora no meio, mas eu resisti bravamente. Não por abnegação, mas pelo prazer do estranhamento mesmo, que talvez alguns classifiquem como masoquista.

Aquela Mostra serviu para revelar duas coisas fundamentais para o resto da minha vida. Primeiro, que eu seria capaz de gostar de qualquer variação dentro da minha segunda atividade preferida – das mais banais, como um pastelão americano, às mais áridas, como um drama iraniano. Segundo, que eu não estava sozinho. Havia uma irmandade silenciosa de pessoas com as mesmas perversões, que eu iria reencontrar muitas vezes nas filas do evento e que iria crescer ao longo dos anos.

Depois de pouco tempo e centenas de filmes, em mais um lance de sorte, eu já estava cobrindo a Mostra para um grande jornal. Era tudo que eu queria desde a adolescência: ser pago para ver filmes. Foi uma orgia cinematográfica. Coisa de três, quatro vezes por dia. Mas logo ficou claro que eu não estava preparado física e psicologicamente para a tarefa. Meu então editor me passou meu primeiro filé mignon: “O Reino”, série de TV dirigida por Lars von Trier. Eu sabia que eram mais de cinco horas, que eu estava no meu limite, mas naquela época eu não sabia dizer não. Resultado: dormi com meia hora de projeção e fui acordado por meu editor, que havia chegado na metade do filme. Esperei um esporro, ele me pagou uma cerveja. Era um dos meus.

Algumas Mostras depois, fui morar fora de São Paulo. Foram três anos cobrindo o Festival de Nova York, outros cinco no Festival do Rio. A experiência me levou a outra descoberta essencial: as pessoas da minha raça são iguais em qualquer parte do mundo. Um cinéfilo de Perdizes é mais parecido com um cinéfilo nova-iorquino ou carioca do que um não-cinéfilo da Pompeia. A temporada desses festivais era a época em que eu me sentia mais em casa no “exterior”.

De volta a São Paulo há dois anos, eu retornei também à Mostra. Mas o peso da idade bateu. Nada mais de bacanais. Fiquei mais seletivo com os filmes, mais intransigente com as filas, mais desconfiado com os colegas pervertidos. Agora vai ser uma vez por dia, duas com algum esforço. Depois, o negócio é torcer para que a minha menopausa cinematográfica chegue e eu possa atravessar essa época sem TPM.

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15/10/2009 - 22:43

Nunca houve alienígenas favelados como os de “Distrito 9”

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Pense em uma mistura de “Aliens, o Oitavo Passageiro”, “Cidade de Deus” e a série “The Office”. Parece improvável, não? Mas deu certo. O resultado se chama “Distrito 9”, um bizarro encontro entre ficção científica, filme de favela e falso documentário cômico, que estreia nesta sexta-feira no Brasil e tem produção de Peter Jackson (“O Senhor dos Aneis”). De partes díspares de vários filmes, o diretor sul-africano Neill Blomkamp faz uma obra coesa, única, original.

Tudo começa como uma falsa reportagem sobre a chegada de uma nave alienígena a Johannesburgo, na África do Sul. Subnutridos e submissos, os ETs são instalados pelo governo em um campo de refugiados, que logo se transforma em uma enorme favela. Maltratados pela polícia e por gangues locais, eles começam a promover protestos e assustam a população. Uma corporação é convocada para remover favela a um local distante e encarrega um de seus funcionários da tarefa. Mas esse empregado é contaminado pelos aliens e aos poucos se torna um deles.

A metáfora com o apartheid sul-africano é bastante óbvia, a trama vai perdendo um pouco de fôlego na segunda metade, mas a premissa do filme é forte o suficiente para ver chegar com prazer até o final. Não se deve esperar uma reflexão muito profunda sobre preconceito. Blomkamp não é George Romero, que fez grande crítica social no terror de “A Noite dos Mortos Vivos” (1968). Mas pode ter certeza que esta é a melhor alegoria sobre alienígenas favelados da história do cinema. O fato de ser também a única é apenas um detalhe.

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