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23/10/2009 - 23:40

“35 Doses de Rum”, primeira obra-prima da Mostra

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35doses

Escolher filmes da Mostra não é como apostar na MegaSena, puro exercício de sorte. Tem mais a ver com apostar na Loteria Esportiva: você conhece o retrospecto dos times e, portanto, tem mais probabilidades de acertar o desfecho de cada partida. Mas as chances de errar, claro, são sempre consideráveis.

selo_mostraA Mostra começou para mim como um bilhete premiado. Até aqui, foram várias apostar acertadas, incluindo o primeiro filme que eu vi nesta edição. Posso dizer sem medo de me enganhar: “35 Doses de Rum”, da francesa Claire Denis, é uma obra-prima – um termo que não gasto à toa.

Ex-assistente de Wim Wenders, diretora de grandes filmes como “Beau Travail” (1999) e “Desejo e Obsessão”, Denis é uma das mais fascinantes autoras do cinema contemporâneo – embora os brasileiros conheçam pouco sua obra, visto que poucos de seus filmes foram lançados em circuito comercial.

Seus filmes costumam oferecer viagens sensoriais poderosas, embaladas por narrativas descontínuas e trilhas sonoras oníricas. “35 Doses de Rum” é assim e é diferente: uma viagem mais plácida, mais linear, mais melancólica, criada sob o signo da delicadeza.

O filme é uma homenagem a Yasujiro Ozu, em particular a “Pai e Filha” (1949). Como no clássico do cineasta e japonês, o novo trabalho de Denis se concentra na relação entre uma jovem e seu pai viúvo, particularmente nos pequenos ritos do cotidiano. No lugar da antiga Tóquio, os subúrbios de Paris hoje.

Ali vivem o condutor de trem Lionel (Alex Descas) e sua filha Josephine (Mati Diop), que se protegem do sofrimento da perda respectivamente da mulher e mãe com uma relação ultraprotetora, que vêem o lar como um abrigo contra as agruras do mundo externo.

As únicas pessoas que eles aceitam em seu pequeno núcleo são os vizinhos Gabrielle (Nicole Dogue), ex-namorada de Lionel, e Noé (Gregoire Colin), apaixonado por Josephine. Ainda assim, eles o mantêm a uma distância segura, como se o afeto alheio pudesse ameaçar a harmonia de pai e filha.

Mas Lionel e Josephine sabem que mais cedo ou mais tarde vão ter que se abrir para o mundo, vão ter que afrouxar os laços que os unem. “35 Doses de Rum” é permeado pela tensão da quebra desse equilíbrio entre os protagonistas, uma tensão expressa não em palavras, mas em pequenos gestos.

Há pelo menos uma sequência antológica no filme, uma cena de dança em um bar, ao som de “Night Shift” dos Commodores, entre Lionel, Josephine, Gabrielle e Noé, em que os complexos sentimentos que unem os quatro são traduzidos apenas em olhares.

Com “35 Doses de Rum”, Claire Denis fez um dos mais belos filmes da história sobre as relações entre pais e filhos e confirmou ser uma mestra do cinema contemporâneo. Seu novo filme não fica devendo à obra de Ozu – e este é o melhor elogio que eu posso lhe dedicar.

“35 Doses de Rum” será exibido neste sábado, às 13h30, no Cinesesc, e domingo, às 22h10, no Cinema da Vila. Para conferir outros dias e locais de exibição, veja o site oficial da Mostra.

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10 comentários para ““35 Doses de Rum”, primeira obra-prima da Mostra”

  1. Rafael disse:

    Filme brasileiro?!!?!?!…

    Pô… tax de sacanagem né… nem pagando eu assisto.

    • ricardo calil disse:

      O filme é francês, Rafael. Mas tem filme brasileiro que também vale a pena. Abs

  2. Oba! É o meu primeiro filme de amanhã…

  3. O Cinema Nacional é um dos melhores do mundo. Quem diz que “nem pagando assiste” com certeza não viu obras como O Céu de Suely, A Via Láctea, Lavour´Arcaica, Abril Despedaçado e muitos, muitos outros.

    Não sei o que é pior : não conhecer a cultura de seu próprio país ou achincalhá-la gratuitamente.

  4. […] Doses de Rum” (“35 Rhums”), da francesa Claire Daines, como uma obra-prima (mais aqui). Ex-assistente de Wim Wenders, Claire tem uma filmografia elogiadíssima onde quer que se coloque […]

  5. Flávio disse:

    Este filme é simplesmente péssimo.
    Obra Prima? Só se for pra crítico querendo dar uma de intelectualóide, e de diferente.

  6. marcelo disse:

    Ricardo,

    A cena realmente dadançadofilmeé sensacional, mas achei que o filme deixa a desejar !

    Excelente blog
    Gde Abç

    Marcelo F.

  7. […] entre outros grandes nomes, estão todos no país, do primeiro, "Chocolate" (88), aos recentes "35 Doses de Rum" e "Minha Terra […]

  8. […] grandes nomes, estão todos no país, do primeiro, “Chocolate” (88), aos recentes “35 Doses de Rum” e “Minha Terra […]

Os comentários do texto estão encerrados.

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