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Arquivo de janeiro, 2010

31/01/2010 - 22:03

“Zumbilândia” é salvo por uma ponta de Bill Murray

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“Zumbilândia”… O título promete um filme bem mais descartável do que ele realmente é. Ou pelo menos um filme que lide com bem menos inteligência com a própria descartabilidade. Primeiro longa de ficção de Ruben Fleischer, “Zumbilândia” é um “terrir”, mistura de humor e horror, bastante divertido e esperto, que sabe brincar com os muitos clichês dos filmes de zumbi.

No início do filme, ficamos sabendo que uma epidemia transformou quase todos os americanos em zumbis. O tímido protagonista Columbus (Jesse Eisenberg) foi um dos poucos sobreviventes, graças a uma lista de regras para se salvar dos ataques dos zumbis.

Ao viajar para a casa dos pais, ele acaba se juntando com outros três sobreviventes: o truculento Tallahassee (Woddy Harrelson), a bela Wichita (Emma Stone) e sua irmã adolescente Little Rock (Abigail Breslin). No meio do caminho, Columbus começa a se preocupar menos com os zumbis do que com a própria inabilidade social, obstáculo para conquistar Wichita.

O mérito de “Zumbilândia” é fazer um pastiche de gêneros – comédia juvenil, filme de zumbi, romance de iniciação – que nunca se leva a sério. Mas há um efeito colateral nessa escolha: não dá para acreditar em seus inofensivos zumbis, o que acaba neutralizando o horror do filme.

Em compensação, há uma cena antológica que coloca o filme em um patamar superior à média do gênero: a sequência em que os quatro sobreviventes se encontram com o comediante Bill Murray, no papel dele mesmo. Não dá para contar muito o que acontece, mas dá para afirmar que é uma dos momentos cômicos mais sofisticados e hilários produzidos pelo cinema recente.

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28/01/2010 - 22:39

“Tyson” vale quanto pesa o seu personagem

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Documentário que estreia nesta sexta-feira no Brasil, “Tyson” vale quanto pesa o seu personagem. E o seu personagem, um grande herói trágico, pesa bastante. O diretor James Toback sabe disso: em vez de ouvir dezenas de pessoas para compor o retrato de seu biografado, decidiu falar apenas com Mike Tyson e usar suas imagens de arquivo.

Toback entendeu uma questão simples. Não só a trajetória de Tyson – de ladrãozinho de gueto e campeão mundial de boxe a condenado por estupro a celebridade de segunda classe – tinha enorme força dramática. Como também o ex-boxeador encerrava em si todas as contradições necessárias a um bom filme: ele é alternadamente bruto e delicado, ingênuo e sábio, balbuciante e surpreendentemente articulado.

“Tyson” é um filme simples, sem inovações de linguagem. Mas tem a virtude de captar todas essas facetas de um personagem extremamente complexo, o que deve ser creditado em parte a uma proximidade entre Toback e Tyson (o lutador já havia feito uma ponta em “Preto e Branco”, outro filme do cineasta).

O resultado é um documentário que vai interessar não só quem gosta de boxe, mas também quem se interessa pelo que há de trágico e patético na existência humana – duas características que Tyson simboliza como poucos.

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27/01/2010 - 23:20

Haitianos produzem cinema em meio aos escombros

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Havia uma – e apenas uma – escola de cinema no Haiti: o Ciné Institute, na pequena cidade de Jacmel, no sudeste do país. Como a maioria das edificações do Haiti, a sede da escola – criada pelos americanos David Belle e Annie Nocenti – foi destruída pelo terremoto de duas semanas atrás. Mas nenhum de seus alunos morreu ou ficou seriamente ferido. Eles literalmente desenterraram câmeras dos escombros e começaram a documentar os efeitos da tragédia.

O resultado desse esforço de guerra está em uma série de curtas documentais postados na página do Ciné Institute no site Vimeo. São registros feitos a quente por pessoas que enxergam a tragédia de dentro, que perderam casas e familiares, que conseguem acesso a lugares aonde a mídia estrangeira não chega, que vão permanecer por ali quando todos repórteres tiverem ido embora.

São, portanto, um registro fundamental da maior tragédia da história das Américas e uma demonstração da força e da necessidade do cinema que vai muito além do conceito de entretenimento. Abaixo, uma compilação de imagens pós-terremoto feita pelos alunos:

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25/01/2010 - 16:37

Cinco filmes resumidos em cinco segundos

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Eduardo Valente, crítico (Cinética) e cineasta (“No Meu Lugar”), deu a dica. E eu aceitei. No YouTube, essa fábrica de desocupados talentosos (ou não), há uma mania curiosa, que eu ainda não conhecia: resumir filmes a cinco segundos. Essas são algumas das melhores tentativas:

“A Paixão de Cristo”:

“Batman – O Cavaleiro das Trevas”:

“Titanic”:

A série “Rocky”

E o meu preferido, um resumo melhor que o filme, “Fim dos Tempos”:

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22/01/2010 - 22:42

Site da revista “Piauí” exibe filme sobre Zilda Arns

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Nobre iniciativa da revista “Piauí”: disponibilizar em seu site, na íntegra, o belo documentário “Travessia da Vida” (2001), de Dorrit Harazim, sobre a pediatra e sanitarista Zilda Arns, morta há dez dias no terremoto que destruiu o Haiti.

Em vez de esperar alguma emissora de TV exibir o documentário, a revista rapidamente liberou o filme na internet – demonstrando que a urgência de uma resposta à tragédia pode vir de qualquer lado, inclusive do cinema.

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20/01/2010 - 23:53

Ausência de “Salve Geral” no Oscar não é notícia

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No jornalismo, há uma velha definição para o que é ou não notícia: um homem que morde um cachorro é; um cachorro que morde um homem não é. Algo parecido vale para o Brasil no Oscar: um filme brasileiro indicado ao Oscar é um homem mordendo um cachorro; um filme não indicado é um cachorro mordendo o homem.

Ou seja, a não-indicação de “Salve Geral” ao Oscar de melhor filme estrangeiro não é notícia. Nos 82 anos de história da premiação, o cinema brasileiro foi indicado quatro vezes nessa categoria (“O Pagador de Promessas”, “O Quatrilho”, “O que é Isso, Companheiro” e “Central do Brasil”). E mais algumas poucas vezes em outras categorias, como a de melhor atriz para Fernanda Montenegro por “Central do Brasil” ou as indicações de melhor direção, roteiro adaptado, edição e fotografia para “Cidade de Deus”.

Ou seja, nossa tradição é a ausência. O que deveria desestimular grandes expectativas antes e grandes frustrações depois nessa época de Oscar. Especialmente quando o filme não é lá grande coisa e não tem o “perfil” dos eleitores da categoria de melhor filme estrangeiro, que costumam rejeitar trabalhos relacionados à violência. Sem problemas: ficar de fora não é o fim do mundo, estar dentro não seria a salvação da lavoura.

A não-indicação de “Salve Geral” ser tratada como notícia revela que ainda nos achamos um povo predestinado – e também injustiçado. É um pouco como tratar o fato de não ganhar uma Copa do Mundo como uma tragédia nacional. Só que pior, porque na história do futebol somos protagonistas; na do Oscar, fazemos ponta.

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18/01/2010 - 07:53

Globo de Ouro foi populista, porém honesto

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Num ano em que não havia francos favoritos na maioria das categorias cinematográficas do Globo de Ouro, os membros da Associação dos Correspondentes Estrangeiros em Hollywood tiveram um critério bem claro em seus votos: eles decidiram premiar as grandes bilheterias, os filmes e atores mais queridos do públicos.

A prova mais evidente foram os prêmios de melhor filme dramético e melhor diretor para “Avatar” e James Cameron. A premiação pode ser vista não como um reconhecimento ao trabalho de melhor qualidade, e sim como um tributo à segunda maior bilheteria da história, ao diretor também responsável pela primeira (“Titatic”) e a um salto de qualidade tecnológica no 3-D – tecnologia vista como a salvação da indústria do cinema.

O prêmio de melhor filme cômico/musical foi para “Se Beber, Não Case”, filme de orçamento mediano, com atores não muito conhecidos, mas que foi um surpreendente sucesso de bilheteria. Para ser justo, é preciso dizer também que foi uma premiação acertada, para uma excelente comédia subestimada pela maior parte da crítica.

Nas categorias de interpretação, também foram priorizados profissionais que funcionam como chamariz de bilheteria. Sandra Bullock levou o de melhor atriz dramática por “The Blind Side”, e Meryl Streep, o de atriz cômica por “Julie & Julia”. E até nos telefilmes premiou-se uma queridinha do público, Drew Barrymore por “Grey Gardens”. Entre os homens, a Associação premiou a reinvenção de Robert Downey Jr., de viciado em drogas e astro de ação, por seu trabalho cômico em Sherlock Holmes. A exceção ficou por conta do prêmio de melhor ator dramático ao cultuado Jeff Bridges na pequena produção “Crazy Heart”.

Os outros prêmios de cinema da noite foram pulverizados entre filmes que saíram do Globo de Ouro menor do que entraram para as futuras premiações. Melhor roteiro para “Amor Sem Escalas”, melhor animação para “Up – Altas Aventuras”, melhor ator coadjuvante para o genial Christopher Waltz de “Bastardos Inglórios” (filme mais injustiçado da noite), melhor atriz coadjuvante para Mo-nique por “Precious”, melhor filme estrangeiro para “A Fita Branca” e assim por diante.

No balanço final, pode-se dizer que o Globo de Ouro deste ano foi uma premiação populista, porém honesta. Em vez de fazerem pose de defensores da sétima arte, como os integrantes da Academia do Oscar, os membros da Associação dos Correspondentes Estrangeiros reconheceram os filmes e atores que fazem a roda do dinheiro girar em Hollywood – ou seja, justamente aqueles capazes de manter seus empregos.

No começo da festa, o tom geral dos discursos foi de uma certa culpa pela comemoração em meio a uma tragédia como a do Haiti. Mas ao longo da noite a moral da história foi mudando para a auto-celebração. O auge foi a última fala, a de James Cameron ao receber o prêmio de melhor filme. Nós pertencemos à indústria do entretenimento. Nós temos o melhor emprego do mundo. Nós somos privilegiados.

Faltou apenas dizer: nenhuma tragédia tem o direito de se meter no caminho da nossa festa, nenhuma crise pode tirar o nosso emprego. O show tem que continuar. Agora a dúvida é se o Oscar se permitirá ser tão honesto.

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15/01/2010 - 22:35

Por que nos importamos com o Globo de Ouro?

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O Globo de Ouro vai premiar “Avatar” como melhor filme e reconhecer James Cameron por sua inovação tecnológica e sua supremacia nas bilheterias? Ou irá fazer justiça à maturidade artística de Quentin Tarantino e seus “Bastardos Inglórios”? Sandra Bullock vai fazer uma dobradinha como melhor atriz de drama por “The Blind Side” e de comédia por “A Proposta”? George Clooney vai provar de vez que é um bom ator levando para casa uma estatueta por “Amor sem Escalas”?

Todas essas perguntas serão respondidas neste domingo. Menos uma, a mais essencial: por que, afinal, nos importamos com tudo isso? Dá para entender a importância dada ao Oscar e ao festival de Cannes, por exemplo. São, respectivamente e grosso modo, as mais tradicionais premiações do cinema “comercial” e do cinema “de arte”.

E o Globo de Ouro? É a principal prévia do Oscar, o prêmio pequeno que permite prever o que irá acontecer com o prêmio maior? Cada vez mais isso parece ser menos verdade. Em 2006, por exemplo, “Crash” ganhou o Oscar sem nem ter sido indicado ao Globo de Ouro como melhor filme dramático. No ano passado, o Globo de Ouro não “acertou” o prêmio de melhor ator, de melhor atriz coadjuvante, de melhor filme estrangeiro. Ou seja, um desempenho abaixo da média dos apostadores bem informados.

Mas é uma premiação representativa de uma classe cinematográfica? Não, certamente não. O Globo de Ouro é o prêmio da Associação dos Correspondentes Estrangeiros em Hollywood, que tem exatamente 86 membros votantes. Para comparar, o Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, cujos integrantes votam no Oscar, tem em torno de 6 mil integrantes – número próximo ao dos sindicatos dos produtores, dos roteiristas e dos escritores de Hollywood.

Se alguém tem menos de 100 amigos no Facebook ou no Orkut, começa a se perguntar se está sendo muito anti-social. A Associação dos Correspondentes não tem preocupação semelhante.

Talvez isso signifique que eles sejam um grupo muito seletivo, certo? Errado. As regras da Associação são confusas. Jornalistas de publicações respeitadas, como o “Times” de Londres e o Le Monde” de Paris, têm credenciais recusadas. Já alguns frilas que não sobrevivem no jornalismo, de países sem grande tradição cinematográfica, têm status de membro fixo.

Mas ao menos o Globo de Ouro é um prêmio acima de qualquer suspeita? Não. Em sua história, há vários registros de jabás dados por concorrentes aos membros da Associação. Em 2000, o representante de Sharon Stone mandou relógios de ouro para todos os votantes do grupo. Só depois que a história veio a público é que eles acharam que seria mais adequado devolver a lembrancinha. Ainda assim, Stone recebeu uma indicação de melhor atriz pelo medíocre “A Musa”.

Então, no final das contas, por que nos importamos com o Globo de Ouro? Bom, a premiação atende a diversos interesses. Os estúdios de cinema garantem publicidade gratuita para seus filmes. As emissoras de televisão aumentam sua audiência com a reunião de um número respeitável de celebridades. Os atores aparecem na TV e, de quebra, ganham prêmios.

Faltou o público nessa equação. Nesse caso, acho que a explicação para o interesse é prosaica: a bebida é liberada na festa. O que leva à esperança de satisfazer um dos grandes fetiches da vida moderna: flagrar um ator famoso em uma situação mais relaxada, talvez até mesmo levemente embaraçosa. Algo que o Oscar, com sua pompa e artificialidade, nunca permite.

É pouco, muito pouco. De qualquer forma, estarei diante da TV no domingo e resistirei ao sono para contar aqui o que vi.

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12/01/2010 - 23:45

Primeiras impressões sobre o “BBB 10”

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+ É sempre prematuro falar sobre o primeiro episódio de qualquer programa em série, especialmente de um reality show, que não tem roteiro muito definido. Mas essa me pareceu a estreia de “Big Brother” com linhas mais claras, definidas.

+ Uma das chaves desta edição foi dada explicitamente por Pedro Bial: “Este BBB tem um novo alfabeto. ABCDEF GLS…” Uma das participantes depois reforçou: “Este é o BBB da diversidade”. Por fim, a animação de Maurício Ricardo mostrou três robozinhos, um deles gay. A direção do programa selecionou um gay, uma lésbica e uma drag queen, todos assumidos – o que demonstra que as questões de gênero sexual terão papel predominante desta vez.

+ A ideia de uma vida dupla é reincidente entre os participantes – muito além da duplicidade inerente aos brothers GLS. Há uma doutora em lingüística que vira perua baladeira, uma policial que solta a franga na praia, um engenheiro agrônomo que foi modelo, um advogado que treina boxe e assim por diante.

+ Como se vê, a “segunda vida” dos participantes está ligada em geral ao corpo. Muitos ganham a vida com atividades físicas: um dançarino, uma dançarina de boate, um personal trainer e assim por diante. Esta parece ser também uma das edições mais homogêneas em termos corporais/hormonais, com uma maioria absoluta de corpos esculpidos, quando não marombados. Pela minha lembrança, havia mais exceções em edições anteriores, como Cida ou Jean, por exemplo.

+ É cedo para dizer, tudo pode mudar nas próximas semanas, mas o “casting” da edição me pareceu bastante inspirado, com vários participantes de personalidade forte. E já deu para identificar claramente uma barraqueira, a jornalista lésbica, que deu uma enquadrada forte e desnecessária, logo no primeiro programa, na dançarina de boate (com o tempo, prometo decorar o nome dos participantes – ou não).

+ O primeiro episódio reforça uma impressão das últimas edições: se há um protagonista no “Big Brother”, este é o apresentador Pedro Bial e suas tiradas que vão do “poético/filosófico” ao francamente cafajeste (no programa de estreia, ele comentou, por exemplo, que a bunda de uma das participantes não cabia na tela de TV).

+ Outra sensação confirmada: o “Big Brother” é o programa de melhor edição da TV brasileira, uma máquina ágil e eficiente. A edição deu conta, por exemplo, de tornar já um pouco familiares os 15 anônimos participantes.

+ As mudanças de uma edição para outra sempre me soaram cosméticas: muda a decoração de um quarto, muda o perfil de um ou outro participante. Desta vez, houve uma mudança significativa, que altera de cara o jogo: a participação de ex-big brothers. É possível dizer de cara que essas celebridades efêmeras já levam uma vantagem em relação aos celebrity wannabes, por já terem passado um bom tempo no confinamento? Ainda é cedo para dizer. A dramaturgia do programa, ou pelo menos o que a edição tenta transformar em dramaturgia, só se define com o tempo.

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11/01/2010 - 22:52

Eric Rohmer dança no paraíso do cinema

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Eric Rohmer dirigiu mais de 50 filmes para o cinema e a televisão, muitos deles inesquecíveis. Mas curiosamente a imagem que fica, para mim, do cineasta francês – que morreu hoje, aos 89 anos, em Paris – vem da internet. Eu a vi pela primeira vez não faz nem uma semana: Rohmer dança na filmagem de algum de seus trabalhos, um filme que não consegui identificar, provavelmente para mostrar o que queria dos atores.

A cena tem graça, tem leveza, tem ainda a marca longevidade, algumas das características que associo naturalmente a Rohmer. Claro, faltam os personagens falando pelos cotovelos, sobre temas banais ou intelectuais– o que talvez seja o atributo mais lembrado, mais facilmente reconhecível, de sua obra. Isso levou a uma visão apressada, injusta, de um cineasta literário, mais conservador do que seus colegas de Nouvelle Vague, como Godar, Truffaut, Chabrol e Rivette.

Na verdade, Rohmer é um cineasta plenamente moderno. As palavras de seus personagens são uma cortina de fumaça. Graças a elas, eles conseguem construir uma outra imagem de si próprios, racionalizar sobre questões que vão além da razão, esconder sentimentos latentes.

Mas, sim, há uma relação entre o cinema de Rohmer e a literatura. Mas ela não se encontra no seu gosto pelos diálogos. E sim na estrutura de seus filmes, que lembram contos por se concentrarem em geral num episódio simples, com poucos personagens. A herança assumida até mesmo no nome de suas principais séries de filmes: os Contos Morais do início da carreira, as Comédias e Provérbios baseadas em frases cunhadas por grandes escritores, os Contos das Quatro Estações.

É uma questão de afinidade, mas também de necessidade: para continuar filmando sempre, Rohmer escolhia histórias que exigiam equipe e elenco reduzidos. Muitas vezes, a trama não poderia ser mais simples: um homem casado se interessa por outra mulher, divaga sobre a traição, mas nunca chega a concretizá-la; uma jovem em férias fantasia sobre um caso com um homem, mas acaba se aproximando de outro; e assim por diante.

A obra de Rohmer em geral é sobre tudo aquilo que não acontece. O que leva a outra ideia equivocada sobre seu cinema: a de que seus filmes são lentos. Isso gerou até uma piada em “Night Moves” (1975), de Arthur Penn, dita por Gene Hackman: “Assistir aos filmes de Rohmer é como ver tinta secar”. Mas o que a frase de efeito ignora é que o movimento dos personagens é interno, um turbilhão geralmente disfarçado pelas palavras.

Sou tomado por uma sensação curiosa ao ver ou rever a obra de Rohmer: a vontade de morar dentro de seus filmes, de jogar conversa fora com seus personagens, de enfrentar dilemas morais e afetivos parecidos com leveza e serenidade. Talvez seja difícil apaixonar-se pelos filmes de Rohmer à primeira vista, mas, com o tempo, a admiração torna-se um amor profundo.

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