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26/02/2010 - 21:25

Bianchi vê o Brasil como filme de terror psicológico

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Uma das grandes alegrias do cinema é ser surpreendido por um diretor que você julgava incapaz de surpreender. Foi o que aconteceu ao ver “Os Inquilinos”, o novo filme de Sergio Bianchi, que estreou nesta sexta-feira.

Eu julgava saber o que esperar de um filme de Bianchi: um veredicto didático e condenatório sobre as mazelas sociais brasileiras, em que qualquer ambigüidade era sacrificada em nome da contundência, em que o cuidado com o artesanato do roteiro e direção era visto como uma frescura desnecessária diante da relevância das acusações e das polêmicas. Foi assim em “A Causa Secreta” (1994), “Cronicamente Inviável” (2000) e “Quanto Vale ou é por Quilo?” (2005).

Mas “Os Inquilinos” é outra coisa. Um trabalho em que Bianchi se permite ser sutil, ser ambíguo, não explicar aquilo que quer demonstrar. Sua primeira providência foi desistir de abordar um país inteiro no filme, de catalogar todas as mazelas possíveis em um mínimo de tempo. Não, “Os Inquilinos” é um filme sobre pessoas específicas – uma família de classe média-baixa –, sobre um lugar específico – um bairro da periferia paulista –, sobre um tempo específico – a época dos ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital.

A rotina pacata de Valter (Marat Descartes), de sua mulher Iara (Ana Carbatti) e de seus dois filhos é abalada pela mudança para a casa ao lado de três jovens ruidosos e agressivos, supostamente ligados ao crime. Valter vê os novos vizinhos como uma ameaça não apenas à segurança de sua família, mas também à própria masculinidade – porque eles são mais jovens e atléticos, porque não tem coragem de confrontá-los.

Em vez de buscar a polêmica fácil, Bianchi prefere trabalhar a atmosfera de tensão crescente trazida pela presença dos três. É como se ele dissesse que viver no Brasil é habitar um filme de terror psicológico, em que a violência mora ao lado, sempre prestes a explodir. A sutileza acaba por multiplicar a contundência da sua denúncia, em vez de anulá-la.

Além disso, de uma forma inédita em sua carreira, o cineasta demonstra algum carinho não exatamente por seus personagens, mas pela composição dos personagens, numa bem-sucedida tentativa de afastá-los das caricaturas de filmes anteriores.

Bianchi continua desconfiado da humanidade, continua inconformado com o sistema social brasileiro. Mas ele descobriu que a melhor maneira de demonstrar seu descontentamento era apenas… fazer um bom filme.

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33 comentários para “Bianchi vê o Brasil como filme de terror psicológico”

  1. didi disse:

    CONCORDO PLENAMENTE COM TUDO Q O FABIO DISSE…
    PARABÉNS !!! CARA INTELIGENTE ….

  2. Osmar Teixeira disse:

    Dizer coisas do tipo “Filme brasileiro… Tá loko q vou perder meu tempo com isso.” é como dizer que não ouvirá mais MPB, não viajará às praias da terra tupiniquim, não lerá poesias de Drummond e Clarice Lispector (só dois pra resumir). Afirmar isso é renegar a sua própria origem, é assinar atestado de colonizado conformado e submisso às coisas importadas. E é demonstrar o nível de educação no qual a maioria ainda se encontra no país verde e amarelo. Comentário mais sem lógica, preconceituoso e sem qualquer inteligência. Chega a dar pena… Bravo Bianchi! Bravos todos os brasileiros que ainda acreditam em algo nesse país! Porque o dia em que isso deixar de acontecer… não gostaria de estar por aqui…

  3. André Felix disse:

    Eu gostei.
    Não tem o mesmo ritmo e esquemas narrativos do cinema americano e por isso mesmo é gostoso de assistir. Cansei da mesmice do cinema americano.

    E é interessante que a violência não é explícita como “Cidade de Deus” ou “Tropa de Elite”. Esse último eu nem quis assisti.

    A presença dos “inquilino” é aterrorizante e ameaçadora!
    Só que no meu caso quem faz barulho são os crentes. Às vezes a madrugada inteira, nas vigílias, com bateria e berros nos microfones, amplificados . Um pesadelo. Histeria coletiva total.

    Aqui onde eu moro os bandidos operam discretamente, no silêncio, sorrateiramente. Esse lado também dá medo. E se começar uma guerra ou disputa entre eles? A normalidade é apenas aparente.

  4. Welington Liberato disse:

    Vi o filme e concordo com a opinião do Calil. A propósito, gosto do Sérgio Bianchi (um cara que tem sempre algo a dizer e quer faz um cinema pensado, bem cuidado) quanto de Tarantino, um dos melhores diretores da atualidade……

  5. :: KNS (b)Log disse:

    […] Vale ou É por Quilo”, Sérgio Bianchi surpreende com “Os Inquilinos”. Recebido positivamente pela crítica, o filme promete ser um dos grandes títulos no ano. Vale a pena […]

Os comentários do texto estão encerrados.

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