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06/06/2010 - 23:12

Filme de shopping é novo gênero cinematográfico?

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Sessão curiosa neste domingo à tarde: “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, no Unibanco do Shopping Pompéia, em São Paulo. Das cerca de 50 pessoas na sala, umas 10 vão embora antes da metade do filme. Talvez seja a maior proporção de debandada que eu presenciei desde “Irreversível”, de Gaspar Noé, ou talvez “Saló”, do Pasolini. Mas não há nada de agressivamente sexual ou escatológico em “Viajo” – muito pelo contrário. É o que poderíamos chamar de um filme-poema, se a palavra poema não estivesse tão desgastada.

Será o caso de um filme certo no lugar errado? A princípio, não há lugar errado para o cinema – nem mesmo o shopping center. Mas acho que há uma parcela do público que acredita que existe um novo gênero cinematográfico: o filme de shopping. E que fica muito decepcionada se um filme não se encaixa nesse formato imaginário. O que provavelmente é o caso de “Viajo”.

Não acho que seja um filme difícil, muito menos radical. Não há um ator em cena, é verdade. Apenas uma narração ficcional de um personagem (Irandhir Santos) em torno de imagens documentais colhidas pelos diretores Marcelo Gomes e Karim Ainouz. De resto, é um road movie com começo, meio e fim. É um filme delicado, mas nunca hermético. As associações entre as paisagens percorridas e os estados emocionais do protagonista – da aridez à abundância, do desalento à esperança – são sempre límpidas.

Então por que um quinto dos espectadores foi embora da sessão? Suponho que elas entraram ali desavidadas. Queriam ver algum outro filme (“Homem de Ferro 2”, “O Príncipe da Pérsia”, “Alice no País das Maravilhas”?), não acharam ingresso e arriscaram o brasileiro com título curioso, romântico. Encontraram um filme muito distante da dieta a que estão acostumados, em que tudo já vem pronto, em que todas as perguntas têm uma resposta. Em vez de encararem o desafio, refugaram. Ou talvez eu esteja elaborando demais: simplesmente acharam o filme chato e cumpriram seu direito de ir embora. Perderam um dos finais mais bonitos do cinema recente.

Ao lado do epílogo, a cena mais tocante do filme é uma entrevista com uma dançarina que, em um sensacional neologismo, diz que sonha que uma “vida-lazer”. “Viajo” talvez não corresponda à idéia de “filme-lazer” daqueles que debandaram. Mas corresponde à minha.

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11 comentários para “Filme de shopping é novo gênero cinematográfico?”

  1. […] eu presenciei desde “Irreversível”, de Gaspar Noé, ou talvez “Saló”, . Continuar a Ler » « Piratas do Vale do Silício (1999) Os comentários estão abertos, mas os pings não […]

  2. Eva disse:

    Público q vê filme em shopping é tudo louco. Fui ver Alice no sábado, e tinha gente entrando no filme depois de quase uma hora, uma zona.

    Sobre o ‘Viajo…’, bem, o Bressane e a Ivana falaram q esse filme era chato… e hj era dia de jogo né?

  3. gilvas disse:

    é uma espiral louca em direção à absoluta mediocridade. estamos a caminho da realidade que o filme “o demolidor”, com stallone, bullock e snipes, mostra.

  4. Veronika disse:

    Assisti “Viajo porque preciso” na primeira semana de exibição, no Espaço Unibanco da Augusta, em São Paulo. A reação da plateia foi exatamente a mesma. Boa parte levantou e foi embora. Como o local é considerado reduto de cinéfilos que, teoricamente, tem uma bagagem cinematográfica de filmes “difíceis”, acho que o problema é do filme mesmo. Fiquei até o final mais por insistência do que por prazer.

  5. fábio disse:

    …………………………………………………………………………………………………
    …………………………………………………………………………………………………
    …………………………As vezes o problema está no,
    ……………………………………………”título”,
    …………………………………………..do filme.
    …………………………………………………………………………………………………
    ………………………………….Se ele mudasse prá..:
    …………………………………………………………………………………………………
    …………………….” Viajo por amor e volto por que preciso..”,
    …………………………………………………………………………………………………
    ……………………talvez o público já nem entrasse na sala.
    …………………………………………………………………………………………………
    ………………………….Já iam sacar que é robada na cérta,
    ………………………………e o filme teria só os “críticos”
    …………………………………………..como platéia.
    ………………………………………………………………………………………………..

    • Marco St. disse:

      Ok Fábio! Então tenho uma sugestão! Os filmes brasileiros poderiam copiar o já citado “Irreversible”. Começa do fim e termina no início! kkkkkkkkkkkkkkk

    • fábio disse:

      …………………………………………………………………………………………………
      …………………………………………Marco..!
      …………………………………………………………………………………………………
      ………………………….É,…pode ser uma saída……..!
      ………………………………………………………………………………………………..

  6. Marco St. disse:

    Pessoas que entram em uma sala de cinema sem ter a menor idéia do que irão ver, não faz muito sentido para mim. Porque entraram?? Pelo título do filme?? Cartaz?? Recomendação do primo?? Ator?? Diretor??
    E o blogueiro cita Irreversible aqui?? Eu assisti o filme em uma sala lotada, ninguém saiu no meio da projeção. Só haviam muitas outras pessoas querendo entrar na próxima sessão. Onde é que o blogueiro tá assitindo esses filmes??? Qual o Shopping?…

    • fábio disse:

      ………………………………………………………………………………………………..
      ……………………………………..Marco…?!
      ……………………………………………………………………………………………….
      …………………..Acho que o Calil quis dizer que
      …………………………………. shopping,
      …………………………….filmes Blóckbuster,
      ……………………………………consumo,
      ………………………………..gente “jóvem”,
      ………………………………………enfim,
      ………………………………………………………………………………………………..
      ……………essa apologia que a imprensa faz de Hollywood,
      ………………………………………………………………………………………………..
      ……………….acabou gerando um tipo de comportamento.
      ………………………………………………………………………………………………..
      ……………………….Eu também concordo com isso,
      ………………………………………….porém,
      ………………………………..ao mesmo tempo,
      ……..tem muito filme brasileiro que é CHATO logo de cara
      ……………………….e até ele começar a ficar bom,
      ……………………….as pessoas não tem paciência
      ………………………..e acabam caindo fóra antes.
      …………………………………………………………………………………………………
      ……………….Então,…róla uma mistura das duas coisas.
      ………………………………………………………………………………………………..
      …………A mentalidade shóppinguiniana e a chatice inicial
      ……………………………de várias óbras nacionais.
      …………………………………………………………………………………………………

  7. Katherine disse:

    Na minha opinião, esse tipo de “debandada” é resultado de algumas coisas, todas tristes.
    Tenho notado que as pessoas sentam na cadeira da sala de cinema sem procurar esvaziar a cabeça e se deixar apreciar o filme. Têm pressa, e enquadram tudo aquilo diferente de chato.
    Muitas também nem sequer lêem a sinopse ou procuram saber quem é o diretor. Conheço umas garotas que foram ver Nossa Música achando que era filme romântico.
    Outro dia fui ver Hadewijch e havia um grupo de mulheres sentadas ao meu lado. Ao invés de apreciarem o belíssimo (poderia ser filme-poema também) filme a sua frente, ficavam se preocupando se a personagem usava ou não sutian, a chamavam de louca só pq foi dormir sem roupas, esse tipo de coisa. Quando o filme acabou, soltaram um “já! oxe, que doidice” e riram como quem não entende quando alguém lhe fala em outra língua e só ri, em vez de dizer que não entendeu. E o filme não é difícil. Talvez as pessoas não compreendam mais a tranqüilidade como tempo narrativo.

  8. natal disse:

    Calil

    acho que estavamos na mesma sessão no Bourbon…e tbm estranhei a debandada do público, mas o filme é bom.

Os comentários do texto estão encerrados.

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