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Arquivo de agosto, 2010

31/08/2010 - 18:06

O “Avatar” do horário eleitoral gratuito

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Devo ser o último brasileiro a ter assistido ao horário eleitoral. Fiz isso no final da semana passada, e uma coisa me impressionou acima de tudo (além da já decantada proliferação de candidatos bizarros): a superioridade do programa de Dilma em relação ao de Serra e outros candidatos.

Não é uma afirmação ideológica (até porque meu voto para presidente no primeiro turno não vai para nenhum dos dois candidatos à frente das pesquisas). É uma constatação audiovisual.

A superioridade do programa do PT em relação aos outros é desproporcionalmente maior do que a diferença de orçamento de campanha entre o partido do governo e os de oposição. É a diferença entre “Avatar” e “400 Contra Um”, o profissional e o amador, o novo e o velho, o rico e o pobre.

O programa da Dilma é publicidade, publicidade bem produzida, com fotografia “cinematográfica”, gruas, travellings e tomadas aéreas. E histórias humanas bem narradas, na linha do “Gente que Faz”. Já o programa dos outros parece… programa eleitoral gratuito dos anos 80.

Naquela década de redemocratização, lembro que o PT fazia programas bons e baratos, sem grandes recursos, mas com criatividade. Hoje, quem deveria seguir esse modelo era o PV nos programas da Marina Silva – que, até onde sei, contam com a consultoria do Fernando Meirelles. Mas os programas de Marina, que deveriam sinalizar mudança, são mais do mesmo.

A impressão que fica é que o PT faz muito com muito, o PSDB faz pouco com muito, e o PV faz pouco com pouco.

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27/08/2010 - 09:50

A miséria está em falta no cinema brasileiro

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Conversa informal com um amigo cineasta. Ele conta que viajou ao interior do Piauí e Ceará para procurar locações para seu novo longa, um filme de época passado em um Nordeste miserável, na primeira metade do século passado. Ao chegar lá, ele se depara com um problema inédito: não há mais miséria para ser filmada.

Longe de qualquer capital, as cidades e vilarejos da região prosperaram de uns anos para cá, as casas estão menos precárias, as pessoas se sentem eufóricas, o pouco dinheiro que vêm ganhando fez enorme diferença em suas vidas.

O mesmo cineasta passou pela mesma região dez anos atrás. Disse que no passado era moleza arranjar uma locação com aparência miserável. Hoje essas cidades já não servem como cenário para seu filme. Ele vai ter que ir a lugares ainda mais inóspitos para conseguir filmar.

Deve ser por isso que o Serra usa uma favela cenográfica em seu programa. Mas o horário eleitoral gratuito é outro assunto – e eu voltarei a ele no próximo post.

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23/08/2010 - 21:44

Cinema brasileiro sofre mais uma baixa

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Antes de um debate na Bienal do Livro de São Paulo, no último sábado, o cineasta Ivan Cardoso me confessou: desistiu do cinema. Jogou a toalha. Parou de vez. Ao longo do debate – com a diretora Laís Bodanzky, o roteirista Luiz Bolognesi e o secretário do Audiovisual Newton Cannito -, não escondou sua amargura com o estado das coisas. Reclamou das dificuldades de produção no esquema das leis de incentivo e dos editais, protestou contra a influência da TV nos filmes brasileiros, , lamentou a impopularidade do velho cinema popular, atacou – de forma agressiva e muitas vezes gratuita – os outros participantes do debate como representantes do status quo.

Com 57 anos, Cardoso tem em seu currículo alguns grandes sucessos, como “As Sete Vampiras” e “O Segredo da Múmia”, misturando horror e comédia num gênero que batizou de “terrir”. Mas seu último filme, “O Lobisomem da Amazônia”, produzido por Diler Trindade com leis de incentivo, foi finalizado em 2005, estreou apenas em 2009 e sumiu dos cinemas sem deixar vestígios. Ele diz que tem outro filme pronto, mas que não faz nem questão de tentar lançá-lo. “Todos nossos grandes cineastas estão mortos”, ele disse no debate. Mas em seguida abriu algumas exceções, para Julio Bressane e José Mojica Marins, por exemplo.

A confissão da desistência de Cardoso vem se somar a uma notícia que o crítico Inacio Araújo deu no seu blog algum tempo atrás, sobre a decisão de Andrea Tonnacci de fechar sua produtora, apenas um ano depois de lançar “Serras da Desordem”, uma das poucas obras-primas recentes do cinema brasileiro.

São dois nomes associados ao chamado “cinema marginal”, dois sobreviventes de uma fase riquíssima do cinema brasileiro. Antes eles podiam dizer que estavam à margem do cinema oficial. Hoje nem isso.

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20/08/2010 - 22:46

“Tá Rindo do Quê?” prova cegueira das distribuidoras

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Zapeando a TV, trombo com “Tá Rindo do Quê?” ainda no começo, no Telecine Pipoca. E o filme – que nunca foi lançado nos cinemas brasileiros – desce fácil até o final. O que me leva a pergunta básica: o que há de errado com as distribuidoras do país? Como um filme desses sai diretamente em DVD? Não, dessa vez não tem a desculpa de que é um filme de uma cinematografia distante, de um diretor de nome impronunciável (o que, para deixar bem claro, nunca foi desculpa para mim).

É o mais recente filme dirigido por Judd Apatow (“O Virgem de 40 Anos”, “Ligeiramente Grávidos”), o cara que mais ajudou a renovar a comédia americana nos últimos anos. Os protagonistas são Adam Sandler e Seth Rogen, dois dos comediantes mais bem-sucedidos da atualidade – naquele velho quesito que interessa ao “mercado”, a bilheteria.

Será que tem algo a ver com o tema “pesado”? Um astro do cinema e do stand up (Sandler) que descobre ter uma doença incurável e que contrata como assistente um comediante novato (Rogen) e que se reencontra com o amor de sua juventude (a fantástica Leslie Mann, mulher de Apatow na vida real). Não deve ser, porque o filme ainda é essencialmente uma comédia, que nunca chega a se concretizar como tragédia.

Então é porque se trata de um mau filme? Muito longe disso. A primeira parte é brilhante, à altura do melhor de Apatow. E mesmo a segunda parte tem grandes momentos, em especial as interações entre Sandler e Mann. É um filme que consegue ser tocante sem ser vulgarmente sentimental.

Será que a explicação é o fracasso na bilheteria americana? Não. Apesar de não ter feito o mesmo sucesso que trabalhos anteriores de Apatow, o filme estreou em primeiro lugar nas bilheterias americanos e teve um resultado final digno.

O que nos leva à conclusão que é um caso clássico de cegueira das distribuidoras.

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19/08/2010 - 12:19

E se não houvesse mais “filmes de favela”?

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Uma das reclamações mais comuns dos leitores deste blog contra o cinema brasileiro é o excesso de filmes sobre favelas, sejam dramas ou documentários. Pessoalmente, acho que esse deve ser um dos menores problemas da nossa cinematografia. De qualquer forma, quem pensa assim vai se divertir com a “notícia” do blog do “The Piaui Herald”, da revista “piauí”, com o título: “Cineastas protestam contra pacificação de favelas”.

“Cerca de trezentos profissionais de cinema interromperam hoje o trânsito da Visconde de Pirajá para protestar contra a expansão das Unidades de Polícia Pacificadora pelas favelas do Rio de Janeiro. ‘A medida está devastando o nosso mercado de trabalho’, disse o diretor Eduardinho Botelho. (…) Botelho comoveu-se ao se lembrar de três cinegrafistas, cinco roteiristas, três diretores de elenco e vinte e sete produtores de efeitos especiais despejados de suas residências nos últimos trinta dias por não conseguirem pagar o aluguel. ‘Dramas candentes sobre a tragédia social das favelas cariocas respondem por 87% dos filmes produzidos no Brasil’, alertou Botelho, ‘se essas comunidades se transformam em cenários de novela das 7, que histórias iremos contar?’ ”

O “Piauí Herald” tem se tornado uma das melhores noticiários da internet brasileira. Tenho certeza de que muita gente gostaria que algumas de suas matérias – como essa dos filmes de favela – fossem verdadeiras.

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18/08/2010 - 21:25

Comerciais de moda “roubam” diretores do cinema

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“David Lynch dirige a bela Marion Cotillard em um thriller romântico ambientado na antiga Xangai”. Ou: “Na sua última vez atrás das câmeras, Dennis Hopper dirige Gwyneth Paltrow em um passeio por Roma inspirado em Antonioni”. Ou ainda: “O diretor Jean-Pierre Jeunet e a atriz Audrey Tautou, de ‘O Fabuloso Destino de Amelie Poulain’, voltam a trabalhar juntos, desta vez em uma história de amor ao estilo de ‘Desencanto’ que vai te deixar grudado na cadeira”.

Você, cinéfilo, gostaria de ver esses filmes? Como mostra a reportagem da revista eletrônica “Slate”, eles já foram feitos. Mas são “filmes publicitários”, termo bonito para se referir aos velhos comerciais. E são, mais especificamente, comerciais de roupas, acessórios e perfumes. Uma tendência que ganhou força nos últimos anos e tem atraído, possivelmente com quantidades generosas de dinheiro, alguns dos diretores e atrizes mais importantes do cinema atual.

Nada contra, claro. Até cineastas milionários têm que pagar suas contas. Mas, se eu pudesse escolher, preferia que David Lynch estivesse se dedicando a outro longa de ficção (já que seu último, “Império dos Sonhos”, foi lançado há quatro anos) e não uma propaganda de bolsa. Ou que Dennis Hopper tivesse deixado como testamento um filme que não fosse publicitário. Isto posto, alguns desses comerciais são mais “cinematográficos” do que certos filmes que vi recentemente.

Abaixo, uma pequena seleção dos comerciais de moda, começando pela primeira parte de “Lady Blue Shangai”, que David Lynch fez para vender a bolsa Lady Dior:

Agora o francês Olivier Dahan, de “Piaf”, tenta vender o mesmo acessório:

Por film, comercial do perfume Chanel 5 por Jean Pierre Jeunet:

Para ver outros exemplos de comerciais de moda dirigidos por grandes cineastas, clique aqui.

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09/08/2010 - 23:15

“400 Contra 1” ilustra paradoxos do cinema brasileiro

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“400 Contra 1” tem inúmeros problemas. A ponto de o filme de Caco de Souza soar como uma comédia involuntária em determinados momentos. Mas, a meu ver, um problema central se destaca entre outros tantos secundários: faltou um produtor para mexer no resultado final.

Na hora em que o desastre se anunciou (provavelmente o momento da montagem), alguém precisava dizer: para tudo! Vamos contratar um Bráulio Mantovani para fazer um novo roteiro a partir do material filmado que se salva, criar uma narração em off sofisticada para o protagonista, simplificar o vaivém da narrativa no tempo e no espaço, enxugar a duração.

Mas tudo foi feito ao contrário: já que o filme não “montava”, o diretor Caco de Souza partiu para a solução fácil de usar uma musiquinha a cada 5 minutos, recurso repetitivo que só acentuou as deficiências de seu trabalho; a narração em off do protagonista tenta explicar a trama, mas varia entre o óbvio e o confuso; a narrativa é desnecessariamente intrincada; a duração, excessiva.

No final das contas, “400 Contra 1” ilustra um paradoxo do cinema brasileiro atual: muitos filmes têm uma proposta comercial, mas poucos seguem uma lógica comercial. Ou seja, são filmes com um desejo de comunicação com um público amplo, com valores de produção vistosos, com protagonistas globais. Mas cujos erros e acertos estão ainda muito concentrados nas mãos do diretor. Para um tipo de cinema que se quer industrial, o processo ainda é muito solitário.

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04/08/2010 - 21:17

“Toy Story 3” é uma metáfora do Holocausto?

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“Toy Story 3” já está em cartaz há um bom tempo. Mas hoje eu trombei com uma análise curiosa do filme e achei que valia a pena voltar a falar novamente sobre ele. Primeiro, eu vi um artigo do jornal “New York Post” interpretando a história como uma metáfora do Holocausto. Depois, percebi que a tese se repetia em várias críticas. Até que cheguei ao texto com a idéia original, escrito por Jordan Hoffman para o site UGO.

“Os chocantes paralelos com o Holocausto em ‘Toy Story 3’ começam momentos depois da sequência inicial. (…) O trem de gado surge na forma de um horrível saco de lixo – mas os brinquedos não vão direto para o extermínio. Eles permanecem vivos e são colocados ‘para trabalhar’ num orfanato. Os novatos são humilhados e abusados até serem jogados numa lata de lixo, que leva a um crematório”, compara Hoffman.

Mas aí eu percebo que o autor também fez uma interpretação marxista de “Toy Story 3”, outra existencialista e uma última religiosa. Portanto, a interpretação “sionista” do filme não passava de uma brincadeira – que foi levada a sério e copiada por dezenos de outros jornalistas.

A história me pareceu um pequeno exemplo de como a crítica pode se tornar um exercício de malabarismo intelectual. Ou, por outro lado, de plágio puro e simples.

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02/08/2010 - 22:19

Cinema brasileiro se distancia dos grandes festivais

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A bola foi bem levantada por Eduardo Valente, crítico (Cinética) e cineasta (“No Meu Lugar”), no Facebook: o cinema brasileiro não compete na mostra principal dos três mais prestigiados festivais do mundo (Cannes, Berlim e Veneza) nas últimas cinco edições dos eventos.

Na ponta oposta da questão, não consegue emplacar um projeto consistente de cinemão, dependendo sempre de um ou dois sucessos de bilheteria, enquanto outros “filmes de mercado” morrem na praia. Sem falar que estamos ausentes do Oscar, obsessão de alguns de nossos produtores, há sete anos – desde as quatro indicações para “Cidade de Deus”.

Há motivos, desculpas, atenuantes para tudo. No Facebook de Valente, o cineasta Carlos Reichenbach (“Falsa Loura”) aponta, por exemplo, para a falta de ousadia das curadorias dos grandes festivais. Mas é difícil sair dessa discussão sem a sensação de que estamos falhando em construir qualquer base para um projeto de cinema.

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