Publicidade

Publicidade

Arquivo de setembro, 2010

30/09/2010 - 11:43

Com Tony Curtis, morre uma era de Hollywood

Compartilhe: Twitter

A notícia da morte de Tony Curtis é daquelas que nos pega de surpresa. É duro admitir, mas meu primeiro pensamento foi: “Ué, mas ele já não estava morto?”. Talvez para disfarçar minha ignorância, tenho que elaborar uma tese sobre o ato falho: Curtis parecia morto porque ele foi um dos grandes símbolos de uma era de Hollywood que, esta sim, está mortíssima.

Um símbolo de talento, graça e beleza. Um galã que nunca teve medo de jogar contra a imagem de galã. A prova mais memorável é “Quanto Mais Quente Melhor”, simplesmente a melhor comédia de todos os tempos, em que Tony Curtis e Jack Lemmon se travestem de mulher para fugir da máfia. E, no intervalo, Curtis ainda se passa por milionário para conquistar Marilyn Monroe. Não são tantos atores assim que conseguem ser um comediante sofisticado e um sedutor clássico no mesmo filme. É uma das provas da versatilidade de Curtis. Algumas outras: “A Embriaguez do Sucesso”, “Spartacus”, “Acorrentados”, “O Homem que Odiava as Mulheres”. Uma carreira sólida e digna, apesar dos muitos problemas com álcool, cocaína, divórcios e a morte de um filho por overdose.

Apesar de ser um ícone da era de ouro de Hollywood, Curtis nunca levou um Oscar – talvez porque não souberam enxergá-lo por trás do galã. Uma injustiça que uma estatueta póstuma não poderá corrigir.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/09/2010 - 16:09

Arthur Penn revolucionou o cinema americano

Compartilhe: Twitter

Arthur Penn teve uma carreira de sucesso na televisão, no teatro e no cinema. Há quem diga até que ele mudou o curso da história mundial, ao dar conselhos para John F. Kennedy nos debates televisivos contra Richard Nixon pela presidência americana em 1960. Coisas simples, que hoje são regra, como olhe direto para a câmera e dê frases curtas e incisivas. Mas que ajudaram a fixar o contraste de Kennedy em relação ao prolixo e evasivo Nixon.

Mas se Penn – que morreu nesta terça-feira, aos 88 anos – tivesse feito apenas “Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas” (1967) sua passagem pela Terra já estaria mais do que justificada. Este foi o filme que importou para o cinema americano a sensibilidade e a liberdade da nouvelle vague francesa (aliás, o primeiro nome a ser cogitado pelo astro Warren Beatty para dirigir o filme foi o de François Truffaut).

Depois da recusa do francês, Penn também relutou, ressabiado com alguns fracassos anteriores no cinema. Mas decidiu aceitar quando Beatty lhe garantiu o corte final do filme. Isso permitiu a Penn fazer um filme com uma carga de sexualidade e violência até então inéditos no cinema americano, sem falar na sua absoluta liberdade narrativa.

O sucesso de “Bonnie & Clyde” deu um norte para o combalido cinema americano da época, abalado pelo fim do sistema de estúdios. E abriu as portas para outros jovens cineastas criarem filmes autorais. Nomes como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Robert Altman, Dennis Hopper, Terrence Malick, Bob Rafelson, Mike Nichols, Hal Ashby. Uma turma muito bem retratada no livro “Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood”, de Peter Biskind.

Foi uma das melhores épocas do cinema americano, talvez a mais livre de todas. E só foi possível graças a “Bonnie & Clyde”. Depois, com o advento de blockbusters como “Tubarão” (1975) e “Star Wars” (1977), o cinema comercial foi encaretando lenta e decisivamente, nos EUA e no mundo, e os filmes pequenos e sofisticados de Penn e outros foram perdendo espaço.

O cineasta americano fez belos filmes antes e depois de “Bonnie & Clyde”, como “O Milagre de Anne Sullivan” (1962) e “Pequeno Grande Homem” (1970). Também teve uma trajetória relevante em televisão e teatro. Mas o reconhecimento a sua obra nunca chegou perto ao de “Uma Rajada de Balas”. Seu último trabalho lançado no cinema foi “Inside” (1996). O fato de ele ter ficado 14 anos sem dirigir um filme, mesmo que em boas condições de saúde, é bastante sintomático das mudanças do cinema americano.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/09/2010 - 21:51

Os documentários brasileiros vão bem, obrigado

Compartilhe: Twitter

Dois filmes em cartaz em São Paulo confirmam o bom momento do documentário brasileiro: “Terras”, de Maya Da-Rin, e “Cildo”, de Gustavo Moura. Não há parentesco temático entre eles. O primeiro vai até a fronteira tríplice entre Brasil, Colômbia e Peru para registrar o cotidiano dos moradores das cidades gêmeas Letícia e Tabatinga, em meio à floresta amazônica. O segundo se detém sobre o processo criativo do artista plástico carioca Cildo Meireles.

Mas algumas das virtudes dos filmes são parecidas. Os dois têm uma visão “de dentro para fora”. Em “Terras”, falam apenas os moradores das duas cidades. Em “Cildo”, só o artista retratado. Não há especialistas ou autoridades analisando os universos abordados. Assim, rejeitam-se vários “ismos” de uma só vez: o didatismo, o psicologismo ou o sociologismo.

No lugar deles, há uma tentativa de transmitir a experiência de se estar naquela fronteira amazônica ou dentro de uma instalação de Cildo. Para tanto, o essencial é dar tempo para ajustar-se ao ritmo das pessoas do lugar ou do processo do artista, é ouvir com atenção os ruídos da floresta ou da obra de arte. “Terras”, por sinal, tem o mais impressionante trabalho de captação e edição de som de um documentário brasileiro recente.

Os dois filmes deixam a boa sensação de que os documentários brasileiros vêm aprendendo a se afastar do jornalismo para se afirmar simplesmente como cinema.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/09/2010 - 21:43

Oscar não vale o mico que pagamos

Compartilhe: Twitter

Ok, esse papo de que “Lula – O Filho do Brasil” foi escolhido como representante do Brasil no Oscar por ter mais chances de ser indicado é muito bacana e válido e coisa e tal (embora também muito discutível). Mas a questão que se coloca é outra: será que em algum momento conseguiremos produzir um filme com chances no Oscar do qual possamos nos orgulhar?

Porque vamos convir: sob quase todos os aspectos que se encare o problema e com todo o respeito aos bons profissionais que nele trabalharam, “Lula – O Filho do Brasil” é um filme de segunda (se o personagem biografado, talvez hagiografado, é de primeira ou não é uma outra questão, completamente diferente).

Um fracasso de público (se levarmos em conta que ele teve um décimo dos espectadores previsto pelo produtor), uma quase unanimidade negativa de crítica, um trabalho cujo timing e implicação política é, no mínimo, questionável (embora minha tendência não-conspiratória seja achar que seu lançamento e sua escolha para o Oscar tenham influência desprezível no desenrolar das eleições, até pelo próprio fracasso do filme).

Eu olho para alguns dos últimos vencedores do Oscar de filme estrangeiro e me parece que quase todos eles conseguiram ser ao mesmo tempo merecedores da cobiçada estatueta E obras de arte dignas.

“O Segredo de Seus Olhos”, “A Partida” e “A Vida dos Outros” são belos trabalhos que não precisaram se adequar a supostos padrões temáticos da Academia – como uma história de superação ou um protagonista famoso. Dificilmente alguém encontrará algum parentesco entre esses vencedores do Oscar e “Lula – O Filho do Brasil”.

Em resumo: já que a premiação americana parece ser uma obsessão incontornável para uma parcela de nossos produtores e espectadores, será que ao menos a gente podia não pagar mico?

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
21/09/2010 - 08:27

Um tributo a Bill Murray

Compartilhe: Twitter

Que Bienal de São Paulo, que nada. A exposição que eu realmente gostaria é mais modesta e está muito mais distante: “Mr. Bill Murray”, na R&R Gallery, de Los Angeles. É isso mesmo que você está pensando: uma exposição dedicada ao grande comediante americano, que completa 60 anos nesta terça-feira, com 50 obras inspiradas em sua vida e obra. Por que Bill Murray? “Porque ele é o cara mais fodão do mundo”, responde o curador C.W. Mihlberger, com uma frase que talvez fosse classificada como “naif” por seus colegas de profissão. “Por que não?”, completa Mark James Yamamamoto, o outro curador.

Para mim, os argumentos são suficientes. Murray é o maior comediante americano em atividade (embora, de uns anos para cá, em baixíssima atividade). E olha que a comédia americana vive uma grande fase, com talentos como Will Ferrell, Steve Carrell e Jack Black. Mas, para arrancar uma risada, esses caras precisam mexer absolutamente todos os músculos de seus corpos. Murry só tem que levantar uma sombrancelha.

Ok, talvez seja pouco para justificar uma exposição. Então a rara – e ótima – entrevista que Murray concedeu à “GQ” no mês passado ajuda a lhe dar um sentido. Como escreve Dan Fieraman, “a vida toda dele é uma obra de arte performática – feita para o público de uma única pessoa”, o próprio Murray. O ator nunca quis jogar o jogo hollywoodiano: não tem agente, não doura a pílula em suas declarações sobre seus colegas, tem apenas um telefone 0800 onde as pessoas deixam recados com convites para filmes – no caso raro de interessá-lo, ele liga de volta.

No final da entrevista, ele confirma um dos muitos boatos que circulam sobre seu comportamento. Durante muitos anos, ele chegava por trás de desconhecidos em Nova York, tapava seus olhos e desafiava: “Adivinha quem é”. Quando o sujeito reconhecia Murray, ele terminava dizendo: “Ninguém jamais vai acreditar em você”. Difícil algum artista da Bienal superar essa.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
17/09/2010 - 15:20

Relembrando Paulinho Machado de Carvalho

Compartilhe: Twitter

Nesta semana, morreu Paulinho Machado de Carvalho, diretor da TV Record entre os anos 50 e 80. Como disse em um texto para a “Folha de S. Paulo”, ele foi um dos grandes empresários de comunicação do país, mas teve também uma importância fundamental para a música brasileira. Nos anos 60, ele reconheceu o potencial artístico – e por que não, o comercial também – da geração pós-bossa nova que seria a base da MPB. Reservou os horários mais nobres de sua emissora, então a de maior audiência do Brasil, para programas comandados por Elis Regina e Jair Rodrigues, Roberto e Erasmo Carlos, Wilson Simonal e muitos outros. Deu espaço para o produtor Solano Ribeiro criar os melhores festivais da canção da história da TV brasileira.

Foi sobre este último tema que girou uma entrevista com Paulinho Machado de Carvalho registrada em dezembro de 2008 pelo documentário “Uma Noite em 67” (dirigido por Renato Terra e por mim). No filme, Paulinho relembra com lucidez impressionante alguns episódios espetaculares – como a vez em que deu banho e vestiu um Gilberto Gil em pânico para convencê-lo a cantar “Domingo no Parque” na eliminatória do festival da Record de 67. Mas, como é comum em entrevistas para documentários, muita coisa boa ficou de fora.

Em homenagem a Paulinho, o site Era dos Festivais disponibilizou a entrevista completa feita para o documentário. Ali ele conta histórias incríveis, como o empate arranjado entre “A Banda” e “Disparada” no festival de 66, por sugestão de Chico Buarque; ou os contratos assinados em branco pelos artistas da Record, pela confiança com a casa na época.

Na última pergunta, ele conclui: “Uma vez eu estava assistindo um jogo de futebol com o Cassiano Gabus Mendes, filho do grande Otávio Gabus Mendes, e ele falou: ‘Ô Paulinho, o que vocês conseguiram na Record é um negócio difícil, viu? Porque a Record não é uma estação de rádio, vocês são um estado de espírito.’ E é verdade. Essa definição muita gente não entende, mas é verdade. Havia torcida para que tudo desse certo.”

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/09/2010 - 10:36

O Blu-Ray é perfeito demais?

Compartilhe: Twitter

Confesso que, até outro dia, eu não havia visto um filme em Blu-ray. Mas um amigo entusiasmado veio me mostrar uma cópia recém-comprada de “Rastros de Ódio”, de John Ford, um dos filmes preferidos de ambos. Enquanto ele elogiava as maravilhas do sistema, o inacreditável nível de detalhes, a possibilidade de ver expressões dos atores nunca notadas, eu ficava pensando comigo em silêncio: “Por que será que eu não estou gostando? Não parece um filme, parece uma holografia (com as figuras se destacando do cenário). É artificial. Ou hiperreal.”

Hoje, vasculhando a internet, descobri com alívio que não estou sozinho. No blog de cinema do jornal britânico “The Guardian”, Shane Danielsen revelou um incômodo parecido ao ver o Blu-ray de “Psicose”, de Alfred Hitchcock, no qual podia ver até os detalhes da maquiagem do ator Robert Balsam em um close-up.

Para ele, o Blu-ray sofre de “excesso de clareza”. Ele cita o caso do “Guerra dos Mundos” (1953) original, em que podem ser vistos os fios que seguram as naves marcianas em quase todas as cenas. “Eu defendo a qualidade da imagem, mas não gosto de saber como o mágico faz o truque. Momentos como esse – em que a máscara cai e o mecanismo que move a ilusão é revelado – nos tiram do filme e nos levam para o mundo da técnica. Eles são inimigos da narrativa.”

Por outro lado, Danielsen aponta que filmes recentes – uma animação como “Wall-E”, por exemplo – ficam perfeitos em Blu-ray. Algo que não tive a chance de ver. Mas, para a maioria dos filmes antigos, o velho e bom DVD ainda funciona melhor.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
13/09/2010 - 09:46

Chabrol fará falta ao presente do cinema francês

Compartilhe: Twitter

Com a morte de Claude Chabrol, os jornais se apressaram a lamentar a perda do pioneiro da Nouvelle Vague, de mais um grande representante do passado glorioso do cinema francês. A mim, a perda maior parece ser a do cineasta vital do presente.

Certo, Chabrol realmente teve o privilégio de lançar o filme que inaugurou “oficialmente” a Nouvelle Vague, “Nas Garras do Vício” (1958). E, nos 10 ou 15 anos seguintes, dirigiu os trabalhos que sedimentaram sua fama: “Os Primos” (1959) e “O Açougueiro” (1969).

Mas a derradeira década de sua obra não deve nada a nenhum momento anterior. De quantos cineastas longevos se pode dizer isso? Seus últimos filmes estiveram, a meu ver, sempre entre os melhores lançados em seus respectivos anos.

Filmes como “Uma Garota Dividida em Dois” (2007), “A Comédia do Poder” (2006), “A Dama de Honra” (2004) e “A Teia de Chocolate” (2000) revelam um cineasta no auge da sua forma.

Um artista com um estilo bem definido – uma releitura particular do suspense de Hitchcock, somada a uma crítica da burguesia francesa que pode ter sido herdada de Renoir -, mas nunca conformado, sempre contundente. Aos 80 anos, ele era ainda um dos mais relevantes cineastas em atividade na França, alguém com algo fundamental a dizer sobre seu país e o cinema.

Chabrol não deixará apenas saudades para os fãs do grande cinema francês. Fará muito falta para aquela cinematografia hoje.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
09/09/2010 - 22:56

Mimo de Olinda se une aos grandes festivais do país

Compartilhe: Twitter

Existe uma certa inflação de festivais no Brasil. Mas poucos são essenciais. A Mimo (Mostra Internacional de Música em Olinda) se tornou rapidamente um deles. O evento reúne vários ingredientes que fazem a diferença: boa programação gratuita, o que democratiza o acesso à cultura; organização competente; espaço para a reflexão e, a formação do público – e, talvez mais importante, uma personalidade.

No caso de Olinda, isso vem da geografia, da arquitetura, da história e dos moradores da cidade pernambucana. O evento vira uma festa popular voltada para uma cultura não vista tradicionalmente como popular. Lembra outros belos festivais em cidades coloniais: os de cinema de Tiradentes e Ouro Preto, em Minas, e a Flip de Parati.

Na Mimo deste ano, que aconteceu de 1 a 7 deste mês e chegou também a Recife e João Pessoa nessa sétima edição, eu tive o prazer de ver o grande pianista americano de jazz McCoy Tyner tocar, no auge de seus 72 anos, na belíssima e histórica igreja da Sé, cujo entorno é um dos lugares mais bonitos do Brasil, com sua vista para o Recife. Na sequência, havia um show ao ar livre de Tom Zé, na não menos imponente Praça do Carmo. E isso foi só um exemplo do que o festival ofereceu.

Neste ano, a Mimo ainda contou com sua primeira mostra paralela de cinema, com nada menos do que 28 filmes dedicados à música. Numa cidade com pouca oferta de cinema, o público lotou as sessões no Mercado da Ribeira e agüentou até as fortes rajadas de vento no Alto da Sé para não sair no meio de um filme.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Voltar ao topo