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17/09/2010 - 15:20

Relembrando Paulinho Machado de Carvalho

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Nesta semana, morreu Paulinho Machado de Carvalho, diretor da TV Record entre os anos 50 e 80. Como disse em um texto para a “Folha de S. Paulo”, ele foi um dos grandes empresários de comunicação do país, mas teve também uma importância fundamental para a música brasileira. Nos anos 60, ele reconheceu o potencial artístico – e por que não, o comercial também – da geração pós-bossa nova que seria a base da MPB. Reservou os horários mais nobres de sua emissora, então a de maior audiência do Brasil, para programas comandados por Elis Regina e Jair Rodrigues, Roberto e Erasmo Carlos, Wilson Simonal e muitos outros. Deu espaço para o produtor Solano Ribeiro criar os melhores festivais da canção da história da TV brasileira.

Foi sobre este último tema que girou uma entrevista com Paulinho Machado de Carvalho registrada em dezembro de 2008 pelo documentário “Uma Noite em 67” (dirigido por Renato Terra e por mim). No filme, Paulinho relembra com lucidez impressionante alguns episódios espetaculares – como a vez em que deu banho e vestiu um Gilberto Gil em pânico para convencê-lo a cantar “Domingo no Parque” na eliminatória do festival da Record de 67. Mas, como é comum em entrevistas para documentários, muita coisa boa ficou de fora.

Em homenagem a Paulinho, o site Era dos Festivais disponibilizou a entrevista completa feita para o documentário. Ali ele conta histórias incríveis, como o empate arranjado entre “A Banda” e “Disparada” no festival de 66, por sugestão de Chico Buarque; ou os contratos assinados em branco pelos artistas da Record, pela confiança com a casa na época.

Na última pergunta, ele conclui: “Uma vez eu estava assistindo um jogo de futebol com o Cassiano Gabus Mendes, filho do grande Otávio Gabus Mendes, e ele falou: ‘Ô Paulinho, o que vocês conseguiram na Record é um negócio difícil, viu? Porque a Record não é uma estação de rádio, vocês são um estado de espírito.’ E é verdade. Essa definição muita gente não entende, mas é verdade. Havia torcida para que tudo desse certo.”

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1 comentário para “Relembrando Paulinho Machado de Carvalho”

  1. Franklin Oliveira Jr. disse:

    O filme “67” e minhas memórias da era dos festivais

    Nos anos 60 eu, um praticante inveterado do rock, descobri que existia uma música “mais séria”, e que chamavam “musica popular brasileira”. Estávamos então no clima dos festivais de musica. Estes reproduziam o esquema de programas de auditório que eram usados nas rádios desde a década anterior com suas torcidas(tais como as de “Emilinha” e Marlene)e eram organizados pelas TVs Excelsior, Record e Globo. As duas primeiras fizeram festivais da MPB e a última, além destes, o Festival Internacional da Canção. A Excelsior começaria, sendo desbancada pela Record, que sua vez perderia para a Globo.

    O pano de fundo dos festivais eram a ditadura militar e a crescente indústria cultural onde ocupava boa parte do cenário musical uma “musica jovem” identificada com o rock, e disputando com aquela, restrita a quase que somente ao pequeno público universitário.

    A “MPB” de então, era um mix onde cabia a bossa nova, canções, um samba estilizado, hinos de protesto e gêneros regionais que ascendiam á cena musical nacional. A esquerda tradicional tinha preferência pelo samba estilizado(em função do seu conteúdo popular)ou pelas chamadas “musicas engajadas”. Os românticos ou alienados como eu, adotavam o ponto de vista da arte pela arte, submetendo a letra á melodia.

    Acompanhei pela TV o primeiro festival, realizado pela Excelsior em 1965. No entanto não gostei da musica que ganhou, Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, cantada por Elis Regina. Mas, enquanto os compositores reforçavam a religião dos pescadores Gilberto Gil fazia a critica ao conformismo religioso através de Procissão, onde tinha trechos como:

    As pessoas que nela vão passando
    acreditam nas coisas lá do céu.
    As mulheres cantando tiram versos
    e os homens escutando tiram o chapéu,
    eles vivem penando aqui na terra
    esperando o que Jesus prometeu(…)

    Eu também estou do lado de Jesus
    Mas que acho que ele se esqueceu
    de dizer que na terra agente tem
    de arranjar um jeitinho pra viver(…)

    Entra ano, sai ano e nada vem
    e o sertão continua ao Deus dará
    mas se existe um Jesus no firmamento
    na terra isso tem que se acabar.

    Nenhuma das duas músicas faria a minha cabeça, ao contrário da romântica Eu só queria ser(Vera Brasil e Mirian Ribeiro) que, embora possuísse uma letra comum, apresentava uma bela melodia cantada pela esplêndida Claudete Soares.

    A partir de 1966 os festivais tornaram-se uma febre, particularmente o da Record. Nesse ano minha família havia me matriculado no Instituto Valença, acho que com medo que eu levasse três anos em cada ano do Colegial, como havia ocorrido no primeiro ano. Numa fábrica…, quero dizer, em um novo colégio, passei a me dar bem logrando aprovação direta no segundo e terceiro ano de contabilidade.

    A televisão passou a ser o centro das nossas atenções. Assistíamos tudo por ela. No que concerne aos festivais haviam sessões de classificação das músicas e uma grande final. Nesse ano na TV Excelsior ganharia, para a minha satisfação, a musica engajada Porta estandarte(Fernando Lona e Geraldo Vandré) unificando esquerda e românticos, devido a apresentar uma bela melodia juntando protesto e qualidade musical.

    Eu vou levando a minha vida enfim
    cantando e canto sim,
    e não cantava se não fosse assim
    levando pra quem me ouvir
    certezas e esperanças pra trocar
    por dores e tristezas que bem sei
    um dia ainda vão findar.

    Um dia que vem vindo
    e eu vivo pra cantar
    na avenida girando
    estandarte na mão
    pra anunciar.

    Neste ano, na TV Record, as coisas ganham evidente dicotomia com as músicas A banda(Chico Buarque) e Disparada(Geraldo Vandré e Theo de Barros). Na ocasião se colocaram duas visões estéticas, a que apontava uma atitude de ficar “pra ver a banda passar” cantando coisas de amor, e a que afirmava que “a morte, o destino, tudo estava fora de lugar” e que nós vivíamos pra consertar. Que mostrava a diferença de comportamento entre boiada e gente. Lembro da torcida que fiz para a primeira, cantada por Jair Rodrigues e da emoção quando soube que o vencedor do festival Chico Buarque foi chorando exigir do júri o empate desta musica com a sua.

    A solução conciliadora, entretanto, não pode mais ser adotada nos próximos anos que veriam, também no cenário poético-musical, uma polarização crescente, até seu desfecho em 1968, no FIC, com a disputa entre Sabiá(Chico Buarque e Tom Jobim) e Pra no dizer que não falei de flores(Geraldo Vandré). Quanto aos FICs não acompanharia o de 1966 (levado ao ar quase ao mesmo tempo em que o da Record), mas os três últimos.

    No filme Uma noite em 67 o próprio Chico Buarque reconhece a situação. Confessa que ele, Edu Lobo e outros da MPB teriam virado uma espécie de clones do velho e do bom mocismo, enquanto os tropicalistas e o rock, para Caetano, “assumiam a cultura massificada”. Para Edu “eles ficaram mais jovens do que nós”.

    Na busca do novo público que então ascendia ao consumo cultural os tropicalistas trouxeram uma versão mais elaborada de musica jovem, incorporando a realidade ao seu discurso musical, seja a que se expressava na vanguarda do rock internacional, seja a da participação politica da juventude brasileira, exprimida em boa parte dos casos pelo tratamento inovador dado por arranjadores e compositores como Rogerio Duprat, Júlio Medaglia e Damiano Cozzela.

    A polarização se iniciaria em 1967. Na ocasião eu,(profundamente alheio a esse pano de fundo) não mudaria meus conceitos. Durante o FIC vibraria com a música Travessia de Milton Nascimento e Fernando Brandt, que ficaria apenas em segundo lugar, perdendo para Gutemberg Guarabira. Chico Buarque concorreria com Carolina obtendo um modesto terceiro lugar, mas consagrando na leitura de esquerda da época uma postura de “quem fica na janela vendo o tempo passar”.

    Mas a sensação mesmo estava guardada para o festival da Record que passou a ser o principal palco de disputa dos artistas. Neste ano havia ficado impressionado com o álbum dos Beatles Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band. Para mim aquilo parecia ser o máximo em matéria musical. Estávamos ás vésperas das megamanifestações estudantis e do início da montagem da guerrilha urbana.

    Peço licença ao leitor para fazer outro parênteses sobre esta situação de transição retratada pelo filme de Renato Terra e Ricardo Calil (Uma noite em 67). O filme consegue recuperar o clima, a emoção e certas questões que frequentaram o imaginário da época. Chorei durante a interpretação de Roda viva pelo autor Chico Buarque e o MPB-4, musica que considerava na época(e mantenho até hoje) a que deveria ter ganhado o festival.

    No filme se percebe a incidência de outros fatores que contribuíram para a polarização estética e política. Um deles era a estratégia desenvolvida pelo principal ator, a TV Record, que detendo uma espécie de monopólio de programas musicais na época pode organizar um festival-espetáculo que, como diz o seu realizador Solano Ribeiro, “nada mais era do que um programa de TV”. Realizado na antevéspera da instalação da indústria cultural do país quando as atuais estrelas da MPB ainda estavam em ascensão, possibilitava a formação de verdadeiras claques pró e contra as músicas apresentadas. No filme, se denuncia o clima de concorrência entre os artistas e suas gravadoras, através da revelação de uma claque que teria a intenção de vaiar a apresentação de Roberto Carlos.

    Paulo Machado de Carvalho, então diretor da TV Record, reconhece em seu depoimento o intento de se criar uma dramaturgia onde haveria o mocinho, heroína e o vilão. O filme porém não vai a fundo nos interesses empresariais que estavam por traz da passeata contra as guitarras realizada neste ano num momento de penetração do capital estrangeiro no setor das comunicações no Brasil.

    Caetano Veloso concedeu uma entrevista há certo tempo onde informava de uma reunião naquela emissora onde teria sido proposta a iniciativa da “frente única da MPB”. No filme “67” é ainda mais explícito. Observa inclusive a divisão dos artistas quanto ao inusitado da proposta que suscitou opiniões contra e a favor. Fornece argumentos brilhantes em relação a iniciativa, como o paralelo do movimento com o integralismo, e informa do constrangimento de Nara Leão.

    Gilberto Gil, entretanto, tenta explicar o inexplicável, sua participação neste movimento “contra a influência estrangeira na nossa música” (que tinha como principais ícones inimigos o rock e a guitarra), embora a própria emissora realizasse o programa Jovem Guarda e o compositor utilizasse no festival deste ano o conjunto Os Mutantes para acompanhar sua musica Domingo no parque.

    O filme mostra também até que ponto as condições festivalescas interviram nas opções poético-musicais tomadas pelos protagonistas que ficaram famosos, como Sergio Ricardo e Caetano. Ao voltar a observar aqueles incidentes pude perceber que a atitude do primeiro não teve como motivo único as vaias. É certo que havia um clima hostil contra a sua musica Beto bom de bola, que aliás, apresentava uma complexa elaboração harmônica. No entanto, no inicio de sua apresentação o musico havia sido bastante enfático, ao deixar claro que não cantava sob vaias e conseguiu mesmo amenizar os protestos e começar a execução musical. Ao fazê-lo, entretanto, tropeçou nas passagens bruscas da musica perdendo o tom. Sua falta de eficiência na execução musical, portanto, é que foi decisiva para a atitude de reconhecer “vocês ganharam” e, ato continuo, quebrar o violão e jogá-lo sobre o público.

    Para não ser injusto com Sérgio podemos especular sobre as razões de ter perdido o tom. Isso poderia ser imputado ao stress do conflito inicial com o público, a não conseguir ouvir o acompanhamento pelo barulho e falta de retorno do som, ou ainda a perceber que não teria mais chances de classificação após tropeçar na harmonia. Vou parar por aqui pois a discussão envereda por um campo subjetivo que não tenho tempo de tratar nos limites deste artigo. No filme, entretanto, Sergio Ricardo insiste na versão que ficou famosa.

    Assistindo aos créditos do filme lembrei também da minha insatisfação com o fato da musica Cantador(Dori Caimmy e Nelson Motta)interpretada por Elis Regina, não lograr classificação no festival onde surgiria o Movimento Tropicalista cruzando os sinais da época, sendo digna a atitude de Gil de dar o crédito a Caetano como o principal criador do movimento.

    Independente do talento do seu criador, e dos demais tropicalistas, outros fatores iriam contribuir para acertar a antena da sensibilidade de Caetano. Pouco antes dos festivais de 1967, durante uma apresentação de uma orquestra sinfônica em São Paulo, houve a invasão do palco por um grupo de músicos, entre eles o arranjador Rogerio Duprat pronunciando um libelo contra as formas musicais tradicionais.

    Se Sergio Ricardo preferiu esgotar o episódio em uma atitude aparentemente enraivecida, Caetano aproveitou a ocasião para a propaganda de todo um discurso estético e político. Numa época onde os artistas notórios ainda pertenciam ao Sudeste pode alavancar o grupo baiano, despertar a atenção das gravadoras, e sendo protagonista do impasse de uma geração. A ocasião ocorreria quando da apresentação de É proibido proibir. Naquele momento reproduziu-se um clima semelhante ao enfrentado por Sergio Ricardo e que se verificaria em várias ocasiões quando coincidiam pelo menos duas coisas, a definição da maior parte dos assistentes por outras composições e a qualidade melódica inferior ou o estilo inusitado da musica apresentada. Com Caetano aconteceu de tudo, chegando, em função das vaias que recebeu, a virar as costas para o público que reagiu da mesma forma.

    Também na música não havia mais espaço para o intermediário. Era “calça de veludo ou bunda de fora”. Assim, a revolução cultural proposta por Caetano de derrubar as prateleiras, as estantes, as estátuas, as vidraças, louças e livros não encontrou eco. Seu discurso, no entanto, ficaria eternizado pela média, quanto a outro, só seria “enunciado” no ano seguinte, por Geraldo Vandré.

    Atraído por compositores e interpretes de talento, em sua maioria da Bahia, o tropicalismo apareceu para mim como uma síntese entre os dois gêneros com os quais me debatia ao fim dos anos 60, o rock das guitarras e as harmonias elaboradas da Bossa Nova. As letras simples, sempre falando sobre temas do cotidiano, versus as letras elaboradas. Repercussão especial me causaram musicas como Lunik 9, Onde Andarás, Lindonéia e Baby, não por coincidência, todas relacionando letra e harmonia elaboradas a ricas e românticas melodias. A expressão desse conflito estético e político agora se estenderia enquanto durassem os festivais,

    Em 1968 seria a vez de me chatear com Tomzé que ganhou com a musica São Paulo, meu amor no Festival da Record quando haviam várias musicas que considerava melhores, incluindo Divino maravilhoso de Caetano e Gil. Na verdade só houve um festival da Record que gostei do julgamento, o último, realizado em 1969, onde ganhou a música Sinal fechado de Paulinho da Viola. Nestas ocasiões estaria na contramão da esquerda no FIC. Concordaria com o júri em 1968 e 1969, ou seja, no rumoroso resultado da parte nacional do primeiro, que preferiu Sabiá(de Chico e Tom Jobim, cantada pelo Quarteto em Cy) a Pra não dizer que não falei de flores(Geraldo Vandré), e no ano posterior, onde ganharia Cantiga por Luciana(Paulinho Tapajós e Edmundo Souto).

    Meu partido por Sabiá, estava ancorado na situação de Vandré que, no meu modo de ver, apresentava uma melodia bastante inferior em relação aquelas com que tinha concorrido em outros festivais. Sob a admirável interpretação de Chico Buarque e do Quarteto em Cy, percebi, mais tarde, que a mesma era escapista ao anunciar:

    Vou voltar
    sei que ainda vou voltar
    para o meu lugar.

    Foi lá, é ainda lá
    que eu hei de ouvir
    cantar uma sabiá.

    Vou voltar
    sei que ainda vou voltar.
    Vou deitar na sombra
    de uma palmeira
    que já não há
    colher a flor
    que já não dá(…)

    Sei que o amor existe
    eu não sou mais triste
    e que a nova vida
    já vai chegar
    e que a solidão vai se acabar.

    Já a musica de Vandré era uma verdadeira convocação para a luta apontando inclusive contra quem lutar, os militares. Eu, no entanto, ainda não estava preparado para atender esse chamado.

    Os festivais tinham ampla audiência entre os jovens de classe média, particularmente universitários. Mas o filme “67” mostra também a presença de pessoas de outras faixas de idade. Acho que tudo isto levava as tentativas de certos artistas para se adaptarem ao gosto das torcidas.

    Começou mesmo a haver uma “musica de festival”, onde havia uma primeira parte onde se expunha a melodia, e um refrão acelerado para entusiasmar o público. Com o tempo as musicas acabaram sendo lançadas ao público antes que fossem tocadas no festival, o que prejudicava o necessário ineditismo e os artistas que não tinham acesso á mídia. Artistas que nada tinham a ver com a MPB passaram a fazer musicas e letras para disputar o festival.

    Mas eu não apenas acompanhei os festivais pela televisão. Tomei parte neles. Muita gente não sabe, por exemplo, que houve festivais fora do eixos Rio-São Paulo. Talvez em função de ter sido tardia a entrada neste clima por parte dos demais empresários da comunicação. Na Bahia, algumas instituições já vinham fazendo festivais de pequena monta, como foi o caso da Associação Athlética do Banco do Brasil-AABB onde participei.

    Mas não me limitei só a estes, chegando a inscrever músicas para o próprio festival da Record. Naquele tempo as inscrições se davam nos estados onde se transmitia o festival. Havia inscrito em 1969 três musicas não conseguindo classificação. Lembro que coloquei o que tinha “de melhor” no concurso e esperava melhor sorte, assim como outras dezenas de compositores de todo o Brasil que também o fizeram.

    No entanto, todas as musicas classificadas foram inscritas no Rio ou em São Paulo, justificando a atitude de músicos baianos,(que já desfrutavam de certa notoriedade), de se inscreverem por esses estados. Mas o pior não foi a desclassificação, mas o comunicado da comissão organizadora que acompanhava a lista dos classificados. Este dizia, entre outras coisas que, tendo em vista as composições de outros estados “não apresentarem condições”, as vagas previstas para outros estados haviam sido destinados para o Rio e São Paulo! Pode? Foi assim que comecei a compreender que um compositor desconhecido, sem produção ou articulação, não iria chegar a lugar nenhum.

    Mais tarde, conheci pessoalmente o saudoso maestro Carlos Lacerda, que havia sido integrante do júri que havia selecionado as musicas baianas para o festival, que tinha uma famosa orquestra e dirigia a área musical da TV Itapoá. Na ocasião tive a oportunidade de cantar para ele algumas de minhas musicas, sendo que ele apreciaria bastante Ciranda cantada com a qual havia ganho o festival da AABB. Sabendo que ele havia participado da comissão de seleção da Record, pude saborear a minha vingança ao dizer-lhe que a havia incluído na seleção não logrando classificação, o que o surpreendeu. Logo ele que Isso só fez reforçar a minha opinião sobre que o Brasil não é a Suiça,entrando forças estranhas no julgamento de qualquer coisa.

    Na Bahia o modelo de festival promovido por um grupo de comunicação iniciou-se no último ano em que houve festivais no Sul, em 1969. Neste ano e no próximo colocaria uma música para concorrer á seleção, mas continuaria não sendo classificado. Interessante! Agora é que estou me lembrando que só classifiquei musicas a partir de quando conheci Carlos Lacerda! Em 1971, tomei a iniciativa de “jogar pesado” inscrevendo três músicas, Engenheiro do ar, Cantiga em dor maior e A nova metrópole. A primeira com musica minha e letra de Elísio Brasileiro. A segunda com musica de meu irmão Antônio Avena(“Toínho”) e letra minha. E a terceira com musica e letra minha. Na ocasião se inscreveram 120 músicas de dezenas de compositores. A lista de classificados saiu no jornal A Tarde, na coluna de Lázaro Guimarães ocasionando alegria lá em casa. Afinal de contas a família me via obter sucesso em alguma coisa!

    Acabei classificando as duas últimas, embora nenhuma para a finalíssima. A segunda, franca favorita entre os compositores do festival, seria desclassificada por uma decisão polêmica do maestro Carlos Veiga. Foi cantada por nossa irmã Maria Helena, comigo ao violão, tendo o próprio pianista e maestro Carlos Lacerda feito a orquestração. Acho que ele ficou constrangido com a decisão da Comissão Julgadora, que era constituída de João Augusto, fundador do Teatro dos Novos(futuro Teatro Vila Velha),do violonista Josmar Assis, do maestro Carlos Veiga, entre outros.

    Esta considerou a musica de meu mano “plágio” de um prelúdio de Frédéric Chopin, que este sequer conhecia. Fiz questão de anotar o nome da peça e ouvi-la não chegando á mesma opinião. O episódio mereceria a solidariedade de outros concorrentes, a exemplo de Jocafi e Alcyvandro Luz. Estes apresentaram musicas excepcionais na ocasião que seriam classificadas para a finalíssima. O primeiro concorreria com Em nome da tristeza, e o segundo com Chapeuzinho vermelho, tendo esta última vencido a parte baiana do festival com grande orquestra e sofisticada rítmica que alternava compassos de 6/8 e 5/8.

    Já a minha musica A nova metrópole teria uma sorte pouco melhor pois permitia aos organizadores do festival explorar um clima mais apropriado aos festivais. Pertencia a uma fase musical onde eu observava a contradição entre o crescimento vertiginoso de Salvador e o conservadorismo das suas relações sociais. Preparei o arranjo da composição, e cantei vestido com a camisa do E.C.Vitória(oferecida pelo dirigente do clube Benedito Luz), grandes painéis de Salvador, a presença de máquinas de datilografia no palco, e a execução de ruídos urbanos pelo conjunto musical que me acompanhou. Foi uma novidade no evento mas, embora tenha chamado bastante a atenção do júri e dos músicos presentes, não foi classificada para a finalíssima. Acho que foi uma das primeiras vezes que foi apresentada na televisão da Bahia uma composição onde a melodia perdia o protagonismo para o clima musical.

    Olhando hoje o que ocorreu no III Festival Nordestino penso no que teria havido se Carlos Veiga não tivesse tomado aquela atitude e eu insistisse em um caminho como compositor da MPB.

    No IV Festival Nordestino, realizado no ano posterior, eu não inscreveria músicas pois fui convidado para tocar na orquestra do festival acompanhando as composições selecionadas. Na época, as três primeiras colocadas eram classificadas para a grande final nordestina em Recife onde fariam parte de um disco. Neste ano, portanto, eu não concorreria a meu primeiro carro, que a organização decidiu dar ao primeiro colocado.

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