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Arquivo de outubro, 2010

29/10/2010 - 15:05

“Copacabana” reforça estereótipos sobre o Brasil

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Em meio à maratona da Mostra, existem dois motivos para ver a despretensiosa comédia “Copacabana”. O primeiro é ver Isabelle Huppert, provavelmente a maior atriz francesa em atividade, fora de sua zona de conforto, o drama.

Alguns anos atrás, eu tinha uma piada interna com minha mulher: “Amor, estreou mais um filme com Isabelle Huppert no papel de pianista sexualmente reprimida. Vamos ver?” Ela fazia esse papel em “A Pianista” (2001), de Michael Haneke, e “8 Mulheres” (2002), de François Ozon. Já em “A Teia de Chocolate” (2000), de Claude Chabrol, ela era a mulher de um pianista.

A profissão não importa tanto, era só parte da piada. Mas o fato é que Huppert ficou marcada em certa época a mulheres neuróticas, histéricas – como era também “Madame Bovary” (1991), também de Chabrol, talvez sua interpretação-assinatura.

Por isso é bom vê-la em uma comédia como “Copacabana”, esbanjando timing cômico e mostrando sua versatilidade. Ela interepreta Boubou, uma mulher nada reprimida, muito pelo contrário. E que adora sobre todas as coisas a música brasileira – e, o que é melhor, não toca piano.

Ela gosta também gosta de maconha, sexo casual, roupas extravagantes. E não gosta de relacionamentos e empregos fixos. Em resumo, uma mulher de espírito livre. Mas que envergonha profundamente a filha careta (Lolita Chammah, filha de Huppert na vida real).

Quando a garota decide se casar e não convidar a mãe para a festa, Boubou toma uma atitude radical. Arruma um emprego de corretora de imóveis no litoral da Bélgica e se torna funcionária exemplar. É o ponto de partida para uma comédia leve, correta, bem levada, mas nada memorável, dirigida por Marc Fitousi, em seu terceiro longa.

Então qual seria o segundo motivo para ver o filme? A dica está no título, na paixão de Boubou por música brasileira e também em seu desejo de conhecer o Brasil. Nesse aspecto, o filme tem muito a ensinar no que se refere à visão dos franceses sobre o Brasil: o velho mito do país musical, carnavalesco, cordial, sensual. Um estereótipo em geral positivo e limitador, que o filme reforça de maneira acrítica – mas bastante didática para o público brasileiro.

Para ver os dias de exibição de “Copacabana” e a cobertura da Mostra, confira o especial do iG.

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27/10/2010 - 17:58

“José & Pilar” vale pelas entrelinhas

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José Saramago olha circunspectamente para uma tela de computador que, a princípio, nós espectadores não conseguimos enxergar. É natural imaginar que ele esteja buscando palavras para seu novo romance ou refletindo sobre os rumos de Cuba pós-Fidel. Mas a câmera se aproxima e revela que o grande escritor português está apenas jogando paciência; após ganhar o jogo, ele comenta sobre a beleza daquele efeito da paciência computadorizada, com as cartas formando mosaicos na tela.

Proximidade. E tempo. Se fosse possível resumir os trunfos do documentário “José & Pilar”, essas seriam as palavras mais adequadas. O diretor Miguel Gonçalves Mendes ficou muito perto por longos períodos de Saramago e sua mulher, a jornalista Pilar Del Rio. Daí nasce um retrato verdadeiramente íntimo do casal. Íntimo o suficiente para revelar que o escritor pode ser humanamente banal, mas também muitas outras.

De cara, “José & Pilar” é um grande filme de amor, como já foi devidamente notado pela imprensa. As declarações e atitudes de Saramago para Del Rio (e vice-versa) são das mais tocantes já registradas em um documentário – e talvez se equiparem apenas às grandes ficções românticas do cinema; na literatura de Saramago, por exemplo, não se encontra nada tão direto e derramado.

Mas, nas entrelinhas desse caso de amor, escreve-se também uma história de intrigas literárias, preconceitos culturais, relações de poder e peso da fama. Del Rio era vista em Portugal como uma espécie de Yoko Ono, que teria abalado as relações entre Saramago e os portugueses, roubando o escritor de sua pátria e levando-o para morar na ilha espanhola de Lanzarote. Saramago mesmo deixa de ser uma glória nacional para se tornar quase uma persona non grata, para virar de novo glória nacional.

Mulher de personalidade forte, Pilar é mostrada fechando uma maratona de lançamentos para Saramago. Mais tarde, quando ele adoece e fica à beira da morte, ela cai em contradição e diz que não deixará que outras pessoas ditem a agenda de seu marido.

Todas essas relações de amor e poder são registradas pelo filme sem que o diretor precise chamar atenção para elas. Como bom documentarista, Miguel Gonçalves Mendes apenas está lá para registrar tudo e depois deixar que o espectador tire suas conclusões. Basta olhar com atenção.

Para ver os dias de exibição de “José & Pilar” e a cobertura da Mostra, confira o especial do iG.

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25/10/2010 - 23:35

Wenders foi um semideus do cinema, hoje é mortal

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Wim Wenders é um dos grandes nomes desta edição Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ele assina um dos cartazes do evento, expõe suas fotografias no Masp e exibe três de seus filmes (“Paris, Texas”, “Asas do Desejo” e a versão do diretor para “Até o Fim do Mundo”, com quase cinco horas de duração). Mas, por mais que ele seja um monstro do cinema, não deixa de ser melancólico acompanhar sua passagem por São Paulo. Poucos cineastas tiveram mudanças tão drásticas de status ao longo de suas carreiras quanto Wenders. Vinte anos atrás, ele era um semideus, a grande esperança branca do cinema autoral. Hoje, é um reles mortal.

É uma trajetória parecida com a de Damiel (Bruno Ganz) de “Asas do Desejo”, personagem e filme mais célebres da obra de Wenders: um anjo que se torna humano. Com a diferença que, no filme, a transformação de Damiel é desejada, para consumar o amor por uma trapezista. Já a mudança de Wenders parece antes um descaminho. Justamente depois de “Asas do Desejo” (1987) sua obra saiu do trilho para nunca mais voltar – com a exceção do documentário “Buena Vista Social Club”, cuja força reside antes nas músicas e nos personagens retratados do que nas mãos do diretor.

Chega a ser covardia comparar a primeira metade da obra de Wenders – com trabalhos brilhantes como “Alice nas Cidades”, “O Estado das Coisas” e “Paris, Texas” – com a segunda – com abacaxis domo “Tão Longe, tão Perto”, “O Hotel de 1 Milhão de Dólares” e “O Fim da Violência”. De certa forma, a exibição da versão do diretor de “Até o Fim do Mundo” na Mostra foi uma oportunidade de fazer uma revisão do período mais recente de sua obra, de dar uma segunda chance mesmo.

Para todos que conhecem o potencial de Wenders, existe uma torcida para que ele inicie uma nova etapa de sua carreira. Afinal, ele é novo, tem apenas 65 anos. Se ele for longevo como Manoel de Oliveira, dá para esperar mais algumas décadas de bom cinema.

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24/10/2010 - 20:31

“Lope” confirma Andrucha como cineasta clássico

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“Lope” confirma uma impressão deixada pelos longas de ficção anteriores de Andrucha Waddington (a saber, “Gêmeas”, “Eu Tu Eles”, “Casa de Areia”): ele é um cineasta clássico.

Esta é a primeira grande produção internacional de Waddington, falada em espanhol, sobre o poeta e dramaturgo Lope de Vega (1562-1635). Mas a mudança de língua, de paisagem e de escala de produção não altera seu classicismo. Ao contrário, o fato de ser um filme de época acaba reforçando a sensação.

De um diretor que começou muito jovem na publicidade, seria natural esperar certos tiques da atividade, como a edição nervosa – o que se aplica, por exemplo, a Fernando Meirelles. Não, Waddington opta por um estilo limpo, direto… clássico, em particular na decupagem.

O resultado é sempre correto, mas às vezes um tanto frio, talvez até mesmo acadêmico. Outra sensação comum é a de que os filmes variam pouco de tom ao longo da projeção. No caso de “Lope”, usa-se muito a música para dar ênfase a certas cenas, mas ela redunda com as imagens.

Mas vamos também às virtudes: não é mérito desprezível coordenar uma equipe e um elenco com dezenas de pessoas falando outra língua em cenas extremamente complexas e fazê-las trabalhar em conjunto a favor de um resultado digno.

Contam-se nos dedos de uma mão os cineastas brasileiros que conseguem dar conta de um filme de época com uma produção desse porte. Com “Lope”, Waddington junta-se a um time seleto formado por Walter Salles, Fernando Meirelles, Hector Babenco e… Esqueci de alguém?

Para ver os dias de exibição de “Lope” e a cobertura da Mostra, confira o especial do iG.

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22/10/2010 - 21:34

Kiarostami é mestre em francês, inglês e italiano

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De cara, não parece um filme de Abbas Kiarostami. Primeiro, pelo motivo óbvio: o cineasta troca o Irã pela Itália como locação, deixa de lado os atores amadores da maioria de seus filmes por profissionais célebres como a francesa Juliette Binoche e o britânico William Shimmel (mais conhecido como cantor de ópera).

Depois, pelo próprio andamento da narrativa: até certo ponto, parece que estamos vendo uma versão madura de “Antes do Amanhecer” (1995), o simpático filme de Richard Linklater sobre o encontro de um turista americano e de uma francesa numa viagem pela Europa.

Em “Cópia Fiel”, a francesa Elle (Binoche), dono de uma galeria de arte, serve de cicerone em uma visita à Toscana para o britânico James (Shimmel), um escritor que vai à região para lançar seu último livro, que versa, entre outras coisas, sobre as cópias de obras de arte.

No começo do passeio dos dois, parece que estamos vendo um filme sobre um homem e uma mulher desconhecidos que se reúnem ao acaso, que se estranham a princípio, mas que em algum momento passam a se entender.

É uma impressão concreta, mas falsa, como a dada por boas imitações de arte. Depois de algum tempo, Elle e James passam a fingir que são um velho casal. Até que, em determinado momento, passamos a desconfiar de que eles realmente foram marido e esposa no passado.

E é aí, nesse momento, que cai a ficha: estamos diante de um clássico filme de Kiarostami, cuja obra parece circular em torna das seguintes questões: quanto há de encenação no real? e quanto há de real na encenação?

São perguntas que o cineasta jamais responde, mas que formula com desenvoltura rara no cinema. E com a mesma fluência em francês, italiano ou inglês do que sempre demonstrou no cinema iraniano. Golpe de mestre.

Para ver os dias de exibição de “Cópia Fiel” e a cobertura da Mostra, confira o especial do iG.

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21/10/2010 - 15:57

Manoel de Oliveira abre Mostra com pé direito

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A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo começa com o pé direito nesta sexta-feira, com a exibição de “O Estranho Caso de Angélica”, do português Manoel de Oliveira.

A escolha da abertura não poderia ser mais apropriada. Com seus 101 anos de idade – o que o torna o diretor mais velho em atividade na história -, Oliveira é a própria encarnação do cinema. E a Mostra é uma das co-produtoras de “O Estranho Caso de Angélica”, ponto mais alto de uma longa relação entre o evento e o cineasta. Planejado entre os anos 1949 e 1952, o filme não foi realizado por conta da censura salazarista da época. Quase 60 anos depois, Oliveira decidiu retomá-lo e atualizá-lo.

Na história, o fotógrafo judeu Isaac (Ricardo Trêpa, neto e produtor de Oliveira) recebe um chamado urgente de uma família rica para tirar a última foto da Angélica, que acabara de morrer poucos dias depois de seu casamento. Ao focar a moça, ela aparece viva e sorridente no visor de sua máquina. É o suficiente para Isaac ficar obcecado por Angélica. Ele passa a ter alucinações com a moça e ficar alienado da realidade, alarmando as pessoas que o conhecem, principalmente a dona da pensão onde ele se hospeda.

Oliveira povoa sua história com fantasmas de amantes que sobrevoam a cidade, discussões sobre a crise financeira, o acelerador de partículas e o filósofo Ortega y Gasset – em um exercício de liberdade narrativa que faria inveja a cineastas com um terço de sua idade.

Em “O Estranho Caso de Angélica”, o diretor reafirma seu estilo particular: faz um filme solene para melhor ironizar a solenidade da burguesia portuguesa, teatral para criticar as encenações do teatro social, passadista para revelar um país preso ao passado.

Para ver os dias de exibição de “O Estranho Caso de Angélica” e a cobertura completa da Mostra, confira o especial do iG.

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13/10/2010 - 22:59

“Tropa de Elite 2” pode influenciar a eleição?

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Neste momento, parece que só existem dois assuntos empolgantes no Brasil: eleições presidenciais e “Tropa de Elite 2”. Mas até que ponto um pode influenciar o outro? Será que “Tropa” pode ter interferência significativa no voto dos eleitores? E, se tiver, qual candidato será mais beneficiado?

O filme é complexo e, portanto, as respostas também o são. Ou melhor, o filme se baseia em algumas dualidades muito simples que tornam as análises sobre um tanto mais complicadas. Há o policial bom e o mau, o jornalista bom e o mau, o político bom e o mau.

A princípio, o herói mais impoluto de “Tropa 2” é um político de esquerda, que denuncia a corrupção policial: Diogo Fraga (Irandhir Santos), completamente inspirado em Marcelo Freixo, que acaba de ser reeleito deputado estadual pelo Rio. E, neste novo filme, o capitão Nascimento entra em crise e coloca em xeque a idéia de que o combate ao tráfico vai acabar com a violência – grosso modo, uma tese cara à direita.

Isso significa, então, que o novo “Tropa” vai beneficiar a candidata do governo? Não. Porque tudo leva a crer que existe uma dissociação entre o que o filme diz e o que o público ouve. Já aconteceu no primeiro filme, em que o torturador de bandidos Nascimento foi adotado como herói por boa parte dos espectadores. O processo continua agora: apesar da falência de suas crenças, o personagem novamente é aplaudido como justiceiro, desta vez por espancar políticos. Nascimento é o indivíduo que enfrenta o sistema. Alguém que pode ser eleito como representante da turma que é “contra tudo que está aí”. Nesse sentido, o filme beneficiaria mais o candidato de oposição.

No Twitter do cantor Léo Jaime, por exemplo, há indícios de que a suposição acima tem fundamento. Alguns de seus comentários: “Torço para que os eleitores de Dilma vejam Tropa de Elite e reflitam”. “Mandar o filme de Lula para o Oscar? O povo aplaude é outro filme, bando de puxa-sacos!” Um de seus seguidores reforçou: “Tropa de Elite 2 é dever cívico! Tinha que passar em rede nacional na véspera do segundo turno!!!” É um exemplo de reação oposicionista de uma pessoa célebre. Houve milhares de reações semelhantes vindas de anônimos.

Não há teoria conspiratória: José Padilha não fez um filme para mudar o resultado da eleição, até porque decidiu lançá-lo depois do primeiro turno – e, até outro dia, ninguém sabia se haveria um segundo turno.

Mas isso não quer dizer que candidatos e eleitores/espectadores não possam abraçar “Tropa 2” como uma comprovação de seus discursos.

No debate do último domingo na Band, primeiro final de semana do filme em cartaz, a primeira pergunta de Serra a Dilma foi sobre segurança pública, sobre a falta de combate ao tráfico de drogas e armas, sobre a necessidade de criação de uma guarda nacional. Foi uma coincidência?

Até a data da eleição, “Tropa 2” provavelmente terá sido visto por mais de 10 milhões de brasileiros – entre o público dos cinemas e o dos DVDs piratas. Se algum candidato conseguir se sintonizar ao discurso do capitão Nascimento (ou ao que as pessoas entendem ser o discurso do capitão Nascimento), talvez a importância do filme numa eleição para presidente que promete ser muito disputada não seja desprezível.

É curioso pensar que no começo do ano as pessoas se preocupavam com o peso político de “Lula, o Filho do Brasil” – ignorando o fato de que um fracasso artístico e comercial não poderia ter esse tipo de relevância.

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08/10/2010 - 22:48

Novo “Tropa de Elite” troca a catarse pela reflexão

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Vi “Tropa de Elite 2” na primeira sessão do dia de estréia no circuito comercial em São Paulo, no Cinemark Eldorado, hoje às 12h45. Na saída, as pessoas caminhavam silenciosas, cabisbaixas, pensativas. Uma reação muito diferente da descrita pelo colega Ricardo Kotscho na pré-estréia de ontem, que teve aplausos calorosos, como de hábito nessas ocasiões festivas. Acima de tudo, uma reação muito diferente da catarse provocada por “Tropa 1”.

Sim, essa é a primeira sensação deixada por “Tropa 2”: um filme menos catártico que o original (embora também tenha também momentos que despertam instintos primários, em particular a surra do coronel Nascimento em um deputado federal). Mas também um filme mais complexo, mais maduro. Melhor, em resumo.

No primeiro, havia aquela divisão básica: de um lado, os policiais violentos, porém incorruptíveis, do Bope; do outro, bandidos, policiais desonestos, ongueiros hipócritas. Para a maioria dos espectadores, não era difícil tomar um lado.

Neste segundo filme, tudo é mais complicado. Promovido a subsecretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Nascimento (Wagner Moura, mais uma vez brilhante), por um lado, ajuda a eliminar o tráfico, mas por outro acaba estimulando a proliferação das milícias de policiais – que dominam favelas com um grau de violência e corrupção semelhantes aos dos bandidos e ainda funcinam como cabos eleitorais de políticos populistas em regiões pobres.

Ao combater “o sistema”, Nascimento termina por fortalecê-lo – em um processo que José Padilha demonstra com um didatismo muito eficiente, esclarecedor, e que transforma seu protagonista em uma figura ainda mais densa e trágica.

O cineasta continua se divertindo em sua gangorra ideológica particular. Se o documentário “Ônibus 174” foi visto como um libelo esquerdista e “Tropa 1” foi tachado de fascista, agora Padilha elege como o herói impoluto de seu filme um deputado de oposição que denuncia as milícias (na interpretação visceral de Irandhir Santos).

E, dentro de seu novo filme, ele se alterna entre momentos de truculência (como na cena da eliminação do corpo da jornalista que investiga os milicianos) e ternura (a reconciliação entre Nascimento e seu filho em uma luta marcial), de sutileza e obviedade (no final que aponta a câmera e o dedo para o Congresso nacional, sendo que já estava devidamente demonstrado ao longo do filme a responsabilidade da política como fonte de nossos males).

Em “Tropa 1”, o final era violento, mas esperançoso. Com o tiro do policial no rosto do traficante, o público deixava o cinema com a sensação de uma resolução simplista, abrupta. Em “Tropa 2”, a solução é complexa, a longo prazo, depende da união de setores apartados e minoritários, como policiais honestos e políticos bem-intencionados. Mas, enquanto isso não vem, inocentes continuarão a morrer e corruptos seguirão sendo eleitos. Os espectadores podem deixar este novo filme com uma sensação de impotência. Mas ela talvez seja mais produtiva do que a satisfação fácil oferecida pelo filme anterior.

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07/10/2010 - 20:13

Com “Tropa 2”, cinema brasileiro terá ano gordo

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Se “Tropa de Elite 2” for o sucesso que se imagina, o cinema brasileiro pode esperar seu melhor ano desde o “mítico” 2003. Lançado com mais de 600 cópias, o filme tem potencial para tentar bater o recorde de bilheteria da retomada do cinema brasileiro, “Se Eu Fosse Você 2”, que teve mais de 6 milhões de espectadores.

Ok, o primeiro “Tropa” não chegou a metade desse número, mas foi visto em cópias piratas pelo dobro disso. Desta vez, a produção teve o cuidado para que a pirataria só comece depois da estréia nesta sexta-feira. E, fora isso, a marca “Tropa” chega aos cinemas com muito mais força, e mais espaço na mídia, que há três anos. Capitão Nascimento virou folclore nacional, como “Superman” na América.

Se “Tropa 2” for bem, vai se somar aos dois grandes sucessos espíritas do ano, “Chico Xavier” (com quase 3,5 milhões de espectadores) e “Nosso Lar” (que vai passar os 4 milhões fácil, fácil). Se colocarmos na conta “O Bem Amado” (com quase 1 milhão), “Lula, o Filho do Brasil” (mais de 800 mil), mais os quebrados do resto, 2010 deve ficar mais gordo que 2009.

No ano passado, ultrapassamos a marca dos 16 milhões de espectadores. Neste, isso deve se repetir. Ainda assim, devemos ficar longe dos 22 milhões de 2003 (que teve uma lista considerável de blockbusters nacionais, como “Carandiru”, “Lisbela e o Prisioneiro”, “Os Normais”, “Xuxa e os Duendes”, “Maria, a Mãe do Filho de Deus” e “Deus é Brasileiro”). Talvez o que faltou neste ano para chegar a número parecido tenha sido uma comédia mais forte que “O Bem Amado” e um infantil de peso da Xuxa ou dos Trapalhões.

De qualquer forma, este deverá ser um bom ano, se levarmos em conta apenas o número total de espectadores. Significa que devemos sair às ruas para comemorar? Não. Primeiro, porque nada garante uma continuidade. Ninguém pode prometer que teremos um 2011 forte (até porque poucos lançamentos previstos têm pinta de blockbuster). Depois, porque o problema de “desigualdade social” no cinema brasileiro permanece. Para cada blockbuster com mais de 1 milhão de espectadores, existem 10 filmes que não chegam a 10 mil. Enquanto não houver um projeto de longo prazo e uma melhor distribuição de renda, não tem motivo pra festa.

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05/10/2010 - 22:27

Novo “Wall Street” é mais velho que o original

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Há duas linhas centrais na obra de Oliver Stone. Os filmes históricos, como “JFK”, “Nixon”, “Platoon”, “Alexandre”. E os filmes urgentes, como o documentário “Comandante” ou os dois “Wall Street”. Seja por coragem ou oportunismo – e, na verdade, pouco importa -, Stone gosta de trabalhar “a quente”, sem deixar o assunto esfriar. No novo “Wall Street”, ele aborda a crise financeira de 2008, que continua a reverberar no mundo todo.

Desta vez, Gordon Gekko (Michael Douglas), protagonista do filme original de 1989, sai da prisão depois de cumprir uma pena de oito anos e passa a pregar contra a cobiça desmedida do sistema financeiro, que antes ele defendia. Para derrubar o homem que o levou à prisão, ele se une a seu genro (Shia LaBeouf), um corretor da bolsa que quer ganhar dinheiro investindo em uma companhia de energia renovável, ecologicamente correta.

É mais um filme de Stone preocupado em estar “up to date”, em abordar questões candentes da atualidade. O problema é que ele renovou seus temas, mas não se renovou como cineasta. Ele preenche a tela de gráficos, como se fizesse uma apresentação em Power Point. Mas sua visão de mundo continua reducionista, maniqueísta. Como Gekko, Stone se vende como um homem dos novos tempos, mas continua o mesmo na essência. No final das contas, o novo “Wall Street” parece mais velho que o original.

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