Publicidade

Publicidade

Arquivo de julho, 2011

21/07/2011 - 10:21

As mulheres definem “Gainsbourg”

Compartilhe: Twitter

Há um mistério em “Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres”: o filme tem vários grandes momentos, mas a soma deles não resulta em um grande filme. Embora tenha decidido narrar a vida do compositor francês Serge Gainsbourg em ordem cronológica, o diretor Joann Sfar adotou uma estrutura episódica, em que cada sequência parece ter vida própria, sem ligação imediata com aquela que veio antes ou a que vem depois. É como se fossem vários curtas sobre a vida de Gainsbourg, alguns realistas, outros fantásticos, alguns com atores, outros em animação.

E, como quase todo filme com essa estrutura, existe uma evidente irregularidade entre os episódios. Mas, a meu ver, há uma espécie de padrão nessa instabilidade – um padrão que ajuda a explicar o mistério citado acima. Os episódios mais fortes do filme são aqueles com a presença das mulheres de Gainsbourg. E os mais frágeis, por supuesto, são aqueles em que elas não estão (ainda que o protagonista Eric Elmosnino esteja brilhante): Gainsbourg e a família, Gainsbourg e o antissemitismo, Gainsbourg e seu alter ego sombrio e até mesmo Gainsbourg e a música, um aspecto estranhamento insatisfatório da produção.

Mas o filme brilha sempre que enfoca as relações amorosas de Gainsbourg com mulheres célebres como Juliette Greco, Brigitte Bardot e Jane Birkin. E era uma tarefa difícil, porque permitia a comparação com figuras não apenas muito carismáticas, como ainda muito presentes na memória coletiva de parte dos espectadores. Mas Sfar foi muito feliz na escolha das atrizes – respectivamente, a classuda Anna Mouglalis, a exuberante Laetita Casta e graciosa Lucy Gordon, que infelizmente se matou pouco depois de fazer o filme. E, sobretudo, o cineasta foi muito eficaz ao reinventar o clima desses encontros, entre a insegurança e a malícia, o pavor e o erotismo.

Talvez o gosto por essas partes do filme tenha uma explicação pessoal: Gainsbourg seria o vingador da nossa classe, a dos homens feios, o herói que oferece a outros como ele a possibilidade da fantasia de seduzir as mais belas mulheres. Mas não se pode tirar o mérito de Sfar de capturar a essência do homem que retratou: se Gainsbourg era um homem que amava as mulheres – e, mais do que isso, era um homem definido pelo encontro com elas –, é justo que elas sejam as protagonistas dos melhores momentos de um filme sobre sua vida.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/07/2011 - 22:53

A globochanchada equivale a um passeio no shopping

Compartilhe: Twitter

Existem equivalências entre experiências urbanísticas e experiências cinematográfica? Há filmes que remetam, por exemplo, a um passeio de bicicleta no parque ou a uma caminhada por uma rua deserta?

Desconfio que sim, que existem comparações possíveis. Porque sempre que vejo uma dessas comédias de situação brasileiras recentes eu me sinto em um shopping center ou em condomínio fechado. Eu me refiro aos filmes que o cineasta Guilherme de Almeida Prado bem definiu como globochanchadas: “Se eu fosse você”, “De pernas para o ar”, “Divã”, “Qualquer gato vira-lata”, “Muita calma nessa hora”, “A mulher invisível” e agora “Cilada.com”.

O shopping e o condomínio são lugares fechados que emulam outros abertos, respectivamente uma rua de comércio ou uma vila. Mas que oferecem a comodidade e a artificialidade do ambiente controlado, planejado, protegido do caos do resto da cidade.

As globochanchadas também emulam a vida real, mas não se deixam contaminar por ela. E eu me refiro ao aspecto audiovisual mesmo desses filmes: eles parecem filmados em ambientes assépticos, esterilizados, herméticos. Até as externas ter um shopping como locação.

A julgar pelo sucesso nas bilheterias desses filmes (o de “Cilada.com” é o exemplo mais recente), boa parte do público de cinema brasileiro quer mesmo essa sensação de segurança, de conforto trazido por esses filmes – assim como muitas pessoas sonham em um dia morar num condomínio fechado.

Mas ainda existem cineastas e espectadores que gostam de dar umas voltas por becos e vielas. Nem tudo está perdido, para nossas cidades e nosso cinema.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/07/2011 - 07:50

Terrence Malick é o Dodô do cinema

Compartilhe: Twitter

Eu nunca tive sentimentos tão divididos em relação a um filme quanto ao ver ontem em uma sessão para a imprensa “A Árvore da Vida”, novo filme de Terrence Malick, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes neste ano e estreia no Brasil no próximo mês.

Em um minuto, eu pensava: ele merece mesmo a fama de gênio. No seguinte, mudava de ideia: deve ser o diretor mais superestimado da história. E foi nessa toada durante o filme todo.

Nossa, Malick tem um olhar realmente profundo sobre as relações familiares/Será que ele precisava recorrer a um freudianismo tão rasteiro?

Que bom que ele apenas insinua os sentimentos dos personagens/Não é possível: ele explica o que os personagens estão sentido nos offs!

Ele combina sons e imagens de maneira poderosa mesmo/Será que ele poderia usar ópera de maneira menos clichê?

Que ousadia!/Que pretensão!

Sublime!/Cafona?

Espetacular!/Tedioso…

Lindo demais!/Demasiadamente lindo.

Eu entrei em contato com a obra de Malick pela primeira vez com “Além de Linha Vermelha”, em 1998. Foi um arrebatamento. Só aí eu soube da fama de gênio recluso e bissexto. Fui atrás dos filmes anteriores, “Badlands” e “Days of Heaven”, feitos nos anos 70. Esperei ansiosamente por “O Novo Mundo” e agora “A Árvore da Vida”. Mas a verdade é que, embora eu conseguisse apreciar vários momentos de cada filme, o encantamento da “Linha Vermelha” nunca se repetiu. Talvez porque não fosse mais uma novidade. Talvez porque eu comecei a desconfiar de maneirismo onde eu havia enxergado estilo. Mas, no fundo, eu acabei me irritando mesmo com tanto contraluz.

Quando se é moleque e se começa a fotografar, o contraluz é um achado. Você estava lá tirando umas fotos feias e, de repente, com o sol ao fundo, a imagem ganhava todo um lance poético, onírico, evocativo etc… É uma descoberta e tanto para um adolescente. Mas Malick construiu uma obra inteira a partir do contraluz!

Com “A Árvore da Vida”, caiu a ficha do encantamento e do incômodo com o estilo do cineasta americano: Terrence Malick é o Dodô da sétima arte. Sim, Dodô, o centroavante do São Paulo e do Botafogo, aquele famoso por ser incapaz de fazer gol feio. Um artilheiro que preferia perder o gol a sacrificar a beleza em nome da objetividade. Malick, por sua vez, é incapaz de fazer um plano feio. Não é um cinema de pedalada. Mas tem a síndrome do toquinho a mais. Malick só entraria para a minha seleção de cineastas favoritos se ele fosse capaz de fazer um plano feio. Nem que fosse só um mesmo. Porque, no meio daquela beleza toda de “A Árvore da Vida”, eu me sentia constantemente compelido a gritar: “Chuta de bico, Malick, porra!”

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/07/2011 - 18:55

Michael Bay é o cineasta-símbolo do nosso tempo

Compartilhe: Twitter

Qual é o cineasta mais representativo do cinema hoje? Não o melhor, porque isso entra numa questão de gosto subjetiva demais. Mas qual é aquele que representa melhor o tempo em que vivemos – e, por extensão, o cinema de nossa época?

Só dois nomes vêm à minha cabeça: James Cameron, o homem por trás dos maiores sucessos de bilheteria da história (“Avatar” e “Titanic”), e Michael Bay, o sujeito que nos deu blockbusters “Bad Boys”, “Armageddon” e a série “Transformers”.

Entre os dois, dá para cravar sem medo que Cameron é o melhor cineasta. Mas Bay me parece um cineasta mais representativo do que é o cinema hoje.

Os maiores sucessos de Cameron são pontos fora da curva, não lembram muito outros filmes. Dentro do cinema industrial americano, ele é um cineasta à frente do seu tempo.

Já Michael Bay é um homem de sua época. Se você somar seus filmes e depois dividir, o resultado vai ficar perto da média do que é um típico filme de ação hollywoodiano hoje.

Pouco interesse pela trama, pelos personagens, pelas emoções. Muita vontade de estimular a produção de adrenalina com efeitos especiais, volume alto e edição rápida.

Na sessão de “Transformers 3”, que estreou na última sexta-feira no Brasil, eu fiz o exercício de contar o tempo de cada plano no início do filme. Depois de 50 planos seguidos com menos de três segundos, eu cansei.

Como já escrevi, é um tipo de cinema feito por e para pessoas com TDAH: transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. A julgar pelo sucesso da maioria de seus filmes, o número de pessoas afetadas ultrapassa as estimativas mais pessimistas.

Até por encarnar em seus filmes esse que é um dos grandes males do nosso tempo, Bay é mesmo fundamental. Daqui a alguns anos, um curador de mostra irá se dar conta disso e programar uma bela retrospectiva do diretor americano.

Será a chance de redescobrir algumas pérolas de sua carreira, como os clipes que dirigiu para Vanilla Ice, Lionel Richie e Meat Loaf.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Voltar ao topo