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07/07/2011 - 07:50

Terrence Malick é o Dodô do cinema

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Eu nunca tive sentimentos tão divididos em relação a um filme quanto ao ver ontem em uma sessão para a imprensa “A Árvore da Vida”, novo filme de Terrence Malick, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes neste ano e estreia no Brasil no próximo mês.

Em um minuto, eu pensava: ele merece mesmo a fama de gênio. No seguinte, mudava de ideia: deve ser o diretor mais superestimado da história. E foi nessa toada durante o filme todo.

Nossa, Malick tem um olhar realmente profundo sobre as relações familiares/Será que ele precisava recorrer a um freudianismo tão rasteiro?

Que bom que ele apenas insinua os sentimentos dos personagens/Não é possível: ele explica o que os personagens estão sentido nos offs!

Ele combina sons e imagens de maneira poderosa mesmo/Será que ele poderia usar ópera de maneira menos clichê?

Que ousadia!/Que pretensão!

Sublime!/Cafona?

Espetacular!/Tedioso…

Lindo demais!/Demasiadamente lindo.

Eu entrei em contato com a obra de Malick pela primeira vez com “Além de Linha Vermelha”, em 1998. Foi um arrebatamento. Só aí eu soube da fama de gênio recluso e bissexto. Fui atrás dos filmes anteriores, “Badlands” e “Days of Heaven”, feitos nos anos 70. Esperei ansiosamente por “O Novo Mundo” e agora “A Árvore da Vida”. Mas a verdade é que, embora eu conseguisse apreciar vários momentos de cada filme, o encantamento da “Linha Vermelha” nunca se repetiu. Talvez porque não fosse mais uma novidade. Talvez porque eu comecei a desconfiar de maneirismo onde eu havia enxergado estilo. Mas, no fundo, eu acabei me irritando mesmo com tanto contraluz.

Quando se é moleque e se começa a fotografar, o contraluz é um achado. Você estava lá tirando umas fotos feias e, de repente, com o sol ao fundo, a imagem ganhava todo um lance poético, onírico, evocativo etc… É uma descoberta e tanto para um adolescente. Mas Malick construiu uma obra inteira a partir do contraluz!

Com “A Árvore da Vida”, caiu a ficha do encantamento e do incômodo com o estilo do cineasta americano: Terrence Malick é o Dodô da sétima arte. Sim, Dodô, o centroavante do São Paulo e do Botafogo, aquele famoso por ser incapaz de fazer gol feio. Um artilheiro que preferia perder o gol a sacrificar a beleza em nome da objetividade. Malick, por sua vez, é incapaz de fazer um plano feio. Não é um cinema de pedalada. Mas tem a síndrome do toquinho a mais. Malick só entraria para a minha seleção de cineastas favoritos se ele fosse capaz de fazer um plano feio. Nem que fosse só um mesmo. Porque, no meio daquela beleza toda de “A Árvore da Vida”, eu me sentia constantemente compelido a gritar: “Chuta de bico, Malick, porra!”

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23 comentários para “Terrence Malick é o Dodô do cinema”

  1. Raul disse:

    Nunca pensei que fosse um filme que todos fossem entender mesmo…e esse post mostra como preferimos a mediocridade ao belo…as concessões

Os comentários do texto estão encerrados.

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