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Arquivo de outubro, 2011

31/10/2011 - 13:58

“Cisne” reúne tiques do cinema de arte

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De todos os filmes vistos na Mostra de São Paulo nesta edição, “Cisne”, da portuguesa Teresa Villaverde, foi a maior decepção.

Ainda tinha uma boa, embora longínqua, lembrança de “Os Mutantes” (1998), da mesma diretora – o que me fez colocar “Cisne” como uma das prioridades da Mostra neste ano. Mas ou a memória me traiu ou Villaverde se tornou uma cineasta menos interessante com o passar de tempo.

“Cisne” é um filme sobre o encontro de duas figuras de universos distintos: a cantora Vera (Beatriz Batarda) e o jovem Pablo (Miguel Nunes), que ela contrata como motorista e ajudante pessoal ao chegar a Lisboa para o final de uma turnê.

Ao longo do filme, cada um deles vai revelar ao outro as cicatrizes emocionais que guardam do resto do mundo: Vera tem um amor não-correspondido por um homem perturbado; Pablo é um órfão abandonado pela mãe e criado em um abrigo para menores que esconde um terrível segredo.

Villaverde filma essa história com alguns dos principais tiques do cinema de arte: diálogos obscuros intercalados por longos silêncios, closes de rostos sofridos, coadjuvantes excêntricos, incluindo uma anã em cena.

Há vastas emoções no filme, mas pensamentos quase inexistentes – e essa falta de ideias faz com que os sentimentos se tornem ralos, sem consistência. Um caso de filme em que o conflito dos personagens parece interessar apenas à diretora.

Houve outra frustração na Mostra causada por “Hanezu”, o filme da japonesa Naomi Kawase. Mas o talento visual da cineasta ficava evidente plano após plano, ainda que seu emprego não fosse muito inspirado.

“Cisne” é uma decepção de outro tipo, que faz questionar se sua diretora merece o destaque que já teve um dia. Nem a beleza de “Nina”, canção de Chico Buarque usada no desfecho, consegue salvar o resultado final.

“Cisne”: dia 3, às 17h40, na Cinemateca. Para a programação e cobertura completas, confira o especial do iG.

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30/10/2011 - 21:38

Diretor sul-coreano chega ao auge de sua forma

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As virtudes de um cineasta como o sul-coreano Hong Sangsoo demoram a ser reconhecidas. Ele não faz o tipo que ostenta as marcas de um estilo como se fossem trofeus, ele não tenta impressionar com virtuosismos visuais, como tantos colegas de profissão.

Diretor de filmes como “Mulher na Praia” e “Noite e Dia”, Sangsoo faz um tipo de cinema fundado na palavra, com longas conversas de personagens intelectualizados, em especial sobre relações amorosos, e com especial atenção a pequenos acasos do cotidiano.

Por causa dessas características, ele costuma ser definido como um Woody Allen ou um Eric Rohmer sul-coreano – que faz sentido. Mas, com oito longas no currículo, suas discretas virtudes já ficaram suficientemente evidentes para que as comparações se tornem desnecessárias.

“O Dia em que Ele Chegar”, seu novo filme, exibido na Mostra de São Paulo deste ano, mostra um autor com pleno domínio de suas ferramentas narrativas.

A princípio, uma história simples: um cineasta que interrompeu sua carreira e se estabeleceu no interior vai até a capital Seul para reencontrar um antigo professor de cinema e grande amigo.

Em meio a longas conversas e bebedeiras, eles encontram mulheres que os seduzem, os aborrecem, os entretém – e perturbam, de alguma forma, a rotina de companheirismo masculino estabelecida pelos dois. Um tema recorrente na obra de Sangsoo.

Mas o cineasta sul-coreano introduz uma pequena novidade em seu tradicional repertório: as situações vividas pelo protagonista se repetem com pequenas variações, como se um pequeno acaso tivesse criado uma realidade alternativa.

É um procedimento que revigora o projeto cinematográfico do sul-coreano e que o leva ao melhor de sua forma. Agora o negócio é descobrir quem será o Sangsoo francês ou americano.

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28/10/2011 - 10:47

Jonas Mekas e seu reality show poético

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Em “Histórias da Insônia”, o cineasta Jonas Mekas – lituano radicado em Nova York e mestra do cinema de vanguarda americano – não consegue dormir, pega sua câmera digital e sai por aí filmando encontros com amigos, artistas, familiares e desconhecidos.

Nesses encontros, eles bebem, ouvem música, discutem a importância de Amy Winehouse e filosofam sobre assuntos como a eternidade da alma – todas essas coisas “não-importantes” que o cinema narrativo costuma relegar e que em geral ocupam as transmissões ao vivo, não-editadas, dos reality shows.

Mas por que, então, o resultado de “Histórias da Insônia” é tão mais fascinante que, por exemplo, um “Big Brother” (mesmo acreditando que o programa de TV, em momentos inspirados, também possa produzir seus momentos de brilho)?

Pode-se argumentar que é uma questão de casting. Entre as pessoas filmadas por Mekas, estão as cantoras Patti Smith, Yoko Ono e Björk, o cineasta Harmony Korine, o ator francês Louis Garrel, entre muitos outros.

Mas acho que o essencial é a “gratuidade” daqueles encontros; ou seja, eles não estão ali para vender nada ou para cumprir uma função dentro de um jogo.

Mekas anuncia seu objetivo no início do filme: “eu não vou dormir até ouvir alguma coisa bonita”. Ou seja, há uma troca de um olhar mercantil por outro poético, da visão da máquina pela individual.

E, a partir dessa decisão, Mekas realiza uma inspirada aplicação do chamado “filme-diário”, em que a câmera é usada como uma caneta de anotações pessoais. O resultado é tocante, engraçado, de enorme frescor e originalidade. Nada mau para um cineasta de 88 anos.

“Histórias da Insônia”: hoje, às 16h, no Cine Livraria Cultura; dia 30, às 20h30, e dia 1/11, às 19h50, no Unibanco Frei Caneca; e dia 3/11, às 14h, no Unibanco Augusta. Para a programação e a cobertura completas da Mostra, confira o especial do iG.

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25/10/2011 - 19:28

O cinema não foi o mesmo depois de Elia Kazan

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Em uma entrevista para a revista “Trip” deste mês, o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, do grupo Oficina, conta que sua vida mudou depois de ver “Um Bonde Chamado Desejo” (1951), também conhecido no Brasil como “Uma Rua Chamada Pecado”: “Até então achava que as pessoas não tinham ‘por dentro’, que só eu tinha subjetividade. E as outras pessoas eram de papelão. Quando vi a Vivien Leigh, o Marlon Brando… foi o Elia Kazan quem me revelou a intersubjetividade”.

Zé Celso conseguiu resumiu, de forma pessoal, o enorme impacto causado pela obra de Elia Kazan (1909-2003) – tema de retrospectiva na Mostra de São Paulo, com nove filmes em cópias restauradas, do período mais fértil de sua carreira, de 1945 a 1962. O cineasta americano, filho de gregos nascido na Turquia, deu uma densidade e profundidade psicológica ao cinema até então inédita. Como se os pensamentos e emoções dos personagens tivessem se tornado, de repente, palpáveis, concretos – algo que Doistoiévski, por exemplo, fez com a literatura.

Mas em um livro há sempre o recurso da descrição do fluxo de pensamento. Kazan preferia não recorrer a seu equivalente cinematográfico, a narração em off. Inspirado pelo russo Stanislavski e ao lado do diretor Lee Strasberg, ele ajudou a criar um método – aliás, o Método – de interpretação baseado na memória emocional dos atores; grosso modo, eles precisavam acessar a lembrança de uma experiência pessoal para reutilizar aquele sentimento na representação.

Pelo Actors Studio, a escola de Strasberg e Kazan, foram lapidados atores como Marlon Brando, James Dean, Paul Newman, Robert De Niro, Al Pacino, Dustin Hoffman e Jack Nicholson, entre muitos outros. De acordo com o gosto, pode-se dizer que há melhores diretores, mas não conheço nenhum que seja melhor como diretor de atores. Como bem colocou Zé Celso, nos filmes de Kazan eles tinham um “por dentro”, uma alma que raramente conseguiam exibir em outros trabalhos.

Kazan arrancou de vários atores os melhores desempenhos de sua carreira – por exemplo, Brando em “Sindicato dos Ladrões”, James Dean em “Vidas Amargas”, Vivan Leigh em “Um Bonde Chamado Desejo”, Natalie Wood em “Clamor do Sexo” e assim por diante. Todos esses clássicos estão na retrospectiva da mostra e merecem ser vistos e revistos no cinema, mas também há filmes que circulam menos, como “Laços Humanos”, “O Justiceiro”, “Um Rosto na Multidão”, “Rio Violento” e “Terra de um Sonho Distante”; além de “Uma Carta para Elia”, documentário de Martin Scorsese sobre um dos cineastas que mais o influenciaram.

Sempre que se fala em Kazan, é impossível escapar da passagem mais sombria de sua vida: ex-comunista, o cineasta denunciou colegas ao Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso, no período macartista de caça às bruxas nos EUA – um episódio que ele metaforizou em “Sindicato dos Ladrões”. A viúva de Kazan, Frances, veio ao Brasil para prestigiar a Mostra e não conseguiu escapar de perguntas sobre a fama de traidor que perseguiu o cineasta até sua morte.

Se objeções podem ser feitas ao homem, não se pode reclamar do cineasta. Ou melhor, é possível fazer um pequeno protesto: ao trazer a psicologia para o cinema, ele acabou abrindo a porteira para outros diretores tentarem fazer o mesmo e fracassarem completamente. O psicologismo – ou seja, a tentativa de reduzir o comportamento humano a alguns tiques psicológicos – acabou se tornando uma das maiores pragas do cinema. Mas, para ser justo, a culpa não é de Kazan, mas da falta de talento de alguns de seus seguidores.

Retrospectiva Elia Kazan: Para a programação e a cobertura completas da Mostra, confira o especial do iG.

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24/10/2011 - 19:13

“Era uma Vez na Anatólia” traz experiência essencial

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É uma das cenas mais bonitas do cinema recente. Um bando de homens dorme improvisadamente na sala de uma casa do interior da Turquia, depois de uma exaustiva jornada madrugada adentro, uma investigação policial para descobrir onde está enterrado o corpo de uma vítima de assassinato.

De repente, surge diante de cada um deles um lindo rosto feminino iluminado apenas por um lampião, com uma bandeja de chá nas mãos. Os homens despertam entre atordoados e encantados, como se estivessem presenciando a aparição de um anjo, depois de horas de tédio, cansaço, brutalidade.

Depois de mais de uma hora de projeção, é a primeira vez que uma mulher aparece em cena em “Era uma Vez na Anatólia”, filme do turco Nuri Bilge Ceylan que ganhou o Grande Prêmio no Festival de Cannes e que será exibido na Mostra de São Paulo pela última vez nesta terça-feira.

Trata-se, portanto, de uma obra essencialmente masculina, que trabalha na borda entre dois gêneros tradicionais, o policial e o western, mas oferece um olhar novo para ambos.

Do western, o filme traz a ideia de desbravamento de um território inóspito e dos laços, de confronto ou companheirismo, que se estabelecem entre os homens que o empreendem.

Do policial, vem a própria trama sobre a investigação de um crime, em que um grupo formado por policiais, soldados, um promotor e um médico leva dois suspeitos de assassinato para localizar o cadáver da vítima.

Mas não espere nada parecido à série “CSI”, àquela rotina de causa e consequência, de crime e castigo. Ceylan não está interessado em descobrir culpados ou motivações. Ele pretende apenas revelar os dramas individuais daqueles homens em meio a procedimentos policiais descritos com a frieza de um BO. O cineasta tampouco parece disposto a seguir o ritmo acelerado típico de hollywood; seu policial é rarefeito, lento e longo (são mais de duas horas e meia de duração), com poucos diálogos e ainda menos ação.

Se em sua obra anterior (“Uzak”, “Climas”, “3 Macacos”, entre outros), Ceylan parecia destinado a empregar seu talento visual em filmes cada vez mais afetados e maneiristas, em “Era uma Vez na Anatólia” ele reaproxima seu cinema do essencial.

“Era uma Vez na Anatólia”: terça-feira, às 15h50, no Reserva Cultural. Para a programação e a cobertura completas da Mostra, confira o especial do iG.

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22/10/2011 - 07:58

Magia de Naomi Kawase não se repete em “Hanezu”

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Se fosse possível resumir o cinema da japonesa Naomi Kawase a uma única palavra – correndo o risco de um reducionismo vulgar -, essa palavra seria “mistério”. Cada uma das imagens de seus filmes, em especial os de ficção, parece envolta nessa bruma do inexplicável, do indecifrável. O real é visto como milagre; a natureza, como espelho e abrigo da aventura humana; o cinema, como experiência metafísica, transcendente.

Como mostrou uma recente retrospectiva no festival Indie em São Paulo, a capacidade para depurar, filme após filme, uma visão do mundo e um estilo de cinema muito particulares a levaram a criar uma das obras mais interessantes e originais da atualidade, com destaque para os excepcionais “Shara” (2003) e “Floresta dos Lamentos” (2007).

Mas seu novo filme – que a Mostra de São Paulo exibe em quatro sessões, a partir deste sábado -, traz um mistério de outra ordem: por que os elementos que marcam a obra de Kawase não surtem o mesmo efeito quando repetidos e reelaborados em “Hanezu”? Talvez porque o mistério do filme seja mais decifrável, talvez porque a poética de seu estilo soe mecânica pela primeira vez em sua obra.

“Hanezu” se passa na região de Asuka, considerado o berço do Japão. Como diz uma narração em off no início do filme, ali foi criada uma lenda de que os deuses vivem em três montes, Unebi, Miminashi e Kagu – dois deles masculinos em luta pelo amor do feminino. No presente, essa lenda se reflete, como um carma, na vida de três habitantes da região: uma mulher dividida entre o marido e o amante que fica grávida e determina um fim trágico para o triângulo amoroso.

Embora a beleza do estilo sensorial e contemplativo de Kawase esteja novamente presente em “Hanezu”, a magia parece nunca se concretizar aqui. Porque o paralelo entre natureza e homem, passado e presente, mito e realidade está explícito desde o princípio. Porque um momento de desespero da protagonista é sucedido por imagens de uma tempestade. Ou, ainda, por uma razão que tem algo a ver com a subjetividade do crítico. Uma razão misteriosa.

“Hanezu”: hoje, às 14h, no Unibanco Arteplex; dias 23, às 15h20, no Cine Livraria Cultura; dia 25, às 14h, no Reserva Cultural; dia 28, às 15h, na Faap. Para a programação e a cobertura completas da Mostra, confira o especial do iG.

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21/10/2011 - 12:00

Dardennes acertam em novo melodrama minimalista

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Olhe o pôster aí do lado. Se os nomes de Jean-Pierre e Luc Dardenne não estivessem em destaque, você nunca diria que se trata do novo filme dos irmãos belgas. Eles são conhecidos por estudos de personagens com profundas feridas emocionais causadas por uma família disfuncional, histórias ambientadas nas classes baixas da Bélgica, filmadas em chave realista com grande rigor estético. Obras excepcionais como “Rosetta”, “A Criança” ou “O Silêncio de Lorna”.

Mas o pôster de “O Garoto de Bicicleta”, que abriu ontem a Mostra de São Paulo e terá outra exibição na próxima segunda-feira, indica um filme solar, leve, esperançoso. Talvez sobre a relação maternal entre uma linda mulher (Cecile de France) e seu filho (Thomas Doret). Na verdade, é apenas um momento feliz em uma relação tumultada, com muitos baixos e poucos altos, entre um garoto de 11 anos que foi abandonado pelo pai em um abrigo de crianças e uma cabeleireira que aceita cuidar dele nos finais de semana.

A imagem do pôster é praticamente um spoiler do filme – que eu só confirmo aqui porque está em todas as críticas desde que o trabalho foi lançado em Cannes. “O Garoto da Bicicleta” não é um Dardenne alegre, mais livre e menos rigoroso. É um Dardenne clássico, com todas as marcas que fizeram a fama dos irmãos belgas. A grande virtude do filme não é abrir as portas da esperança ao final, mas conseguir criar uma obra de grande frescor sobre o perdão e a compaixão trabalhando com os mesmos elementos essenciais de sempre; conseguir despertar a emoção do espectador sem recorrer ao sentimentalismo. Mais um belo melodrama minimalista de dois autores fundamentais.

“O Garoto da Bicicleta”: dia 24/10, às 21h50, no Reserva Cultural. Para a programação e a cobertura completas da Mostra, confira o especial do iG.

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14/10/2011 - 15:05

Leon Cakoff foi artista de cinema

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Fundador e diretor da Mostra de Cinema de São Paulo. Crítico de cinema. Realizador de curtas e produtor de longas. Autor de livros. Um dos maiores nomes da resistência cultural no Brasil durante a ditadura, como lembra a nota de falecimento enviada pela Organizador da Mostra.

Todos os títulos para descrever Leon Cakoff – que morreu nesta sexta-feira, aos 63 anos, vítima de um câncer – são justos, mas talvez não sejam suficientes. Por que não simplesmente um artista de cinema?

Essa denonimação costuma ser aplicada a poucos profissionais, em geral diretores e atores. Mas há alguns pessoas de outras áreas do cinema no Brasil que também a merecem. Como Hernani Heffner na conservação. Como Inácio Araújo na crítica. E como Cakoff na curadoria da Mostra.

São poucos os cineastas que tiveram a importância e a influência que Cakoff para a cultura cinematográfica no Brasil. Como são poucos os personagens do cinema nacional que foram tão fascinantes quanto Cakoff – capaz de ir, em poucos minutos, de extremos de doçura a extremos de ferocidade (em geral na defesa da Mostra, de seus autores e filmes), de passar da megalomania à humildade. Viveu, enfim, artisticamente.

Para os muitos cinéfilos que se formaram nas fileiras da Mostra, como este que escreve, resta o enorme consolo de saber que o evento tornou-se maior que seu criador. E que seu legado persistirá pelas mãos de Renata de Almeida e da equipe da Mostra.

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14/10/2011 - 12:50

As mulheres merecem mais que Julia Roberts

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Antes de começar a maratona de duas semanas densas da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, uma pequena história de circuito comercial com final feliz.

Cineminha de final de semana com a mulher. As opções que agradam aos dois, e que ainda não foram vistas por um ou outro, são poucas. No final das contas, sobram aquelas duas alternativas que parecem “menos ruins”: o argentino “Medianeras” e o americaníssimo “Larry Crowne”, com Tom Hanks e Julia Roberts. Meio desanimados, mas sem querer desperdiçar a sogra com as crianças, vamos ao primeiro. Lotação esgotada. Então tentamos o segundo, em outro cinema.

Na fila para comprar os ingressos, bato o olho no horrível cartaz de um filme com um horrível título sobre o qual não tinha ouvido falar: “Missão Madrinha de Casamento”. À primeira vista, parece uma daquelas comédias românticas voltadas para mulheres com espírito de auto-ajuda. Mas uma frase no pôster chama a minha atenção: “Dos produtores de ‘O Virgem de 40 Anos’ e ‘Ligeiramente Grávidos’ ” – duas das minhas comédias preferidas dos últimos anos, com a assinatura do jovem mestre Judd Apatow. No último momento antes de chegar à bilheteria, mesmo desconfiado com o cartaz, agarro com unhas e dentes a chance de me livrar de Julia Roberts e Tom Hanks no domingo à tarde, com a anuência da minha compreensiva esposa. Dez minutos e algumas gargalhadas depois, eu só consigo pensar no chavão religioso: “Deus escreve certo por linhas tortas”.

Como muitos já apontaram, “Missão Madrinha de Casamento” é uma espécie de “Se Beber Não Case” para mulheres (o que, na minha opinião, vale como elogio), sobre uma mulher solteira que é convidada a organizar o casamento de sua melhor amiga e acaba enfrentando a concorrência de uma madrinha mais rica e bem-sucedida. Como : é um filme que chega a um delicado equilíbrio entre criticar convenções sociais (e cinematográficas), cortejar a grosseria com piadas escatológicas (incluindo uma cena em que mulheres defecam em vestidos de noiva) e, ao final, reforçar valores morais tradicionais (como a importância do matrimônio e da família).

É uma mistura que o cinema em geral reserva apenas aos homens. Mas, a julgar pelas gargalhadas das mulheres na sessão em que eu estava, há uma demanda feminina reprimida para esse tipo de filme. O feminismo também é isso: garantir às mulheres o direito a um pouco de vulgaridade consequente (e umas folgas das comédias românticas de Julia Roberts e Meg Ryan).

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06/10/2011 - 09:27

O legado de Steve Jobs para o cinema

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Um mês atrás, quando Steve Jobs deixou o comando da Apple, escrevi um artigo sobre alguns de seus ensinamentos que poderiam ser aplicados ao cinema. Além de criador do Mac, do iPhone e do iPad, Jobs foi o sujeito que enxergou o potencial da Pixar quando ela era uma produtora de curtas-metragens e investiu o dinheiro necessário para ela se tornar a melhor e maior estúdio de animação do mundo.

Não esperava escrever sobre Jobs tão cedo. Mas, enfim, as coisas aconteceram rápido demais. Abaixo, republico a maior parte do texto com as lições de Jobs para Hollywood, baseado em publicação do site FlixChatter.

“Eu tenho tanto orgulho do que nós não fizemos quanto do que nós fizemos”.

Ou seja, qualidade é mais importante que quantidade. Quando voltou à Apple em 1996 (11 anos após ser expulso da companhia que criou), Jobs mandou cortar a produção de vários produtos e focar em um pequeno grupo de maior potencial. Já a Pixar fez apenas 12 longas-metragens em 25 anos, mas a bilheteria média deles (US$ 602 milhões) é a maior entre todos estúdios de Hollywood. “A grande vantagem do Steve é que ele sabe que grande negócio vem de um grande produto. Primeiro você tem que acertar no produto, seja um iPod ou uma animação”, diz Peter Schneider, que foi presidente da Pixar.

“Você tem que se guiar pelas ideias, não pela hierarquia. As melhores ideias têm que vencer, caso contrário os melhores funcionários irão embora”.

Por mais que a maioria das pessoas associe Steve Jobs à tecnologia de ponta, o fundamental de seus produtos talvez seja a simplicidade: do uso, do design etc – o que ajuda a explicar o apego de tanta gente a seus produtos. O mesmo vale para a Pixar: embora a companhia
tenha sido a primeira um longa de animação digital, o forte de seus filmes é em geral as ideias, os personagens, a capacidade de se conectar emocionalmente ao público.

Por fim, uma última – e talvez a mais importante – lição de Jobs, que não está no artigo do FlixChatter, mas que roubei do Facebook de um amigo. Perguntado sobre pesquisas de mercado feitas para desenvolver o iPad, Steve Jobs disse:

“Não houve nenhuma, o consumidor nāo tem obrigaçāo nenhuma de saber o que quer”.

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