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Arquivo de novembro, 2011

28/11/2011 - 08:21

Documentário brasileiro marca terreno na Holanda

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No Tuchinsky, um imponente cinema de 90 anos no coração de Amsterdã, na Holanda, os espectadores fazem fila na bilheteria para ver “Amanhecer”, num sábado à noite. Mas, em uma sala menor, naquele mesmo horário, uma sessão de curtas experimentais brasileiros está lotada de holandeses, e quase todos permanecem ali depois para debater os filmes com dois diretores presentes, Carlos Nader e Clarissa Campolina.

Essa foi uma das centenas de sessões do IDFA (International Documentary Film Festival Amsterdam), maior festival de documentários do mundo, que exibiu mais de 250 filmes na edição que terminou neste domingo. Mas não foi uma experiência de exceção: quase todas as sessões que presenciei estavam cheias de pessoas interessadas em entender e debater os filmes – em um evento que parece dominar a cidade por dez dias. Como o Festival do Rio ou a Mostra de São Paulo, mas de forma mais concentrada geograficamente e focada apenas em documentários.

Neste ano, o Brasil foi o país homenageado, com retrospectiva dedicada a Eduardo Coutinho e uma seleção de 13 longas dos últimos 13 anos – incluindo “Santiago”, “33”, “Cidadão Boilensen”, “Corumbiara”, “Uma Noite em 67” e outros -, além dos cinco curtas experimentais incluídos na seção Paradocs. Os cineastas brasileiros ficaram surpresos com o tamanho e a organização do festival, as salas e os debates cheios e, sobretudo, com a receptividade do público em relação a propostas cinematográficas distantes tradicionais.

Nader, por exemplo, contou que o IDFA foi o primeiro festival de documentários a selecionar o curta “Carlos Nader” (1998). Antes, o filme havia sido recusado por outros festivais do tipo porque o trabalho era classificado como videoarte. Mas o próprio Nader acreditava que o curta, que discute a questão da identidade, era mesmo um documentário – o que só o IDFA viria reconhecer agora, 13 anos depois do lançamento do filme.

O IDFA deste ano também resolveu uma outra questão do documentário brasileiro: os filmes de Eduardo Coutinho viajam bem? Ou em outras palavras: documentários baseados nos discursos de anônimos podem ser apreciados fora do local onde foram feitos? A resposta do público holandês, nesse caso, foi um sonoro sim. Pelos relatos ouvidos no festival, Coutinho pode ter finalmente tido um reconhecimento externo equivalente ao que desfruta há anos no Brasil. Os espectadores holandeses ficaram particularmente emocionados com seu novo filme, “As Canções”, sem se importar com o fato de desconhecer as músicas em torno das quais o trabalho se constroi.

Não é uma questão de ufanismo: dentro do latifúndio do IDFA, a parte que coube ao cinema brasileiro era importante, mas relativamente pequena. E a verdade é que os holandeses receberam bem filmes de todos os cantos, com uma abertura para o novo que parece ser parte do caráter local. Mas o fato é que a homenagem ao Brasil no festival ajudou a marcar um terreno para um formato que vem dominando o número de produções no país (foram cinco documentários lançados em São Paulo nesta semana, o que talvez devesse gerar uma estratégia de lançamento das distribuidoras) e que tem ao menos um farol para iluminar os caminhos, na figura de Eduardo Coutinho – algo que o cinema de ficção brasileiro não possui há algum tempo.

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16/11/2011 - 09:46

Novo Almodóvar é uma experiência atordoante

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Existem poucas coisas mais bonitas do que ver um artista consagrado correndo riscos. É esse espetáculo que Pedro Almodóvar nos oferece em “A Pele que Habito”: depois de chegar ao topo da montanha, saltar no abismo – levando junto com ele o espectador.

Vinte e poucos anos atrás, com “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, o cineasta se tornou mestre de seu próprio gênero: a comédia almodovariana. Ele podia ter se conformado, mas preferiu dar uma guinada.

Dez anos atrás, com “Fale com Ela”, ele dominou outro gênero particular: o melodrama almodovariano. Podia novamente ter relaxado, mas iniciou outra virada.

Veio uma série de filmes de crise: “Má Educação”, “Volver”, “Abraços Partidos”, em que ele desconstrói sua fórmula de sucesso, num processo de talentosa autosabotagem.

Com “A Pele que Habito”, a crise chega a seu paradoxo: é o filme mais desconjuntado – e talvez, ao mesmo tempo, o mais arriscado – de sua carreira. Faz todo sentido: é uma obra de e sobre retalhos.

Um filme sobre a impossibilidade de reconstruir uma pessoa, um amor, uma obsessão, a partir dos retalhos de outras – tarefa à qual se dedica o protagonista, o cirurgião plástico Robert (Antonio Banderas). E sobre a possibilidade de fazer um filme com os retalhos de outros – a missão de Almodóvar.

É como se o cineasta tivesse colocado no liquidificador todas suas influências – dos filmes que viu e dos filmes que fez – e depois tentasse colar os pedaços: de “Frankenstein” e “Um Corpo que Cai”, de “Carne Trêmula” até “Ata-me” (que traz o mesmo Banderas no papel de um sequestrador e violentador, mas que, diante do sofisticado sadismo de “A Pele que Habito”, volta à memória como um divertimento pueril).

Se um filme – um grande filme – resulta dessa delicada operação, é graças à maestria de Almodóvar, ainda mais brilhante como cirurgião do que seu protagonista. Poucos cineastas conseguiriam costurar algo com personalidade a partir de tantos pedaços soltos.

“A Pele que Habito” pega um tema essencial a Almodóvar – a não-conformidade com os gêneros sexuais, que, em sua obra, espelha a não-conformidade com os gêneros cinematográficos – e o leva ao patamar da insanidade. Sai o despudor, entra o desatino. Sai o excêntrico, entra o patológico.

Eu saí do cinema tão atordoado que precisei chegar em casa, ligar a TV e ver alguma imagem reconfortante – a novela do Pereirão, um episódio de “Two and a Half Man” – para tentar esquecer as cenas de “A Pele que Habito” que martelavam a minha cabeça. Desnecessário dizer que foi inútil.

P.S.: depois de ter visto “O Garoto da Bicicleta”, “Era uma Vez na Anatólia” e, sobretudo, “A Pele que Habito”, todos filmes que competiram no último Festival de Cannes, eu me pergunto o que os jurados teriam bebido para dar a Palma de Ouro a “A Árvore da Vida”.

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11/11/2011 - 11:23

Geração de atores garante futuro do cinema brasileiro

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Algum tempo atrás, Selton Mello deu uma entrevista para o Canal Brasil dizendo algo como: “No futuro, as pessoas vão se dar conta de que o cinema brasileiro do começo dos anos 2000 foi marcado por uma geração de jovens atores”. Não lembro exatamente que nomes ele citou, mas certamente Wagner Moura, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Caio Blat, Daniel de Oliveira e o próprio Selton deveriam estar entre eles.

A frase me voltou à cabeça ao assistir à impecável performance de Lázaro em “Amanhã Nunca Mais”, que chega aos cinemas nesta sexta-feira. Seria apenas a temporã e competente estreia em longa-metragem de Tadeu Jungle, que renovou a linguagem da TV brasileira nos anos 80, mas a interpretação de Lázaro leva o filme a outro patamar. Ele torna crível não apenas seu personagem – um anestesista incapaz de dizer não, vivendo um dia de pesadelo urbano em São Paulo –, mas tudo que ele toca.

Se olharmos para trás, veremos que vários outros filmes brasileiros recentes foram ou salvos da mediocridade ou tiveram um salto de qualidade graças ao trabalho desses atores. O que seria dos dois “Tropas de Elite”, de “VIPs”, de “O Homem do Futuro” sem Wagner Moura? De “Bróder” sem Caio Blat? De “Jean Charles” sem Selton? E assim por diante. Suas atuações são, sem exceção, superiores ao próprio filme. De certa forma, eles são co-autores dessas obras.

No cinema argentino, há um rosto oficial: Ricardo Darín. No brasileiro, há cinco ou seis. Eles deram a cara do cinema brasileiro pós-retomada, mais do qualquer diretor, talvez até mais do que qualquer temática (globochanchada, filme de favela) ou qualquer estética (televisiva, publicitária).

E ainda há uma série de atores e atrizes que pode se juntar a esse grupo quando tiver mais papeis de protagonista – de Irandhir Santos a Cauã Raymond, de Leandra Leal a Hermilla Guedes –, todos muito jovens. Além dos muitos diretores estreantes que chegaram à tela nestes últimos dois anos, essa geração de atores é uma promessa muito concreta de futuro para o cinema brasileiro.

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03/11/2011 - 07:47

Dois filmes para fechar a Mostra

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A Mostra de São Paulo vai chegando a seu fim e, com ele, vem a inevitável sensação de que muita coisa boa foi perdida em meio a mais uma maratona de filmes.

Mas hoje ainda dá para tirar o atraso com dois filmes que oferecem uma satisfação quase garantida. O primeiro deles é “Os Contos da Noite”, novo trabalho do mestre da animação francês Michel Ocelot, o mesmo de “Kirikou e a Feiticeira” e “As Aventuras de Azur e Asmar”.

Ocelot volta a trabalhar com a tradicional técnica chinesa do teatro de sombras, em que as figuras aparecem como silhuetas negras sobre cenários coloridos – a mesma que havia empregado em “Príncipes e Princesas” (2000) e na série para a TV francesa “Dragões e Princesas” (2010).

“Os Contos da Noite” é derivado justamente dessa série. Na TV, eram dez episódios que reinventavam antigas lendas de diferentes países – a especialidade do animador francês. Para o cinema, Ocelot manteve seis deles.

O elo de ligação entre esses seis curtas é uma conversa entre um animador (possível alter ego de Ocelot) e seus dois ajudantes. Eles discutem qual o desenho que farão juntos a seguir, lembram de antigas lendas, debatem sobre diferentes técnicas e aí surgem na tela cada um dos episódios.

Para as crianças, é uma aula sobre diferentes culturas e tipos de animação. Para os adultos, uma garantia de deslumbramento estético com a obra de um dos últimos grandes mestres de desenho artesanal, ao lado do japonês Hayao Miyazaki (“A Viagem de Chihiro”).

O segundo filme a ser visto hoje na Mostra é “Che – Um Novo Homem”, do argentino Tristán Bauer, que oferece um tipo de fruição muito diferente do de “Os Contos da Noite”. É um documentário convencional, sem novidades estéticas, mas absolutamente completo sobre Che Guevara, com suas mais de duas horas de duração.

Depois de alguns filmes importantes sobre o revolucionário argentino – como “Diários da Motocicleta”, de Walter Salles, e o “Che” de Steven Soderbergh –, agora surge a chance de comparar sua versão ficcional com a figura real.

E “Um Novo Homem” não economiza nos detalhes, oferecendo o mais amplo material já reunido sobre Che, incluindo algumas raridades como fotos da infância na Argentina, um filmete sobre uma passagem por Punta del Este logo após a Revolução Cubana e uma emocionante carta para sua mulher. Tudo amarrado por uma narrativa em off tradicional, mas dentro do possível objetiva.

“Che” não quer ser um documentário revolucionário. Para ele, basta ser sobre um revolucionário. Nesse sentido, é um documento histórico precioso. Neste momento em que revoluções jovens pipocam pelo mundo todo, nada como voltar um pouco ao revolucionário essencial.

“Os Contos da Noite”: hoje, às 16h50, na Cinemateca. “Che – Um Novo Homem”: hoje, ás 17h30, no MIS. Para a programação e cobertura completas, confira o especial do iG.

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01/11/2011 - 22:22

George Clooney faz filme político adulto

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As virtudes exibidas por George Clooney até aqui como diretor são antes as de um técnico de futebol do que as de um grande cineasta.

Em seu novo filme, “Tudo pelo Poder”, ele repete a estratégia de “Boa Noite e Boa Sorte” (2005), sua obra política anterior: pega um belo material de origem (no caso, a peça “Farragut North”, de Beau Willimon), escala os melhores jogadores em atividade (os veteranos Phillip Seymour Hoffman e Paul Giamatti, os jovens Ryan Gosling e Evan Rachel Wood, além do próprio Clooney) e os deixa livres para jogar. Mas não há, ainda, uma estratégia definida como cineasta, um estilo distinto.

É uma característica semelhante ao que ocorre com o ator Clooney: sem ser brilhante, ele sabe escolher os filmes, sabe trabalhar com suas limtações dramáticas, sabe a hora de sorrir para parecer charmoso.

Em vez de voltar ao passado para falar do presente, como em “Boa Noite e Boa Sorte”, agora Clooney vai direto ao ponto e mostra os bastidores das primárias para escolher o candidato democrata a presidente, em um filme sobre o momento atual da política americana e repleto de referências a nomes reais.

O protagonista é o idealista assessor de imprensa Stephen Meyers (Gosling), braço-direito de Paul Zara (Hoffman), pragmático coordenador de campanha do candidato Mike Morris (Clooney), governador aparentemente bem-intencionado.

Em meio à campanha, Meyers tromba com um dilema ético e outro moral. O primeiro surge com um convite para trabalhar para o rival de Morris, feito por Tom Duffy (Giamatti), cínico coordenador do outro candidato democrata.

Já a questão moral vem com a descoberta de que uma estagiária da campanha de Morris (Evan Rachel Wood), com quem Meyers inicia um caso, está grávida do governador.

De um lado, “Tudo pelo Poder” pode ser encara do como uma crítica – ou, talvez melhor, um aviso – ao Partido Democrata, com o qual o próprio Clooney tem ligações históricas. Clooney parece dar um alerta: se os democratas trocarem o idealismo pelo cinismo, eles em breve não se distinguirão dos republicanos.

Mas há uma leitura mais pessoal, menos política do filme. Nela, Meyers seria uma nova versão do mito de Fausto, o homem que vendeu sua alma a Mefistófeles em troca do sucesso. E aí Clooney estaria dizendo que a concessão e a corrupção não são problemas partidários, mas antes de tudo humanas.

O ator pode ainda não ter estilo como diretor, mas ele nos oferece novamente uma visão adulta sobre a política americana – o que é bem mais do que Hollywood costuma oferecer.

“Cisne”: dia 2, às 20h20, no Unibanco Pompeia; dia 3, às 22h20, no Unibanco Frei Caneca. Para a programação e cobertura completas, confira o especial do iG.

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