Publicidade

Publicidade
16/11/2011 - 09:46

Novo Almodóvar é uma experiência atordoante

Compartilhe: Twitter

Existem poucas coisas mais bonitas do que ver um artista consagrado correndo riscos. É esse espetáculo que Pedro Almodóvar nos oferece em “A Pele que Habito”: depois de chegar ao topo da montanha, saltar no abismo – levando junto com ele o espectador.

Vinte e poucos anos atrás, com “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, o cineasta se tornou mestre de seu próprio gênero: a comédia almodovariana. Ele podia ter se conformado, mas preferiu dar uma guinada.

Dez anos atrás, com “Fale com Ela”, ele dominou outro gênero particular: o melodrama almodovariano. Podia novamente ter relaxado, mas iniciou outra virada.

Veio uma série de filmes de crise: “Má Educação”, “Volver”, “Abraços Partidos”, em que ele desconstrói sua fórmula de sucesso, num processo de talentosa autosabotagem.

Com “A Pele que Habito”, a crise chega a seu paradoxo: é o filme mais desconjuntado – e talvez, ao mesmo tempo, o mais arriscado – de sua carreira. Faz todo sentido: é uma obra de e sobre retalhos.

Um filme sobre a impossibilidade de reconstruir uma pessoa, um amor, uma obsessão, a partir dos retalhos de outras – tarefa à qual se dedica o protagonista, o cirurgião plástico Robert (Antonio Banderas). E sobre a possibilidade de fazer um filme com os retalhos de outros – a missão de Almodóvar.

É como se o cineasta tivesse colocado no liquidificador todas suas influências – dos filmes que viu e dos filmes que fez – e depois tentasse colar os pedaços: de “Frankenstein” e “Um Corpo que Cai”, de “Carne Trêmula” até “Ata-me” (que traz o mesmo Banderas no papel de um sequestrador e violentador, mas que, diante do sofisticado sadismo de “A Pele que Habito”, volta à memória como um divertimento pueril).

Se um filme – um grande filme – resulta dessa delicada operação, é graças à maestria de Almodóvar, ainda mais brilhante como cirurgião do que seu protagonista. Poucos cineastas conseguiriam costurar algo com personalidade a partir de tantos pedaços soltos.

“A Pele que Habito” pega um tema essencial a Almodóvar – a não-conformidade com os gêneros sexuais, que, em sua obra, espelha a não-conformidade com os gêneros cinematográficos – e o leva ao patamar da insanidade. Sai o despudor, entra o desatino. Sai o excêntrico, entra o patológico.

Eu saí do cinema tão atordoado que precisei chegar em casa, ligar a TV e ver alguma imagem reconfortante – a novela do Pereirão, um episódio de “Two and a Half Man” – para tentar esquecer as cenas de “A Pele que Habito” que martelavam a minha cabeça. Desnecessário dizer que foi inútil.

P.S.: depois de ter visto “O Garoto da Bicicleta”, “Era uma Vez na Anatólia” e, sobretudo, “A Pele que Habito”, todos filmes que competiram no último Festival de Cannes, eu me pergunto o que os jurados teriam bebido para dar a Palma de Ouro a “A Árvore da Vida”.

Autor: - Categoria(s): Sem categoria Tags:

Ver todas as notas

5 comentários para “Novo Almodóvar é uma experiência atordoante”

  1. fábio... disse:

    ………………………………………………………………………………………………..
    ………………………………………………………………………………………………..
    ……………………………….A RRÁ SO UUUUU…..
    ………………………………………………………………………………………………..
    ……………………………………..RICARDÃO.
    ………………………………………………………………………………………………..
    ……………………………………VALEU CARA.
    ……………………………………………………………………………………………….

  2. Calil, concordo totalmente – também tive essa sensação atordoante, tenho que admitir que levei até alguns dias para conseguir filtrar no meio da minha perturbação se tinha gostado do filme…

    E concordo ainda mais que os jurados beberam muito para escolher ‘A Árvore da Vida’. Até de ‘Melancolia’ eu gostei mais… De ‘Era uma vez na Anatólia’ e ‘A pele que habito’ nem se fala!

  3. Sirena disse:

    O filme tem , pra mim, a característica mais forte do Almodóvar: dar á cenas que seriam facilmente grotescas e ridículas uma delicadeza sublime. O final desse filme é a prova disso! Aliás, esse A origem da vida é pedante e pretensioso , ruinzinho á beça!

  4. Mateus disse:

    “Um filme sobre a impossibilidade de reconstruir uma pessoa, um amor, uma obsessão, a partir dos retalhos de outras (…)”

    Acho que TAMBÉM é um filme sobre isso. Mas isso da perspectiva do personagem de Banderas. Porque a tentativa de resistência da individualidade interna, em Vera/Vicente, é um ponto muito mais premente nestes personagens, suponho.

  5. […] Leia também: Novo Almodóvar é uma experiência atordoante […]

Os comentários do texto estão encerrados.

Voltar ao topo