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Arquivo de dezembro, 2011

23/12/2011 - 09:33

Os melhores filmes brasileiros de 2011

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Depois da lista de melhores filmes internacionais de 2011, aí vai a dos nacionais.

Primeira observação: foi um ano forte, muito forte, do cinema nacional. Se em anos passados foi necessário forçar um pouco a barra para chegar a um top 10, desta vez faltou lugar para todo mundo.

Segunda observação: diferentemente do cinema internacional, o ano do cinema nacional foi dos jovens cineastas. Com exceção de dois filmes da lista, todos os filmes foram feitos por cineastas que ou estão estreando em longa ou estão no segundo longa. Só o fato de todos terem chegado concomitantemente ao circuito comercial talvez seja a melhor notícia para o cinema brasileiro em muito tempo.

Terceira observação: este foi o ano da ficção. Em anos anteriores, os documentários representavam uma fatia sempre considerável, às vezes majoritária, nesta lista. Agora são apenas dois dos dez.

Quarta (e de novo óbvia) observação: não deu para ver tudo. Ficções e documentários importantes, como respectivamente “A Alegria” e “Diários de uma Busca”, foram perdidos na correria, mas ainda serão vistos em algum momento.

Quinta (e mais longa) observação, repleta de “suboservações”: para não dizer que tudo é festa, e odeio bater anualmente nesse mesma tecla, o cinema brasileiro está muito longe de superar os problemas de distribuição e divulgação. Como saiu publicado recentemente, um terço dos filmes nacionais não chega a 1 mil espectadores. É o caso de alguns filmes da relação abaixo, incluindo o primeiro da lista, “Os Residentes”, de Tiago Mata Machado. Longe de ser um especialista em política cinematográfica, eu vou me arriscar a apontar alguns dedos. 1) Instituições governamentais e entidades de classe precisam urgentemente priorizar políticas de distribuição, que vão da construção de cinemas populares, com preferência para exibição de filmes nacionais, até apoio a projetos de distribuição alternativas – como, para citar apenas um exemplo, a Rede Brazucah!, que exibe filmes brasileiros em universidades. Se for preciso produzir menos para distribuir melhor – ou seja, realocar dinheiro de uma área para outra –, que seja. 2) A grande imprensa deveria abrir espaço para filmes brasileiros no momento em que eles mais precisam; ou seja, quando chegam ao circuito comercial. “Os Residentes” ganhou resenhas nos grandes jornais quando foi exibido no Festival de Brasília, depois na Mostra de Tiradentes. Quando entrou em cartaz, e posso estar sendo injusto, não me lembro de ter visto nenhuma crítica na grande imprensa. Em festivais, os filmes se viram: vão ter público, imprensa local, tapinhas nas costas, sinceros ou não. No circuito, eles em geral morrem. 3) Cadê os cinéfilos, mano? Vou pegar de novo o exemplo de “Os Residentes”, mas podia ser quase qualquer um da lista. O filme provoca polêmica em Brasília, ganha Tiradentes, é selecionado para Veneza, aí chega em cartaz e nem mil pessoas tiram a bunda do sofá para assisti-lo. Nem que seja para dizer que o diretor é uma farsa ou que eu estou viajando para colocá-lo no topo da lista. Não é possível que não haja mil pessoas em São Paulo e Rio que gostem de cinema, tenham ouvido falar desses filmes e ficado minimamente intrigado com suas propostas. Não é só culpa do governo e da mídia, não. Não se pergunte o que a América pode fazer por você, mas o que você pode fazer pela América.

E, agora, depois desse infindável prólogo, a lista.

“Os Residentes”, de Tiago Mata Machado

“Riscado”, de Gustavo Pizzi 

“As Canções”, de Eduardo Coutinho

“Estrada para Ythaca”, de Irmãos Pretti & Primos Parente

“O Palhaço”, de Selton Mello

“Os Monstros”, de Irmãos Pretti & Primos Parente

“Além da Estrada”, de Charly Braun

“Transeunte”, de Eryk Rocha

“Corpos Celestes”, de Marcos Jorge e Fernando Severo

“Família Braz – Dois Tempos”, de Dorrit Harazim e Arthur Fontes

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19/12/2011 - 17:43

Os 10 melhores filmes estrangeiros de 2011

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Como algumas publicações já vêm me pedindo a lista dos melhores filmes do ano, é justo publicá-la logo aqui, embora o ano não tenha chegado ao fim.

Primeira observação: como já disse o amigo Eduardo Valente, as notícias sobre a morte do cinema são francamente exageradas. Olhando para a relação abaixo, acho que ela não fica a dever a nenhum suposto ano de ouro do cinema. Eu diria mais: qualquer um dos cinco primeiros colocados poderia tranquilamente estar no topo da lista – possivelmente, eu mudaria esses lugares se fizesse a lista na semana que vem.

Segunda observação: 2011 foi um ano dos mestres. Kiarostami, Almodóvar, Oliveira, irmãos Dardenne, Allen e Pahani realizaram não apenas alguns dos melhores filmes do ano, mas alguns dos melhores de suas gloriosas carreiras. E Eastwood (“Além da Vida”) e irmãos Coen (“Bravura Indômita”) não entraram na lista por pouco. Cineastas em um estágio digamos “intermediário” da carreira (com mais de três e menos de dez longas no currículo), como Lee Chang-dong, Apichatpong Weeresathakul, J.J. Abrams e Rupert Wyatt formam um grupo menor, mas que deixa esperanças para o futuro.

Terceira (e óbvia) observação: não deu para ver tudo. Não consegui assistir a alguns filmes celebrados, como “Vênus Negra” e “L’Appolonide” (este ainda vai entrar em cartaz). Se for o caso, revejo a lista no futuro. Em outros casos, a ausência se deve mesmo à falta de gosto pelo filme, como nos casos de “A Árvore da Vida” e “Melancolia”, que devem frequentar muitas outras listas.

“Poesia”, de Lee Chang-dong

“Isto Não é um Filme”, de Jafar Pahani

“Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas”, de Apichatpong Weerasethakul

“A Pele que Habito”, de Pedro Almodóvar

“Cópia Fiel”, de Abbas Kiarostami

“Super 8”, de J.J. Abrams

“Singularidades de uma Rapariga Loira”, de Manoel de Oliveira

“Meia-noite em Paris”, de Woody Allen

“O Garoto de Bicicleta”, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

“Planeta dos Macacos: A Origem”, de Rupert Wyatt

Em breve, publico aqui a lista dos melhores filmes brasileiros do ano. Mas já adianto que as notícias sobre a morte do cinema brasileiro tampouco fazem sentido.

Nesse meio tempo, aguardo a sua lista dos dez melhores filmes estrangeiros, caro leitor. E, claro, suas reclamações contra a minha relação.

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12/12/2011 - 11:49

Eduardo Coutinho, o rei do melodrama

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Em um acesso de raiva, a mulher atira em seu amante duas, três vezes, mas a arma falha. Ela sai do carro onde estavam e volta a pé para casa.

Outra mulher volta para casa decidida a matar a própria filha, para se vingar de seus pais, que sequestraram seu outro filho. No trem, encontra um desconhecido que escolhe para ser homem de sua vida. Desiste da vingança.

Um garoto recusa sistematicamente os convites do pai para irem à praia juntos, até que, certo dia, o pai morre num acidente de trabalho em uma plataforma de petróleo. Adulto, ele não consegue se livrar da culpa.

As histórias acima poderiam estar em uma retrospectiva do cineasta alemão Douglas Sirk, o mestre do melodrama, diretor de “Imitação da Vida” (1959) e “Palavras ao Vento” (1956). Ou em uma novela do SBT. Mas estão em “As Canções”, o novo documentário de Eduardo Coutinho.

Nós da crítica costumamos usar conceitos bonitos para analisar a obra de Coutinho, discorrendo sobre como ela é marcada pela ficcionalização do real, ou pela autoficção etc etc. Tudo isso faz sentido, mas “As Canções” vem nos lembrar que há um aspecto anterior, mais simples e talvez mais essencial, na obra do cineasta que geralmente passa despercebido: Coutinho gosta de sangue e de lágrimas, de mulheres destruídas pela traição e homens arrependidos de seus pecados.

Coutinho não é nosso Jean Rouch, nem nosso Robert Bresson. Ele é nosso Douglas Sirk, o nosso Emilio Fernandez, o nosso rei do melodrama – algo que o estilo ascético, minimalista, dos seus filmes ajuda a disfarçar.

Como Coutinho é um documentarista, sua abordagem do melodrama é necessariamente distinta da de um diretor de ficção. Em vez de inventar histórias, ele estimula as pessoas a relembrar/reinventar episódios de suas vidas como um filme, em um processo de coautoria entre o cineasta e seus personagens.

Coutinho costuma afirmar que escolhe seus personagens pelo talento narrativo. Indo um pouco além, é possível dizer que os melhores deles são aqueles que têm as narrativas mais cinematográficas (veja o começo deste texto para notar como essas histórias podem ser tão “imagéticas”). De certa forma, isso ajuda a explicar por que os filmes de Coutinho são grande “entretenimento”, apesar do caráter estático, espartano da filmagem.

Embora a maioria dos filmes de Coutinho tenha algum elemento melodramático (de “Cabra Marcado para Morrer” até “Um Dia na Vida”), há um “núcleo duro” do melodrama em sua obra, formado por “Edifício Master”, “Jogo de Cena” e agora “As Canções”.

Em “Master”, o gatilho do melodrama é a própria memória dos personagens, estimulada pelo cineasta. Como Coutinho não gosta de se repetir, em “Jogo de Cena” ele inventa o dispositivo de embaralhar personagens e atrizes, histórias contadas e reencenadas. E, em “As Canções”, há as músicas preferidas das pessoas ouvidas. Mas o escopo temático dos três filmes varia pouco: grandes amores, grandes traições, grandes perdas. Se alguém se dispuser a somar o número de histórias de mulheres traídas e abandonadas nesses três filmes, certamente irá se surpreender com o resultado. Depois vale contar a quantidade de conflitos entre pais e filhos.

Dentro dessa opção do Coutinho pelo melodrama, é absolutamente natural que as músicas de dor de cotovelo formem o grosso do caldo de “As Canções”. Na música popular, elas são o equivalente do dramalhão da telenovela: espelhos em que a dor pode ser refletida, reelaborada, reinventada. Ao cantar uma música, nós encenamos a emoção do cantor, mas também reencenamos a emoção que sentimos ao ouvi-la, em diferentes momentos da vida. Nesse sentido, “As Canções” é prima de “Edifício Master”, mas irmã de “Jogo de Cena”: há no filme um dispositivo muito simples que embaralha de forma muito complexa o que entendemos como real e ficcional.

Por isso, me parece um pouco apressado o desejo de classificar “As Canções” como um Coutinho menor ou mais fácil, na comparação com os anteriores “Moscou” e “Um Dia na Vida”. O fato de a filmagem ter sido simples, como o próprio cineasta já contou, ou de a escolha pela música oferecer um prazer mais imediato não levou a um filme menos rico, com menos camadas de compreensão. Em “As Canções”, Coutinho continua melodramático, continua se renovando, continua invacilável.

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