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12/12/2011 - 11:49

Eduardo Coutinho, o rei do melodrama

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Em um acesso de raiva, a mulher atira em seu amante duas, três vezes, mas a arma falha. Ela sai do carro onde estavam e volta a pé para casa.

Outra mulher volta para casa decidida a matar a própria filha, para se vingar de seus pais, que sequestraram seu outro filho. No trem, encontra um desconhecido que escolhe para ser homem de sua vida. Desiste da vingança.

Um garoto recusa sistematicamente os convites do pai para irem à praia juntos, até que, certo dia, o pai morre num acidente de trabalho em uma plataforma de petróleo. Adulto, ele não consegue se livrar da culpa.

As histórias acima poderiam estar em uma retrospectiva do cineasta alemão Douglas Sirk, o mestre do melodrama, diretor de “Imitação da Vida” (1959) e “Palavras ao Vento” (1956). Ou em uma novela do SBT. Mas estão em “As Canções”, o novo documentário de Eduardo Coutinho.

Nós da crítica costumamos usar conceitos bonitos para analisar a obra de Coutinho, discorrendo sobre como ela é marcada pela ficcionalização do real, ou pela autoficção etc etc. Tudo isso faz sentido, mas “As Canções” vem nos lembrar que há um aspecto anterior, mais simples e talvez mais essencial, na obra do cineasta que geralmente passa despercebido: Coutinho gosta de sangue e de lágrimas, de mulheres destruídas pela traição e homens arrependidos de seus pecados.

Coutinho não é nosso Jean Rouch, nem nosso Robert Bresson. Ele é nosso Douglas Sirk, o nosso Emilio Fernandez, o nosso rei do melodrama – algo que o estilo ascético, minimalista, dos seus filmes ajuda a disfarçar.

Como Coutinho é um documentarista, sua abordagem do melodrama é necessariamente distinta da de um diretor de ficção. Em vez de inventar histórias, ele estimula as pessoas a relembrar/reinventar episódios de suas vidas como um filme, em um processo de coautoria entre o cineasta e seus personagens.

Coutinho costuma afirmar que escolhe seus personagens pelo talento narrativo. Indo um pouco além, é possível dizer que os melhores deles são aqueles que têm as narrativas mais cinematográficas (veja o começo deste texto para notar como essas histórias podem ser tão “imagéticas”). De certa forma, isso ajuda a explicar por que os filmes de Coutinho são grande “entretenimento”, apesar do caráter estático, espartano da filmagem.

Embora a maioria dos filmes de Coutinho tenha algum elemento melodramático (de “Cabra Marcado para Morrer” até “Um Dia na Vida”), há um “núcleo duro” do melodrama em sua obra, formado por “Edifício Master”, “Jogo de Cena” e agora “As Canções”.

Em “Master”, o gatilho do melodrama é a própria memória dos personagens, estimulada pelo cineasta. Como Coutinho não gosta de se repetir, em “Jogo de Cena” ele inventa o dispositivo de embaralhar personagens e atrizes, histórias contadas e reencenadas. E, em “As Canções”, há as músicas preferidas das pessoas ouvidas. Mas o escopo temático dos três filmes varia pouco: grandes amores, grandes traições, grandes perdas. Se alguém se dispuser a somar o número de histórias de mulheres traídas e abandonadas nesses três filmes, certamente irá se surpreender com o resultado. Depois vale contar a quantidade de conflitos entre pais e filhos.

Dentro dessa opção do Coutinho pelo melodrama, é absolutamente natural que as músicas de dor de cotovelo formem o grosso do caldo de “As Canções”. Na música popular, elas são o equivalente do dramalhão da telenovela: espelhos em que a dor pode ser refletida, reelaborada, reinventada. Ao cantar uma música, nós encenamos a emoção do cantor, mas também reencenamos a emoção que sentimos ao ouvi-la, em diferentes momentos da vida. Nesse sentido, “As Canções” é prima de “Edifício Master”, mas irmã de “Jogo de Cena”: há no filme um dispositivo muito simples que embaralha de forma muito complexa o que entendemos como real e ficcional.

Por isso, me parece um pouco apressado o desejo de classificar “As Canções” como um Coutinho menor ou mais fácil, na comparação com os anteriores “Moscou” e “Um Dia na Vida”. O fato de a filmagem ter sido simples, como o próprio cineasta já contou, ou de a escolha pela música oferecer um prazer mais imediato não levou a um filme menos rico, com menos camadas de compreensão. Em “As Canções”, Coutinho continua melodramático, continua se renovando, continua invacilável.

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3 comentários para “Eduardo Coutinho, o rei do melodrama”

  1. fábio... disse:

    ………………………………………………………………………………………………..
    ………………………………” melodramático ” ?
    ………………………………………………………………………………………………..
    ………………………………Não sei não,…. Calil !?
    ………………………………………………………………………………………………..
    ……………………………………….Prá mim,
    ……………………………………………………………………………………………….
    … ……………..MÉLOdramático é algo bem exagerado
    ……………………………………………………………………………………………….
    ………………………..e não é o caso do Coutinho.
    ……………………………………………………………………………………………….
    ……………….Acho que ele fica no ” grau “,….Dramático.
    ……………………………………………………………………………………………….
    …………..São drãmas baseados na vida real,…….ou não.
    ……………………………………………………………………………………………….
    ……………….Porém, o que eu gostei no teu texto foi do,
    ………………………………………………………………………………………………
    …………………………………” INVACILÁVEL “.
    ……………………………………………………………………………………………….
    ………………….Acho que poderia estar lá no título,
    ………………………no lugar do,… ” melodrama “.
    ……………………………………………………………………………………………….
    ……………………………………….Tipo :
    ……………………………………………………………………………………………….
    …………………….” O invacilável Coutinho lança
    ………………………………………………………………………………………………
    …………………………………com dores de
    ……………………………Coração e Cotovelo,
    ……………………………………………………………………………………………….
    ……………………………………..Canções,
    ……………………………………………………………………………………………….
    …………………..e mais uma vez acerta a,… mão ”
    ……………………………………………………………………………………………….

  2. Marcelo Poletti disse:

    Melodrama ou não, a platéia na minha sessão aplaudiu (nunca tinha visto isso) Meu amigo me disse que a sessão dele (outra) houve aplausos da platéia. Simplsmente ele fala de seres humanos, sem máscara – assim como o é.

  3. giovanibarros disse:

    Olá, Ricardo, tudo bem! Concordo plenamente que o melodrama é base pra construção da narrativa dos filmes do Coutinho. Inclusive não somente as questões mais temáticas, mas estabelecendo reiterações narrativas durante o filme todo. Aliás, tem uma tese de um tempo atrás, de uma professora da UFF, a Mariana Baltar, que já apontava isso de forma bastante contundente. Recomendo fortemente a leitura do texto dela!!

Os comentários do texto estão encerrados.

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