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25/01/2012 - 11:25

O fim da odisseia de Theo Angelopoulos

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Houve um momento, entre o final dos 80 e o final dos 90, que o grego Theo Angelopoulos parecia ser a salvação do chamado “cinema de arte”. Era a época de “Paisagem na Neblina” (1988) e “A Eternidade e um Dia” (1995), filmes que encantaram uma geração de cinéfilos que freqüentava a Mostra de Cinema de São Paulo com sua narrativa rarefeita e seu ritmo contemplativo, trabalhos mais preocupados com a atmosfera do que a didática, fundados antes nos silêncios do que nos diálogos. Angelopoulos parecia, então, o descendente direto do italiano Michelangelo Antonioni e do russo Andrei Tarkóvski, a figura heroica que poderia salvar o cinema do vil mercantilismo e recuperar sua essência artística.

Era uma aposta alta demais para ser ganha. Nos anos 2000, o nome de Angelopoulos foi aos poucos sumindo do circuito de festivais – algo que pode ser explicado não só pela diminuição de seu ritmo de produção, mas também pela disseminação de muitas características de sua obra entre cineastas menos talentosos – que as reduziram a clichês de filme de arte. Quando a Mostra de São Paulo fez uma retrospectiva de sua obra em 2009, parecia uma homenagem a um cineasta do passado – e não a um diretor ainda vivo e atuante.

Mas, mesmo com a promessa nunca plenamente realizada, fica uma obra mais do que digna, com alguns pontos muito altos, e que foi tragicamente interrompida pelo atropelamento que matou ontem Angelopoulos, aos 76 anos, em meio às filmagens de seu novo trabalho. Um evento abrupto e inesperado que rompe a lógica da rotina – como a inesquecível cena da estátua de Stálin transportada por um barco em meio à neblina em “A Eternidade e um Dia” .

Abaixo, reproduzo os principais trechos do texto que escrevi neste blog sobre a retrospectiva do cineasta grego na Mostra de 2009:

Longos planos sem corte. Câmera quase sempre estática. Silêncios intermináveis. Personagens que vagam em busca da própria identidade e que parecem carregar o peso da história sobre as costas. As características essenciais da obra do diretor grego Theo Angelopoulos são quase um “greatest hits” do que muitas pessoas enxergam, para o mal e para o bem, como um “filme de festival”.

O fato de a obra do cineasta grego se encaixar em certos estereótipos do filme de festival não significa que ele seja um arrivista do cinema de arte. Seu trabalho é fruto de um longo processo de depuração, de uma série de questionamentos sobre o papel do cinema.

Ele começa a fazer filmes em 1965, depois de perder, com o golpe militar em seu país, seu emprego como crítico de cinema em um jornal de esquerda. Seus primeiros filmes são paineis históricos e políticos que ainda refletem a crença na primazia do coletivo sobre o individual.

Gradualmente, a história vai para o pano de fundo, e os personagens ganham destaque. Em seus filmes mais recentes e conhecidos – “Paisagem na Neblina” (1988), “Um Olhar a Cada Dia” (1995) e “A Eternidade e um Dia (1998), Palma de Ouro em Cannes – , Angelopoulos submete seus protagonistas a longas viagens físicas e emocionais.

“A Poeira do Tempo”, segundo episódio de uma trilogia sobre as raízes da Grécia no século 20, parece sugerir um encontro entre a fase histórica e a existencial de sua obra. O protagonista (Willem Dafoe) é um cineasta americano de origem grega que decide contar a história de seus ancestrais – que passa por Itália, Alemanha, Rússia, Cazaquistão, Canadá e EUA. Ao final, percebe-se que a jornada familiar do cineasta confunde-se com a história do século passado.

Como bom grego, Angelopoulos passou boa parte de sua obra refazendo o mito da “Odisseia”. E acabou transformando a própria carreira em um exemplar acabado de uma grande jornada geográfica e existencial.

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