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03/02/2012 - 17:27

A política de cotas do Oscar

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Depois de finalmente ver uma quantidade razoável de filmes indicados ao Oscar deste ano e ser sistematicamente assaltado pela sensação de déjà vu, eu cheguei à conclusão de que o prêmio tem uma política de cotas. Ou seja, os membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood indicam, ano após ano, filmes diversos entre si, mas com perfis muito semelhantes a outros concorrentes do passado. Não é um movimento combinado, claro, até porque eles são mais de 5 mil. É simplesmente o resultado da decantação de um gosto médio dos profissionais de cinema hollywoodiano (o grosso dos membros da Academia) ao longo de muitos anos. Olhando para a lista dos nove indicados ao prêmio de melhor filme neste ano (a cerimônia de entrega será no dia 26 de fevereiro), as cotas deste ano são as seguintes:

1 – A cota do drama cômico sobre um homem em crise de meia idade

Um sujeito maduro tem sua rotina abalada por um evento inesperado – um acidente com a mulher, uma paixão pela vizinha etc. – e começa a rever sua vida. O filme costuma começar como uma comédia levemente sarcástica e terminar como um drama delicado.

Indicado deste ano: “Os Descendentes”

Indicados do passado: “Beleza Americana”, “Sideways”, “Amor sem Escalas”

2 – A cota do drama racial meigo

O filme lida com histórias pesadas de preconceito racial, mas de maneira amena, pitoresca, estereotipada, para não agredir a sensibilidade do espectador. Em geral, rende indicações nas categorias de atuação para atores negros – uma maneira de a Academia rebater a histórica acusação de falta de diversidade racial

Indicado deste ano: “Histórias Cruzadas”

Indicados do passado: “Conduzindo Miss Daisy”, e “Tomates Verdes Fritas”

3 – A cota do filme de Arte com “A” maiúsculo

O filme fala sobre algum dos Grandes Temas da Humanidade, o diretor é considerado um Gênio, a produção é Grandiosa. É melhor indicar para não passar vergonha, mesmo achando um saco. Vai que depois acusam a Academia de cometer uma injustiça histórica, tais como as feitas contra Orson Welles e Alfred Hitchcock.

Indicado deste ano: “A Árvore da Vida”

Indicados do passado: “O Último Imperador”, “O Pianista”, “Cisne Negro”

4 – A cota do filme estrangeiro inofensivo

Em geral, é uma categoria ocupada por dramas de época ingleses – afinal, o sotaque britânico soa tão artístico. Mas em anos de boa vontade multiculturalista a Academia até topa indicar um italiano ou um francês. De preferência, filmes que não complicam muito a vida do espectador, como aqueles que são exibidos em Cannes. E o deste ano ainda tem a vantagem de ser mudo, então nem precisa ler as legendas.

Indicado deste ano: “O Artista”

Indicados do passado: “O Carteiro e o Poeta”, “A Vida é Bela”, “Desejo e Reparação”, “O Discurso do Rei”

5 – A cota do drama esportivo de superação

Um atleta, um time, um técnico ou um agente chega ao fundo do poço. E então, com a ajuda de um bom amigo ou muita força de vontade, ele dá a volta por cima. Uma obra de cinema que vale por um livro de auto-ajuda.

Indicado deste ano: “O Homem que Mudou o Jogo”

Indicados do passado: “Jerry Maguire”, “O Vencedor”

6 – A cota dos grandes autores americanos vivos

Martin Scorsese e Clint Eastwood podem errar ou acertar, fazer filmes maiores ou menores, mas estão lá, quase sempre, na cadeira cativa (aliás, cadê o “J. Edgar” na lista deste ano?). E agora sem ironia: os caras são mestres, eles merecem. O problema aqui é outro: no Oscar, eles acabam nivelados a diretores muito inferiores.

Indicado deste ano: “A Invenção de Hugo Cabret”

Indicados do passado: “Os Infiltrados”, “Menina de Ouro”, “O Aviador”, “Sobre Meninos e Lobos”, “Gangues de Nova York”

7 – A cota do filme feito para ganhar o Oscar

No trailer, você já saca: aquela narração pomposa, aquela trilha sonora grandiloquente, aqueles letreiros avisando “academy winner” ou “academy nominee”. Depois o filme só confirma: tudo foi pensado, produzido e propagandeado para levar a estatueta para casa.

Indicado deste ano: “Cavalo de Guerra”

Indicados do passado: “O Paciente Inglês”, “A Lista de Schindler”, “Babel”

8 – A cota (deveras minoritária) da comédia “pura”

A comédia não-dramática é provavelmente o gênero mais desprezado pela Academia (depois, talvez, do filme de kung fu). É preciso que o filme seja uma espécie de unanimidade e tenha um diretor de prestígio para conseguir uma indicação. Ou seja, é a mais bissexta das cotas.

Indicado deste ano: “Meia Noite em Paris”

Indicados do passado: “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “M.A.S.H.”, “Tootsie”

9 – A cota do “que filme é esse mesmo?”

Você não ouvir falar do filme antes do anúncio das indicações. Você provavelmente não ouvirá falar depois. E, daqui a alguns anos, você não terá a mínima ideia do que se trata. É uma categoria que cresceu enormemente depois que dez produções passaram a ser indicadas a melhor filme. É o filme de cota para cumprir cota (se bem que neste ano nem isso conseguiram, já que são apenas nove indicados).

Indicado deste ano: “Tão Forte e Tão Perto”

Indicados do passado: “Entre Quatro Paredes”, “Alma de Herói”, “Conduta de Risco”

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6 comentários para “A política de cotas do Oscar”

  1. fabio... disse:

    ………………………………………………………………………………………………..
    ………………………………………………………………………………………………..
    ………………………………………Tá ótimo,
    ………………………………………….Calil .!
    ………………………………………………………………………………………………..
    …………………..ahahahahahahahahahahahahahaah.
    ……………………………………………………………………………………………….
    ………………………………Matou a pau, de novo.
    ……………………………………………………………………………………………….

  2. […] Ricardo Calil: A política de cotas do Oscar […]

  3. Rodrigo disse:

    É uma forma de blindar a Academia dos Crepúsculos e Harry Potters da vida…

  4. joêzer disse:

    Muito bom. Só uma ressalva: O Pianista, de Polanski, merece mesmo estar na mesma lista ao lado de Árvore da Vida e Último Imperador? Sério? A categoria que você identificou é de filmes cheios de pompa e circunstância e que se arrastam para dar a impressão de estar falando de algo muito importante e reflexivo. O Pianista trata de um Grande Tema, mas em sua maior parte é um drama nada bombástico ou filosófico, e não se confunde com uma suposta “obra-prima” existencial ou biográfica.

    • fabio... disse:

      ………………………………………………………………………………………………..
      ……………………É, eu também concordo com você
      ………………………………………Joêzer.
      ………………………………………………………………………………………………..
      ……………..” O PIANISTA ” é o que podemos chamar de
      ………………………….um clássico do cinema.
      ……………………………………………………………………………………………….
      ……………………….Acho que o Calil só errou aí.

  5. paul disse:

    1-Cota para ator ou atriz :A Dama de Ferr
    2-Essas preferencias ou cotas faz com que filmes com Drive, Shame não sejam valorizados.
    3-Antes de ter 9 indicados normalmene era indicado um filme do cinema independente que fazia, um inglês e as vezes um filme de um país europeu que tivesse repercusão

Os comentários do texto estão encerrados.

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