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O melhor de Walter Salles

Postado por calil no dia Setembro 3, 2008 @ 10:06 pm em Uncategorized

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As mãos dos torcedores do Corinthians se agitam em um jogo contra o São Paulo no Morumbi, como se para mandar boas energias para o time. As mãos dos evangélicos se levantam durante um culto em glória ao Senhor. Essas duas imagens intercalam-se na abertura de “Linha de Passe”, novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas, que estréia nesta sexta-feira.

 

É uma seqüência de intensidade estética e emocional. É também um comentário dos cineastas, via montagem, sobre a realidade retratada: vejam só, o grau de entrega do futebol equivale-se ao da religião. A partir dessa abertura, podia-se prever (”temer” talvez seja um verbo mais adequado) um filme no qual os diretores controlam a ação de maneira rígida e estrita.

 

Mas tudo que virá a seguir irá desmentir essa impressão inicial. “Linha de Passe” é o filme mais livre e aberto de Salles (incluindo aí “Terra Estrangeira” e “Primeiro Dia”, também co-dirigido por Thomas). Seus protagonistas - uma mãe e seus quatro filhos, moradores da periferia de São Paulo - parecem vagar pela tela com total autonomia. Claro, trata-se de uma ilusão: os fios invisíveis que controlam os personagens continuam lá, mas nunca foram tão imperceptíveis.

 

Os protagonistas não são apenas seres autônomos, como também misteriosos. O espectador pode pressentir suas angústias: a da mãe Cleuza (Sandra Corveloni, premiada como melhor atriz em Cannes), que tenta manter a unidade da família em meio à luta pela sobrevivência e à queda do Corinthians para a Segunda Divisão; a de Dario (Vinícius de Oliveira, de “Central do Brasil”), que vê suas chanches de virar jogador de futebol profissional minguarem à medida que sua idade avança; a de Dinho (José Geraldo Rodrigues), que busca na religião uma resposta que nunca chega; e assim por diante.

 

Mas essas angústias raramente são reveladas pelos diálogos do filme. Os espectadores precisam decifrá-la por meio de suas ações. Este é o filme de Salles que confia mais no poder da imagem, seu passo mais decidido rumo a um cinema essencial e na direção oposta das convenções narrativas. Não apenas um filme com o final em aberto, mas um filme aberto para o mistério do mundo, que recusa a facilidade do grande momento e da catarse emocional.

 

Um trabalho que mantém marcas essenciais da obra de Salles (a ausência da figura paterna, o realismo agridoce, o olhar desconcertado para certas mazelas brasileiras), mas muito informado também pelo presente do cinema, possivelmente pela visão atenta de cineastas como o chinês Jia Zhang-ke.

 

Em resumo, não apenas o melhor filme de Salles (com a fundamental co-autoria de Thomas), como a promessa de uma carreira renovada.

 


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