Pobre cine latino
Sem querer jogar água no chope da comemoração da Palma de Ouro para Sandra Corveloni, o grande perdedor nas premiações do Festival de Cannes foi o cinema latino-americano. Tinha quatro representantes de peso na competição - ”Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas, “Blindness”, de Fernando Meirelles, “A Mulher sem Cabeça”, de Lucrecia Martel, e “Leonera”, de Pablo Trapero -, mas apenas o primeiro levou o prêmio individual para Corveloni.
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Pode-se argumentar que os latinos saÃram bem na foto apenas por sua presença maciça na disputa, que festival não deveria ser visto como campeonato. Verdade, verdade. Mas também é fato que a escassez de prêmios e a recepção em geral negativa da crÃtica serviram como uma espécie de ducha de água fria para os filmes latinos - que vinham sendo saudados, precocemente, como “a grande história de sucesso do festival”, nas palavras do “Guardian” britânico.
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Em termos de geografia cinematográfica, quais seriam, então, os grandes vencedores do festival? Em primeiro lugar, a França - que levou a Palma de Ouro de melhor filme para “Entre les Murs”, de Laurent Cantet, após 21 sem ganhar o prêmio principal em Cannes. É um reconhecimento justo não apenas para Cantet (dos ótimos “Recursos Humanos”, “A Agenda” e “Em Direção ao Sul”), mas também a uma cinematografia que vive seu melhor momento em décadas, com vários grandes realizadores no auge de suas formas (Desplechin, Assayas, Ozon, Garrell, Denis, Honoré, entre outros).
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Além da França, outro paÃs que retomou fôlego em Cannes foi a Itália, com o Prêmio do Júri para “Il Divo”, de Paolo Sorrentino, e o Grand Prix para “Gomorra”, de Matteo Garrone. Com a dupla premiação, fica a esperança de que o paÃs volte a seus dias de glória e não viva mais de um ou outro talento isolado (Moretti, Crialese) - promessa que vem sendo constantemente descumprida nos últimos anos.
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Para além da tradição européia, Cannes sinalizou discretamente que algo de novo pode estar vindo do Oriente - desta vez, do Próximo, não do Extremo. O turco Nuri Bilge Ceylan levou o importante prêmio de melhor diretor por “Três Macacos”, e o israelense fez barulho com a animação ”Valsa com Bashir”, embora tenha saÃdo de mãos abanando.
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Para finalizar, uma ressalva: festivais importantes, como o de Cannes, são como fotografias que registram um momento especÃfico do cinema mundial. Mas nada garante que a imagem seja completamente diferente daqui a algum tempo, porque o cinema, como se sabe, é a projeção de 24 fotos por segundo. Ou pelo menos era, antes do digital.
